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Full text of "Poetisas portuguesas; antologia contendo dados bibliograficos e biograficos acêrca de cento e seis poetisas"

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NUNO CATHARINO CARDOSO 



Poetisas 
Portuguesas 



ANTOLOGIA CON- 
TENDO DADOS BI- 
BLIOGRÁFICOS E 
BIOGRÁFICOS 
ACERCA DE CENTjÇ 
E SEIS PQÊTJ 




LISBOA 

LIVRARIA SCIENTIFICA 

8í, Rua Nova do Almada, 8i 



Poetisas Portuguesas 



Composto e impresso na Imprensa 
^ ^ de Manuel Lucas Torres ♦ •» 
R. Diário de Noticias, 5g a 6i, Lisboa 



NUNO CATHARINO CARDOSO 



Poetisas 
Portuguesas 



ANTOLOGIA CON- 
TENDO DADOS BI- 
BLIOGRÁFICOS E 
BIOGRÁFICOS 
ACERCA DE CENTO 
E SEIS POETISAS 



\ 



LISBOA 

EDIÇÃO E PROPRIEDADE DO AUCTOR 

1917 




A propriedade literária Oeste livro é 
garantida ao auctor, em Portugal, 
pela lei Õe 18-3-1911 e no Brazil 
pela lei n." 2577 õe 17-1-1912 



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Não é unicamente nas paginas da sua Historia Mi- 
litar, Marítima e Colonial, que Portugal se ufana de 
contar os nomes ilustres de exforçados guerreiros e 
de audaciosos navegadores, os quaes pelos seus bri- 
lhantes e imorredouros feitos, levaram Camões a íêr 
escrito : 

E julgareis qual é mais excellente 
Se ser õo munòo rei, se õe tal gente 

taes e tantos foram os prodígios de valor que Por- 
tuguezes operaram desde a fundação de Portucale 
até Chaimite, Marraquene, Coolela, Magul, etc. Se 
compulsarmos as paginas da nossa Historia Literária, 
deparamos, logo, com uma série de nomes de Se- 
nhoras que, pela sua inteligência e saber, se impõem 
ao mundo culto. 

Completando esse quadro já de si soberbo, vemos 
que não é somente nas letras, mas ainda em quasi 



VI "- 



todos os ramos d'actividade intelectual, que se teem 
distinguido as Damas Portuguezas. 

Assim, em tempos idos, floresceram : na pintura^ 
Josépha d'AYaIa, Soror Maria da Cruz, a duqueza 
D. Anna de Lorena, e Luiza Maria Rosa ; na cerâ- 
mica, Ignacia de Almeida ; na avchitéctura, Mar- 
garida de Noronha ; como teóloga, Izabel de Cas- 
tro ; como matemática, a Condessa de Serem e Al- 
buquerque ; como filosofas e humanistas : Marianna 
d'Abrantes, falecida contando apenas 17 anos e au- 
ctora de varias obras sobre Retórica Moderna e Fi- 
losofia Moral, Joana Michaela, Umbolina de Távora ; 
e, finalmente, como literatas : D. joanna da Gama, 
auclora dos Ditos de Freira ; Soror Brigida de Santo 
António (D. Leonor de Mendanha), D. Feliciana de 
Milão, D. joanna Ignez da Cruz, a decima musa, co- 
gnome que Lope da Vega também deu a Oliva de 
Nantes e que anteriormente havia sido posto a Ber- 
narda Ferreira de Lacerda, auctora da Espanha Li- 
bertada e das Saudades do Bussaco; D. Izabel 
Corrêa, D. Helena da Silva, Soror Maria de Mesquita 
Pimentel, auctora de Cantos religiosos, Soror Maria 
Baptista, auctora á'Obras ascéticas; Thereza Mar- 
garida da Silva e Horta, auctora de Máximas da 
virtude e formosura com que Diophanes, Cly- 



-VII 



meno e Hemireno, príncipe de. Thebas venceram 
os mais apertados lances da desgraça; D. Maria 
do Céo e D. Maria Magdalena Eufemia da Gloria, para 
não falar noutras notabilidades femininas. 

Que brilhante plêiade de nomes ilustres vem de 
eras remotas até nossos dias! 

Que magica aureola envolve os nomes da Rainha 
Santa, convertendo ouro em fragrantes rosas ; os de 
D. Filipa de Vilhena e D. Marianna de Lancastre, ar- 
mando cavaleiros seus próprios filhos, bem como os 
da varonil Duqueza de Bragança, D. Júlia de Gus- 
mão, e da arrebatada e lendária Maria da Fonte! 



Mãe de tantos Lusos insignes, a Mulher Portuguesa 
revive sempre pela grata lembrança de suas obras li- 
terárias e piedosas e por seus feitos militares e va- 
ronis. 

Como, ainda hoje, séculos passados, é suave e em- 
polgante ler essas cartas de Soror Marianna, a Freira 
Portuguesa, cartas em que o amor, a ternura e o 
sofrimento em cada pagina se manifestam ! 

Como, ainda hoje, é grato pensar na Rainha D. 
Leonor, a fundadora d'hospitaes e de misericórdias, 
e que tantos beneficios espalhou no Paiz l 

Como, ainda, volvidos tantos séculos, nos curvamos 



VIII - 



reverentes, ante os nomes da Condessa de Castelo 
Melhor, da Condessa de Penaguião, de D. Luiza de 
Faro, de Helena Peres, de Deusadeu Martins, da Pa- 
deira de Aljubarrota; de Antónia Rodrigues, pelejan- 
do em Mazagão, de D. Izabel de Castro, lactando no 
cerco de Alcácer contra o rei de Fez, de D. Izabel 
de Galvão, em Ceuta, de D. Maria Úrsula, em Am- 
boná, intrépidas guerreiras, companheiras de Izabel 
da Veiga, Anna Fernandes e Catharina de Sousa que 
na índia deram sobejas provas de audácia e de bra^- 
vura ! 



Como se no século XVI não bastassem os nomes 
de Camões, Bernardim Ribeiro, Cristovam Falcão, 
Sá de Miranda, António Ferreira, Diogo Bernardes, 
Gil Vicente, João de Barros, Damião de Góes, Fer- 
não Mendes Pinto e outros, para tornarem em ex- 
tremo gloriosas as paginas da Historia Literária da 
Pátria onde nasceram, como se o nome do Cantor 
dos Luziadas não fosse só por si penhor bastante 
para representar, belamente, uma literatura inteira, 
surgem, também, os nomes notáveis de Paula Vicente, 
filha de Gil Vicente e sua colaboradora; da Infanta 
D. Maria, filha de D. Manoel I e de sua terceira mu- 



IX — 



Iher, Infanta tão letrada e conhecida pelo esplendor 
dos Serões da infanta, a que se refere Sá de Mi- 
randa, e que tanto brado deram ; de Publia Horten- 
cia de Castro ; de Leonor de Noronha, e de Joanna 
Vaz, a par das irmãs Luiza e Paula Sigea, conjuncto 
este de damas que, sem duvida alguma, teve impor- 
tante papel no resurgimento literário que nessa época 
se dá em Portugal. 

Os conhecimentos que essas Senhoras possuíam, 
não se limitavam ao estreito âmbito que algumas pes- 
soas podem supor. 

Conheciam bem — línguas, teologia, filosofia, e hu- 
manidades. 

E' deste modo que, aos desasete anos de idade, 
Publia Hortencia de Castro, que não pertencia á fa- 
lange nobre dirigida pela Infanta D. Maria, tendo 
cursado filosofia, humanidades e teologia, defende 
teses em Évora, em 1563. A sua erudição era tal, que 
Filippe II — que assistiu a uma prova publica em 
que Publia Hortencia de Castro sustentou das mais 
dificeis teses teológicas — lhe concedeu uma pensão 
vitaHcia. 

Não nos deverão, todavia, admirar em extremo es- 
tes factos, se atendermos a que Joanna Vaz, filha do 
licenciado ]oão Vaz e uma das três damas da In- 



- X - 



fanta D. Maria, escrevia em árabe, hebraico, grego e 
latim, ao Papa Paulo III. 

No século seguinte, apesar da decadência que já 
se nota na Literatura Portuguesa, ainda se destinguem, 
entre outras, Soror Violante do Ceu, auctora das Ri- 
mas [/árias e do Parnaso dos Divinos e Huma- 
nos versos; Soror Marianna, auctora dessas admi- 
ráveis cartas dirigidas ao cavaleiro de Chamilly; e a 
Condessa de Ericeira — D. Joanna de Menezes, — 
muito versada em castelhano, latim, italiano e francês 
e que escreveu quatorze volumes em que tratou as- 
suntos vários. 



Desejando prestar a minha homenagem a tantas 
Senhoras Portuguesas que, de meados do século 
findo, até hoje, se teem notabilisado como Poetisas, 
(abro três justas excepções, tratando da Marqueza de 
Alorna, da Viscondessa de Balsemão e de D. Fran- 
cisca Possolo da Costa, que viveram num periodo 
anterior á data marcada para inicio deste trabalho), 
ou que simplesmente teem versejado com felicidade, e 
que tão nobremente teem sabido continuar as glorio- 
sas tradições literárias de suas antecessoras, resolvi 
consagrar ás Poetisas Portuguesas o primeiro volume 



- XI 



desla Antologia, na qual, Portugueses, Brazileiros e 
Estrangeiros encontrarão inúmeras jóias dispersas do 
nosso vasto tesouro poético. 

Da inteligência, saber e mérito de cada uma das 
Musas de que se ocupa este livro, mais do que eu 
possa dizer, falam as suas composições poéticas, nas 
quaes, a cada passo, encontramos sentimento, graça, 
lirismo e beleza que nos seduz e encanta. 

Como poderiam deixar de ser notáveis as Senhoras 
que nasceram na Pátria que se honra de contar na 
numero de seus filhos insignes : 

Garrett, Herculano, Castilho, João de Deus, An- 
íhero do Quental, Camillo Castello Branco, Eça de 
Queiroz, Ramalho Ortigão, Fialho d'Almeida, julio 
Dinis, Gonçalves Crespo, Thomaz Ribeiro, Bulhão 
Pato, Conde de Monsaraz, Fernando Caldeira, D. 
João da Camará, Sousa Monteiro, João de Lemos, 
Faustino Xavier de Novaes, Xavier Cordeiro, Soares 
de Passos, Gomes de Amorim, Palmeirim, Simões 
Dias, Alexandre da Conceição, Guilherme de Azevedo, 
Guilherme Braga, Abel Botelho, António Feijó, Luiz 
de Araújo, Rebello da Silva, Mendes Leal, Pinheiro 
Chagas, Latino Coelho, Oliveira Martins, Silva Pinto, 
Sousa Viterbo, Consiglieri Pedroso, Innocencio F. da 
Silva, Annibal Fernandes Thomaz, Rodrigues Sam- 



XIi 



paio, Teixeira de Vasconcelos, António Ennes, Ma- 
rianno de Carvalho, Emygdio Navarro, Silveira Ma- 
lhão, Alves Mendes, Rodrigo da Fonseca Magalhães, 
José Estevão Coelho de Magalhães, Júlio César Ma- 
chado, D. Maria AmaHa Vaz de Carvalho, Theophilo 
Braga, Xavier da Cunha, Fernandes Costa, Guerra 
Junqueiro, Gomes Leal, Adolfo Coelho, Júlio Dan- 
tas, Eugénio de Castro, António Corrêa de Oliveira, 
Aííonso Lopes Vieira, Alberto Bramão, Augusto Gil, 
Júlio Brandão, Alfredo da Cunha, MarcelHno Mes- 
<}uita, Lopes de Mendonça. Alberto Pimentel, Carlos 
Malheiro Dias, João de Barros, etc, etc. 

Antecedendo as produções de cada uma das poe- 
tisas que figuram no primeiro volume da Antologia 
Portuguesa, que deverá compor-se de 6 tomos e 
para a feitura da qual já consultei, sem um momento 
de desfalecimento, cerca de mil e cem obras poéticas 
— ha uns ligeiros dados biográficos e bibliográficos 
que, propositadamente, escrevi numa linguagem sim- 
ples, desapaixonada e sem hipérboles, dados que ser- 
vem para apresentar cada uma das Senhoras a quem 
me refiro. 

Muitas das poetisas de que trato, por demasiada- 
mente conhecidos seus nomes e apreciadas suas obras 
literárias, não careciam de apresentação, se desse mo- 



XIII - 



do não desejasse reunir muitos elementos dispersos, 
duma matéria que entre nós tem sido pouco versada 
(Vide pag. 165 deste trabalho), e tornar mais útil e 
mais interessante esta obra que, pelas notas biográfi- 
cas e bibliográficas que insiro, fornece os elementos 
necessários para se poder proceder a um balanço do 
movimento intelectual feminino em Portugal, a partir 
de meiados do século XIX, até nossos dias, designio 
que, embora não completamente, penso ter realisado. 

Ao organisar os seis volumes que constituem esta 
Antologia que, pela sua orientação e conjuncto, con- 
sidero uma das mais completas de quantas tentativas 
e realisações similares se íeem efectuado em Portugal 
e no Estrangeiro, não tive só em mira prestar a mi- 
nha calorosa e respeitosa homenagem ás Damas Por- 
tuguesas e aos Poetas Portugueses como também 
dotar o meu Paiz com uma obra que ele ainda não 
possuía, não obstante tão grande lacuna ser ha muito 
notada. 

Apezar de todas as meticulosas investigações e do 
cuidado que puz em não omitir o nome de qualquer 
poetisa que, de todo em todo, fosse injustiça deixar 
de citar, certamente uma ou outra omissão haverá. 

A's Senhoras que tendo merecimento e direito a 
figurarem na minha obra, nela não virem o seu nome, 



XIV- 



peço me relevem essa falta, que só o desconheci- 
mento de suas produçí3es poéticas ou a dificuldade 
em obter dados biográficos me levou a cometer. 

Se não fosse um tanto ou quanto rebelde a clas- 
sificações e se uma vez estas estabecidas, não trou- 
xessem melindres (razão porque resolvi, para os evi- 
tar, seguir neste livro a ordem alfabética), dividiria as 
poetisas a que me refiro, em : Poetisas falecidas e 
Poetisas vivas. 

Estas ultimas, subdividi-las-ia em dois grupos. 

Como esta Antologia, pela sua própria natureza, 
não é um livro de critica literária, embora algumas 
das poetisas citadas tenham, é certo, mais mereci- 
mento que outras, abstenho-me de taes classificações 
que deixo ao critério e preferencia do leitor. 

Concluindo estas explicações, resta-me apresentar 
a todas as Senhoras e Pessoas a quem tive a honra 
de entrevistar e a todas as Damas e Cavalheiros que 
tiveram a amabilidade de me prestarem esclareci- 
mentos, a expressão mais sincera do meu grande e 
profundo reconhecimento pela forma captivante com 
que umas e outros se dignaram anuir aos meus pe- 
didos. 

A's Ex."^' Senhoras D. Mecia Mousinho de Albu- 
querque, D. Zulmira Franco d'Almeida Teixeira, D. 



XV - 



Maria Jacintha Teixeira Bastos, Q. Esther Amália da 
Cunha Delem, D. Maria Figueiredo Feio Rebello 
Castello Branco, D. Lia de Magalhães CoUaço, D. 
Branca da Silveira e Silva, D. Alda Guerreiro Ma- 
chado, D. Emilia Adelaide Moniz da Maia, D. Maria 
0'Neill, D. Rosalinda Celeste de Figueiredo Santos, 
e D. Rosa Varela que quizeram enriquecer esta An- 
tologia, cedendo-me valiosos inéditos, aqui deixo ex- 
presso o preito da minha maior gratidão. 

Lisboa, Junho õe 1917. 

Nuno Cathãrino Cardoso. 



POETISAS PORTUGUESAS 



ANTOLOGIA 



D. MARIA ANNA ACHIOLI 

D. Maria Anna Achíoli nasceu em Torres Veõras. E' filha 
ôe D. Lia ôe Magalhães Collaço, ôa Casa ôe Conôeixa e òo 
òr. Fonseca Achioli, ôescenôente õe uma família nobre e 
ilustre õe Florença. 

E', portanto, D. Maria Anna Achioli bisneta õos conòes Òe 
Condeixa e sobrinha õos conões ô'Aviléz. 

D. Maria Anna Achioli, apezar õe muito nova, tem já a 
sua viõa esmaltaõa por titulos õe valor literário e artístico. 

Obteve 20 valores no seu exame õo quinto ano õe portu- 
guez, no liceu. E na pintura foi õiscipula õilecta e notável 
õe Maõame Zoé Wautelet Batalha Reis. 

As suas poesias são tão singelamente naturaes, tão im- 
pregnaõas õe canõura, tão filhas õe um granõe coração, que 
bem se encarregam essas obras õe iniciarem o alvorecer Õe 
uma vocação poética õe primeira orõem. 

CHAPINHANDO 

Ao Õe leve, na viõraça 
bate a chuva miuõinha 
e ella, a Maria õa Graça 
finge que a saia arregaça 
e ri com gosto, a tontinha ! 



Poetisas Portuguesas 



A cabeça òescoberta 

e a chuva tão miuõinha . . . 

E ella a rir. Iravessa e esperta, 

pára na rua, õeserta, 

e os pés na lama chapinha. 

O cabello a òesfrizar-se 
com a chuva miuõinha. . . 
e ella, rinôo, a arregaçar-se, 
como quem sêòas trajasse 
em vez Õe curta sainha. 

Ris, pequena enòiabraôa ? 
E a chuva cae miuõinha . • 
mas olha a saia encarnaôa 
que ôe tanto arregaçaòa, 
se não vê, a pobresinha ! 

Que gosto é esse, Maria ? 
Cai a chuva miuòinha. . . 
foge, corre, que ella é fria 
e eu sei que alguém choraria 
ao saber-te doentinha. 



Maria Anna Achioli. Almanach de Lembranças^ 1913, pag. 
150. 



LAR FELIZ 

Olha o sol já se escon&eu, 
Não tenho tempo a perôer. 
Vem o Manei, quer comer. 
Toôo o õia a trabalhar, 
E' tempo Òe õescançar !• . - 
Tão branco e tão pequenino, 
Como ôorme o meu menino 
O filho que Deus me ôeu ! 



Poetisas Portuguesas 



Na mesa nova õe pinho 
Manchanõo a alvura 5o linho 
Luz o veròe cangirão, 
Dois talheres, copos e pão. 

Ah ! mulher, temos bom anno, 
Não ha fome cá n'alõeia, 
A espiga é granôe e cheia, 
Cahiu a agua ôos Céus 
E inchoua, benza-a Deus! 
E a gente sempre a pensar 
Que a chuva a vinha estragar, 
E ás terras causar õamno. . . * 

A comiòa é bem frugal 
Batatas, couves com sal ; 
Mas na terrina alõeã 
Cheira a sopa a hortelã. 

— Está boa a ceia, Maria ; 
Ah ! . Olha lá, meu amor, 
Faz hoje um ânno, pois não ? 
Que o bom õo senhor prior 
Me Õeu para a minha mão 

A cachopa mais bonita, 
A moçoila mais catita 
Que eu vi lá na romaria. — 

E os copos enchem-se então 

— <A' nossa e á ôo petiz>, — 
Fructo õ'aquella affeição, 
Enlevo òo lar feliz ! 



Maria Anna Achioli. 



4 Poetisas Portuguesas 

D. VIRGÍNIA DA C SILVA AGOAS 

Faleceu contanôo apenas 27 anos òe iôaõe, Era filha 5o 
empregado Ôo Ministério òa Fazenòa — Agoas. 

O seu volume òe versos, Ouír'ora, prefaciado pelo Dr. 
Canõiòo õe Figueiredo, foi comprado por mim em plena 
rua, onde se vendia por preço ridículo, como sucede a tan- 
tas outras obras. O facto apontado é a prova evidente do 
pouco interesse que uma bôa parte dos Portuguezes tem 
por assumptos literários. 

E' com satisfação, que presto homenagem á sua auctora, 
que em vida, tão assidua e distinctamente colaborou no in- 
teressante jornaí Os Echos da Avenida que já conta bastan- 
tes anos de existência e no qual se encontram as biogra- 
fias e retratos de pessoas mais em evidencia no nosso meio 
literário. D. Virgínia Agoas colaborou também nos jornaes 
A Tarde, Folha do Sul, de Montemór-o-Novo, etc. Num 
certapien literário iniciado pelos Echos da Avenida, em 1906, 
uma das suas quadras foi das mais votadas. 

Esta Poetisa tinha grande vocação para a pintura e para 
a musica. 

Escreveu ainda, um livro de contos. Silvas, prefaciado por 
Carlos Malheiro Dias e que á semelhança do que aconte- 
ceu com o seu volume de versos, foi publicado postuma- 
mente. 

SAUDADE 

Saudade tem-se de uma rosa linda 

que a gente vê desfolhar tristonha, 

Saudade tem-se, quanto mais se sonha. . . 

De um bem que morre. . de um prazer que finda. 

Saudade, causa tanta vez, ainda, 
a própria Dôr — a sensação medonha. 
Mas essa é, a que provem risonha, 
do recordar de uma ilusão infinda. 



Poetisas Portuguesas 



Sauõaôe — encanto e lagrimas — existe 

ôe um sonho bom õe um sonho belo ou triste, 

e tuôo envolve em sua roxa côr. 

Sauôaòe ! — ai é sentir toòo um passaõo 
nitiòamente e sempre reavivaõo, 
— é òerraòeira pagina õo Amor. 

Virgínia Agoas. Outrora, versos póstumos. Porto, 1913, 
pag. 11 e 12. 



IMACULADA 

Um primor ôe arte antiga e requintada 
essa meôalha Òe subtis lavores, 
que eu encontrei um õia abanõonaõa 
no banco ôe um jaròim, por entre flores. 

Na tampa õe oiro, oval e cinzelada, 
exibia uns iôilios ôe pastores, 
abraçanôo-se á luz ôa maôrugaôa, 
nos mais simples e canôiôos amores. 

Encontrei-a, — e uma intensa vontaôe 
levou-me a abril-a, cheia ôe ancieôaôe, 
essa meôalha antiga e cinzelaôa. • 

Vi então, mais formosa ôo que Ester 
um retrato ôe ôeusa, ou ôe mulher, 
e uma palavra só : — Imaculada ! 

Virgínia Agoas. Outr'ora, pag. 15 e 16. 



Poetisas Portuguesas 



DORMIR -ESPERAR . 

Dormir, ôormir — esquecer 
Coisa boa, que inõa existe ! 
Dormir é quasi morrer, 
Allivio Õe quem é triste. 

O tormento mais amargo, 
o mais luminoso amor, 
tuõo cae n'esse letargo, 
sempre pacificaôôr ! 

Dormir ! — A paz para a alma ! 

— Tréguas para qualquer ôôr ! 

— Descanso para o sentir ! 

— Vaga, que instantes acalma ! 
Morte efémera õo Amor 
Esquecer . . Dormir, Ôormir ! 

Virgínia Agoas. Outr^ora, pag. 41 e 42. 



No calvário espinhoso ô'esta viôa, 
vou caminhanõo em busca ôe uma luz 
que me será ôepois, na õespeòiõa, 
õerraôeiro clarão, õeposta a cruz. 

Virgínia Agoas. Outr'ora, pag. 83. 



Poetisas Portuguesas 



D. MARIA CECÍLIA AILLAUD 

D. Maria Cecília Aillauõ nasceu em Coimbra, senôo filha 
òe João Peõro Aillauõ, negociante vinõo õe França e que 
se estabeleceu naquela ciôaôe. 

Em 1808 casou-se com o õr. Manuel Mathias Vieira e Fia- 
lho õe Menôonça, latinista notável e poeta, e Òe quem en- 
viuvou em 1833. 

D. Maria Cecília Aillauõ, eõucaôa no Colégio Õas Urseii- 
nas, foi uma pianista muito notável. Teve por professor o 
estuõante Õe matemática ]oão Evangelista Torrianí, a quem 
D. Frei Francisco õe S. Luiz veiu a chamar insigne tocador 
de piano em que mostrava particular gosto e expressão. 

D. Maria Cecília Aillauõ foi bastante infeliz. 

Após a morte õe seu mariõo, faleceu-lhe uma filhinha. 
Em 1834, õeixava õe existir seu filho, aluno õístíncto, e pre- 
miaõo em toõos os anos õa Universiõaôe e a quem õeõi- 
cava particular estima. 

Nos escriptos õe D. Maria Cecilía Aillauõ preõomina 
sempre granõe sauõaõe pelo filho e granõe amor e respeito 
pela religião. 

D. Maria Cecília Aillauõ õeixou muitos escritos originaes 
e traõuziu bastantes trechos Õe auctores eclesiásticos e pro- 
fanos, como : Bossuet, Massillon, etc, La Harpe^ Buffon, 
Saint Lambert^ Voltaire, Rousseau, Corneille, Racine, Mo- 
lière, Chateaubriand, Victor Hugo, Metestasio, etc. 

Foi também auctora Õe meõitações, pensamentos, e õe 
varias poesias. 

A sua obra principal são as suas óMemorias. 

Estes apontamentos foram extractaõos, em parte, õa obra 
A Mulher em Portugal Õe D. António õa Costa. Nas Cartas 
Selectas õe Fonseca Pinto vem também um interessante ca- 
pitulo sobre esta Senhora que faleceu em 1857. 

As poesias que apresento õ'esta Poetisa, õevo-as á ama- 
biliõaõe õe Carlos Augusto õe Almeiõa. Foram traõuziõas 



Poetisas Portuguesas 



pelo òr. Castro Freire que foi lente òe matemática e antigo 
Vice- Reitor õa UniversiõaÔe ôe Coimbra. 



A' MEMORIA DE MEU CARO FILHO 
MANUEL MATIAS VIEIRA 

Tu que brilhar fizeste 
Em minha noute escura 
Doce raio õe amor e luz celeste ; 
Tu que na terra teu amor me oeste 
^■' Ah ! òe mim não te esqueças lá no céu. 

Maria Cecília Aillauô. 



De colina em colina vagueando 

Do sul ao aquilão, 
Meus olhos Òesôe a aurora ao occiôente 

Tuòo correnõo vão. 
Eu òigo : minha vista em vão procuro 
Em sitio algum depara com a ventura ! 

Estes valles, as rochas, os palácios 

E as chossas õe pastor 
Para mim vãos objectos sem encanto 

Não tem algum valor. 
Sem um ser que vos falta, amenos praòos, 
Rios, bosques, sois ermos, escalvados. 

Quer o giro ôo sol vá ter principio 

Quer esteja a findar 
Eu, insensível sempre ; pelos ares 

O vejo caminhar : 
Quer sumido entre nuvens, quer radioso 
Que importa o sol e o dia ao desditoso ? 



Poetisas Portuguesas 



Ainõa que em seu giro eu o seguisse 
Dos céus pela extensão, 

Meus olhos sequiosos só reviam 
O vácuo, a solidão : 

De quanto cobre o sol naõa apeteço 
Ao munòo inteiro cousa alguma peço. 



Que importa no momento ôo naufrágio 
Se em pomposo baixel se ha navegaôo, 
Ou se n'um batel ligeiro 
Solitário e passageiro, 
Se tem somente a praia borõejaôo ? ! 
Maria Cecília Aillauò. 



D. ANNA DE ALBUQUERQUE 

D. Anna õe Albuquerque foi actriz õo teatro òe D. Ma- 
ria II, hoje Teatro Nacional, onõe fez a sua estreia, não fa- 
zenôo má figura, segundo assevera Sousa Bastos, no seu 
livro Carteira do Artisía, que ácêrca òesta Senhora pouco 
mais aõeanta. 

D. Anna õe Albuquerque abandonou a carreira teatral, 
para se casar com o general e par ôo reino D. Luiz da Ca- 
mará Leme. 

A poesia que apresento foi publicada na Tragedia, n." 
único de um jornal publicado pela sociedade dos artistas 
dramáticos do Teatro de D. Maria, destinado a socorrer as 
victimas dos terremotos em Hespanha, jornal no qual cola- 
boraram, entre outros, António Pedro, Augusto Rosa, Rosa 
Damasceno, Carolina Falco, Joaquim de Almeida, Thomaz 
Ribeiro, Eduardo Coelho, Fernando Caldeira, etc. 

D. Anna de Albuquerque colaborou no Almanach dos Pal- 
cos e Salas, de 1899 e foi directora, segundo me informam, 
do Almanach D. Luiz. 



10 Poetisas Portuguesas 

Sae-nos òo coração um pranto aròente 
um mysterio, um perfume, um branôo som, 
como passa no ar o aroma quente 
õas aras virginaes ò'um anjo bom. 

E o nosso amor, os nossos ais maguaòos, 
õa nossa õôr as expansões tão francas, 
irão cair aos pés õos Òesgraçaõos 
como um Õiluvio òe violetas brancas. 

Anna ôe Albuquerque. Tragedia, 1885, pag. 6. 



D. MAFALDA MOUSINHO 
DE ALBUQUERQUE 

D. Mafalõa Mousinho òe Albuquerque que nasceu em 
Lisboa, é como sua irmã D, Mecia Mousinho Ôe Albuquer- 
que, ôe ilustre ascenõencia, não ôevenôo nós Portugueses 
esquecer que á mesma ilustre familia, cuja nobreza vem ôo 
tempo ôe D. Diniz e que tem ôaôo a Portugal tantos guer- 
reiros e literatos, pertence Joaquim Mousinho ôe Albuquer- 
que, o heroe ôe Chaimite. 

Seu avô Luiz Mousinho ôe Albuqnerque, poeta ôe nome 
e homem ôe Estaôo notável, foi uma ôas figuras ôe ôesta- 
que na Revolução Patuleia, pela qual morreu na batalha ôe 
Torres Veôras. 

Seu pae FernanÔo Mousinho ôe Albuquerque, alem Ôe 
ser um liberal, foi também um bravo. Foi um ôos mais in- 
trepiôos caôetes que a ôivisão auxiliar que foi á Hespanha, 
levou para combater o exercito Carlista. No combate ôe 
Chão da Feira, foi feriôo ; e á frente ôo Batalhão Acadé- 
mico, caiu varaôo ôo peito ás costas, no violento combate 
ôo Alto do Viso. 

Apesar ôe D. Mafalôa ter tantos motivos para justificaõo 



Poetisas Portuguesas 11 



orgulho, escolheu e firmou quasi toòos os seus trabalhos 
literários com o ôespretencioso pseudónimo ôe Modtsta. 

Foi nos últimos tempos õo granõe poeta Thomaz Ribeiro, 
que apareceram os primeiros versos òe D. Mafalòa Mou- 
sinho e que tantos encómios mereceram ao falecido auctor 
ôo D. Jaime, que tornou conheciõa Ôo publico D. Mafalda, 
que nessa época pouco mais era que uma criança. 

Não se enganou, pois, Thomaz Ribeiro, quando profetisou 
que D. Mafalda Mousinho de Albuquerque seria uma boa 
poetisa, o que esta Senhora plenamente justificou com a 
publicação das Nevadas Penas, aparecidas sob o pseudó- 
nimo de Rubem de Lara, livro tSo querido de sua auctora, 
bem como o romance Um Rembrandu obras estas em que 
Rubem de Lara e Modesta atingiu a maior perfeição nos 
seus versos e na sua prosa elegante. 

Em- 1906 publicon o seu primeiro livro : Contos, prefaciado 
por D. João da Camará. 

Em 1907, Versos, prefaciado pelo dr. Cândido de Figuei- 
redo. 

Em 1908, O Coração dum Sábio, em que defende como 
remédio social o divórcio. 

Em 1910, Um Rembrandt e finalmente em 1913, Nevadas 
'Penas, obras estas que abordam assumptos tão diferentes, 
mas que nunca ferem a nota politica a que D. Mafalda é 
completamente extranha. 

Do valor literário dos trabalhos de D. Mafalda Mousinho 
de Albuquerque falam nos mais elogiosos termos, as chro- 
nicas literárias de vários jornaes, firmadas por António de 
Campos Júnior, Cândido de Figueiredo, o falecido dr. Adolfo 
Sarmento, etc. 

SOMBRA 

Nem eu própria sei bem porque sou triste, 

Porque esta imensa dôr 
Me annuvia, e me mostra quanto existe 

Sombrio, aterrador ! 



12 Poetisas Portuguesas 

Bem sei que para toòos ha espinhos 

Nas rosas õo viver ! 
Que toòos têm nos ariõos caminhos 

Da viõa, que soffrer ! 

Que nem tuõo é sinistro e negro e feio 

Em ôerreòor Õe mim ! 
Mas não sei que tristeza, que receio 

Gela meu peito assim ! 

Quando em pequena ainòa, me acolhia 

Ao regaço òa mãe, 
Dizem que poiícas vezes me sorria ; 

E eu lembro-me também ! 

Hoje, em mulher, as sombras carregaram ! 

E, não sei bem porquê, 
Inõa as minhas tendências não muõaram : 

Ninguém sorrir me vê ! 

MoÒesta. (Mafalòa Mousinho Õe Albuquerque). Versos, 
Lisboa, 1907, pag. 29 a 30. 



SEM REMÉDIO 

Alta noute. Na alcova, a lamparina 
Lança uma luz serena, incerta e baça. 
Pela memoria a òesòitosa passa 
Os caprichos õa sua infausta sina. 

E emquanto triste e languiõa õeslaça 
As roupas õe cambraia e musselina, 
Sobre o peito õe novo a fronte inclina, 
Como a estatua õa õôr ou õa õesgraça 



Poetisas Portuguesas 13 

No braço, envolto em renôas perfumaòas, 
Duas manchas enormes, azulaòas. 
Que enfureciõo alli deixara alguém, 

Trouxeram-lhe a sauôaôe òentro õ'alma, 
Da viõa pobre, mas suave e calma. 
Que ella gosára ao pé õe sua mãe ! 

Moòesta. (Mafalôa Mousinho ôe Albuquerque). Versos, 
pag. 87 e 88. 



POR QUE TE AMO 

Amo- te, porque és tu a luz bemôita 
Que as trevas õesta viõa me alumia ! 
Porque és tu minha única alegria ! 
Doce conforto õa minha alma afflicta ! 

Pharol abençoado que me guia 
Neste mar ò'amargura e õe õesôita, 
Onõe o meu coração se estorce e agita 
Numa longa, uma intérmina agonia ! . . . 

Amo-te, porque neste ignaro munôo 
O meu longo Descrer Õoiõo e profunõo. 
Não m'o expulsa ôo peito mais ninguém ! 

Porque ninguém no munõo se compara 
Comtigo, alma õe luz formosa e rara ! 
Sublime encarnação õe toõo o bem. 

Moõesta. (Mafalõa Mousinho õe Albuquerque). Versos, 
pag. 148. 



14 Poetisas Portuguesas 



/EQUO ANIMO! 

Vós o sabeis, senhora ! — Com certeza, 
O sabeis quasi como eu próprio sei ! — 
Que para mim não ha mais oura lei 
Que esta ôa vossa glacial frieza ! 

Mas como a gente a tuôo se habitua, 
E' para mim um facto, assente agora, 
Que hei-õe seguir por toòa a viõa fora, 
Observanõo uma lei severa e crua ! 

E' vosso nome o raõioso grito 
Que aos meus lábios acoòe sem cessar ! 
Se òesviaes òe mim o vosso olhar. 
Não podereis também vêr um ôelicto. 

Neste preito õe amor tão levantaòo. 
Que se póõe chamar-lhe aôoração ! 
Senhora, que me õaes a inspiração ! 
Senhora, que sois toõo o meu cuiõaôo ! 



O amor nunca se mendiga 
E' ou não é .. e acabou! 
Deus esta lei decretou 
Porque toõa a gente a siga ! 

Vêòes portanto ! Não peço 
Nem por sombras o impossível ! 
De um peito nobre e sensivel 
Reclamo o que lhe mereço ! 

Um boccaòinho òe estima 
Com tuôo se concilia 
Só a vossa sympathia 
Toòo o meu ser reanima. . . 



Poetisas Portuguesas 15 



Descei a mim vosso olhar 

— Como não ha outro igual — 
E vereis toòo o meu mal 

Por encanto se acalmar ! 

Olhar, que traga somente 
Um bocadinho pequeno 
D'aquelle affecto sereno 
Onòe abrigaes tanta gente 1 

Sou como a ave sem ninho ! 
Senhora, õae-me o abrigo 
Do vosso olhar, que eu prosigo 
No meu agreste caminho ! 

E Òepois . quanòo cansaòo 
Do frio intenso õo inverno, 
Erguerei meu braòo eterno. 
Em qualquer rocha sentado : 

— Senhora õos negros olhos 
E õas palavras serenas ! 
Vêõe estas «Nevadas Penas> 

Do meu caminho òa abrolhos! . . . 

Ruben ôe Lara. Nevadas Penas, Lisboa, 1913, pag. 3 a 6. 



PRECE 

Senhor ! ]á que a tormenta se não cansa 

De contra mim rugir, 
Doixae-me, inòa que ténue, uma esperança ! 
Deixae-mé, como um iris òe bonança 
Vêr o seu ôoce e placiôo sorrir ! 



16 Poetisas Portuguesas 

Dai-me, Senhor, emfim, toõa a amargura ! 

— Noite sem alvoraòa ! — 
Irei buscar phantastica ventura 
Na aòoração, na ferviòa ternura 
Que me escraviza aos pés Ôa minha amaõa ! 

E a minha sorte negra hei 5e soffrel-a, 

Senhor, sem me queixar. 
Se attenòerões, Meu Deus, o que vos peço ! 
Que no caminho ouro que atravesso 
Nunca me falte a luz òaquelle olhar ! 

Ruben ôe Lara. Nevadas Penas, 1913, pag. 45 e 46. 



UM ENCONTRO 

Passava òistrahiôo . . e tu bem viste 
Que o pensamento meu não era ali, 
Quanôo o teu rosto emfim reconheci 
No olhar com que insistente me meôiste ! 

Ha longos annos já que te esqueci. 
— Ao tempo, bem vês tu, naõa resiste ! — 
. . .Se o meu olhar foi summamente triste 
Certamente não foi porque te vi ! 

Que importa lá que os annos òecorressem 
E que os factos emfim te convencessem 
Que era simples e bom meu coração ? 

E' tarõe ! Muito tarõe ! — Que loucura 
Vir agora a acorõar uma amargura, 
Hoje, fora Õe tempo- . . e õe razão. • . 

Ruben òe Lara. Nevadas Penas, Lisboa, 1913, pag. 49e 50. 



Poetisas Portuguesas 17 



D. MECIA MOUSINHO DE ALBUQUERQUE 

D. Meda Alousinho Õe Albuquerque é filha ôe D. Mafalôa 
Augusta Barbosa õe Miranòa e õe Fernanõo Luiz Mousinho 
ôe Albuquerque que foi o comanõante õo 'Batalhão Aca- 
démico no Alto do Viso e neta õe Luiz õa Silva Mousinho 
õe Albuquerque, auctor õe Ruy^ o Escudeiro e Õas Georgicas, 
õois livros bastante conheciõos e apreciaõos. 

D. Mecia Mousinho õe Albuquerque que é uma õistincta 
poetisa, tem colaboraõo, em prosa e verso, nos jornaes Oc- 
cidente, Novidades, Tarde, Nacioual, Dia e Nação. 

Alguns õos escriptos õesla ilustre senhora que Õescenõe 
õe Affonso Sanches, filho bastarõo õe D. Diniz, teem siõo 
firmaõas com o pseuõonnimo õe Zoleica. 

D. Mecia é auctora õos seguintes trabalhos : Tecedeira, 
poemeto õestinaõo a uma obra õe cariõaõe e que renõeu 
mais õe 1 conto õe réis ; .4 Bandeira ; Os Mortos de Cha- 
ves, folheto. 

Tem para publicar os seguintes trabalhos literários : 

Verso: ^lusa das prisões ; Versos e Farpinhas, õe cola- 
boração com sua filha D. Fernanõa Mousinho õe Albuquer- 
que. 

Prosa : Aventuras de Rudeguna. 

D. Mecia Mousinho é, juntamente com a Senhora Conões - 
sa õe Ficalho e D. Constança Telles õa Gama, õas Senhoras 
Portuguezas a quem os presos políticos e emigraõos mais 
altos serviços Õevem. E' funõaõora õe uma Associação que 
tem por fim conceõer subsiõios e pagar renõas õe casas, a 
monarchicos necessitaõos. 

No Álbum dos Vencidos, ha um capitulo õeõicaõo a esta 
Senhora, no qual se faz referencia aos serviços que aos mo- 
narchicos tem prestaõo. 

Rocha Martins, auctor õo D. Manuel 21, trabalho que a 
par õos õe ]oaquim Leitão, muita luz lançam nos aconteci- 
mentos que õeram origem ao 5 de outubro de igio e nos 
que se lhe seguiram, no seu romance histórico Maria da 

2 



18 Poetisas Portuguesas 

Fonte fornece valiosos elementos para o estuõc 5a família 
Mousinho que conta tantos guerreiros e literatos ilustres. 

A biografia ôo avô ôe D. Mecia, foi feita por Xavier Cor- 
òeiro. 

O ultimo trabalho literário òe D. Mecia Mousinho òe Al- 
buquerque, ha pouco publicaõo, intitula-seFr.r^wie«ío5//í5- 
loricos, elegante eòição, em que ha belas poesias, cheias 
ôe Fé, e que encantam pela forma primorosa por que estão 
escriptas, como os leitores poõerão apreciar no soneto òe- 
òicaôo á memoria ôe Aivaro- l^inheiro Chagas. 

DEPOIS DO BAILE 

INKDITA 

Terminou o baile . agora. 
Dos seus triumphos ufana. 
Uma formosa munòana 
Expõe-se ás luzes Ô'aurora 

A belleza soberana. 
Que o munõo incensa e aõora — 
E onõe o tempo, por ora. 
Não pôz a mão ôeshumana, 

Desprenõe o negro cabello. 

Ao espelho — e fica-se a vel-os • . 

De repente perõe a côr ! 

E' porque na ôensa matta, 
- Um branco fio be prata 
Apparece. . ■ ameaçador ! 

Mecia Mousinho òe Albuquerque. 



Poetisas Portuguesas 19 



OCULTAS MAGOAS 

Como sombra que passa fugitiva, 
Olhos fitos nas peõras òa calçaòa — 
Lá vae Ella — a Conòessa pensativa 
Em seu scismar infinõo mergulhaòa !. . . 

Os tranzeunles param só por vê-la; 
E caõa um, ao contemplá-la, õiz : 
«Isto não é mulher . . é uma estrelia!» 
«Um ente assim, como ha Õe ser feliz !> 

Ao banquete òe finas iguarias 

Onõe as flores se espalham nos crystaes, 

Occultanôo profundas agonias, 

A Conòessa engole amargos ais ! 

Mas os convivas forçam-lhe o sorriso, 
E caòa um, ao contempla-la, òiz : 
«Não ha mais bella flor no paraíso !> 
«Um ente assim. . • como ha õe ser feliz !> 

Vibra òo baile no ar o mago encanto, 
Resplandece a alegria nos semblantes : 
Só a Conòessa a custo gela o pranto 
Que borbulha em seus olhos rutilantes ! 

As òonzellas cobiçam-íhe a frescura, 
E caòa uma, ao contempla-la õiz : 
«Tão rica e formosa . . que ventura !> 
«Um ente assim . . . como ha òe ser feliz !> 

Mas sobre fria e solitária lousa 

Altar funéreo ò'um amor aròente 

A altas horas a Conòessa ousa 

Gemer. . . carpir. . . chorar eternamente ! 



20 Poetisas Portuguesas 

E alevantanòo o seu olhar discreto, 
Triste -O coveiro, ao contempla-la õiz 
<Só eu conheço o teu pezar secreto, 
Misera amante • e chamam-te feliz !> 

Mecia Mousinho 5e Albuquerque. 



A* MEMORIA DE FREDERICO PINHEIRO CHAGAS 
[No 2,° anniversano da sua morte) 

Em nome Õas senhoras Portuguezas, 
Que ôas gloriosas épicas acções, 
Das façanhas antigas, ôas proezas, 
Guaròam n'alma as sagraòas traòicções. 

Uma simples coroa ôe tristezas 
Venho trazer, co'as nossas orações, 
A esse moço, que a perfiòas grandezas. 
Preferiu o sepulchro sem traições ! 

Fiel até á morte, a sua espaõa. 

Reluzente, leal, immaculaòa. 

Não se dobrou òe vencedor á lei — 

Inerte . . embora ! ainda prestigiosa, 
Ensina assim á Pátria revoltosa. 
Como se guarda a fé jurada ao Rei ! 

Mecia Mousinho de Albuquerque. Fragmentos Históricos, 
Lisboa, 1917, pag. 23 e 24. 



Poetisas Portuguesas 21 



MARQUEZA DE ALORNA 

D. Leonor õe AlmeiÒa Portugal Lencastre e Lorena, 4." 
Marqueza ôe Alorna e Condessa òe Oeyenhausen, nasceu 
em Lisboa a 31 òe Outubro òe 1750. 

A Marqueza òe Alorna era filha ôe D. Leonor òe Lorena, 
filha òos Marquezes òe Távora e òe D. ]oão òe AlmeiÒa 
Portugal, 2.0 Marquez òe Alorna. 

Os antepassaòos Òe D. Leonor òe AlmeiÒa Portugal Len- 
castre e Lorena, são òos mais ilustres. Aos Almeidas refe- 
re -se Camões, no canto I, estancia 4.». 

O titulo òe Alorna, Praça òa InÒia Oriental, foi conceòiòo 
por D. João V. em 9-11-1748, a D. Peòro òe AlmeiÒa Por- 
tugal, 3." Conòe òe Assumar e 1." Marquez òe Castello Novo, 
Vice rei òo EstaÒo òa Inòia, cargo que também exerceu seu 
avô D. Francisco òe AlmeiÒa. 

O Apeliòo AlmeiÒa, segunòo refere Frei Dernaròo òe 
Brito, no L.° 5." Capitulo 6.° da i.^ parte da Chronica de 
Cister, Òata òe D. Sancho I, em que Paio Guterres tomou 
o Castelo òe Almeiòa aos Mouros. 

Paio Guterres é neto òe Pelaio Amaòo, cavaleiro princi- 
pal na Corte òo Conòe D. Henrique. 

Além Oestes, muitos outros ascenòentes notáveis teve a 
a Marqueza òe Alorna. 

Na noite òe 3 òe Setembro òe 1758, Òá-se o atentaòo 
contra D. José, 

Seu Ministro, o Marquez òe Pombal, que, por causas va- 
rias e factos anteriormente passaòos, oòiava a fiõalguia, 
aproveita tal ensejo, para manòar prenòer o Marquez òe 
Gouveia, o Duque Òe Aveiro e o Marquez òe Távora — D. 
João òe AlmeiÒa, ~ 2." Conòe òe Alorna. 

Sua esposa, D. Leonor òe Lorena, e suas Òuas filhas D. 
Maria õe Almeiòa e D. Leonor òe Almeiòa, foram enclau- 
suraòas, no Mosteiro òe San Félix, em Chellas, onòe per- 
maneceram perto òe 20 anos, e sofreram os rigores òa 



22 Poetisas Portuguesas 



prisão que lhes eram impostos pelo Arcebispo òe Laceòe- 
monia, por orõem õo Conõe õe Oeiras — Sebastião José 
Òe Carvalho e Melo, mais tarôe, Marquez õe Pombal. 

Foi em Chellas, na prisão, que para se entreter, Alcippe, 
— assim foi Ôenominaòa uma òas mais celebres poetizas 
que Portugal tem tiòo, se õeòicou ao cultivo Òas Letras e 
ôas Musas. 

A Marqueza ôe Alorna — teve, por òirector espiritual, D . 
Frei AlexanÕre õa Silva, tio òe Garrett, a quem por muito 
tempo foram atribuiòas as obras òo auctor Òo Frei Luiz 
õe Sousa. 

Aòmiraòa pelo seu 4alento e rara beleza que fez sucesso 
na Corte õe Vienna ò'Austria, onòe esteve acompanhanòo 
seu mariõo, o conõe òe Oyenhausem, Alcippe brilhou não 
só nos Outeiros, onòe acorriam os poetas da Arcádia Lu 
sitana, a ouvi-la, como se notabilisou pelo impulso que õeu 
á nossa literatura. 

Theophilo Braga, na Carta Prefacio que anteceõe o bem 
feito e conscencioso livro õe D. Olga õe Moraes Sarmento 
ôa Silveira, Mulheres Illustres, — A Marquesa de Alorna — 
obra õonõe extrahi algumas òas notas que reproõuzo, òiz 
õe Alcippe, «que teve o òom õe encantar os granões poetas 
õo seu tempo, e õe iniciar a renovação literária Õo Proto 
Romantismo, reconhecenõo e õiriginõo a vocação incipiente 
õe Alexanòre Herculano>. 

O quaõro, A solidão, que fez em Vienna õ' Áustria, atesta 
os seus merecimentos como pintora òistincta. 

As obras poéticas e traõuções õe Alcippe formam 6 vo- 
lumes. 

A já numerosa bibliographia Alorniana, foi enriqueciõa, 
em 1916, com um interessante volume, intitulaõo A Mar' 
que^a de Alorna, õe que é auctor o Senhor Marquez õ'Avila 
e Bolama. 



Poetisas Portuguesas 23 



SONETO 
Feito na cerca onde tabalhavam uns homens na agricultura 

Feliz esse mortal que se contenta 
Com a herôaôe õos seus antepassados, 
Que livre Òe tumulto e òe cuiòaòos 
Só òo pão que semêa se alimenta. 

D'entre os filhos amaòos afugenta 
A õiscoròia cruel ; vê õos seus gaõos, 
Sempre gorõos, alegres, bem trataõos, 
Numeroso rebanho que apascenta. 

O throno mais õitoso é comparável 
Ao branòo estabo oeste que não sente 
De um sceptro õ'ouro o peso formiõavel ? 

O que vive na Corte mais contente 
Provou nunca um prazer tão agraôavel 
Como o oeste Pastor pobre, innocente ? 

Marqueza Õe Alorna. Obras Poéticas, Lisboa, 1844, volu- 
me I, pag. 16. 



SONETO 
Di^endo-me uma pessoa que eu nunca havia de ser felij 

Esperanças õe um vão contentamento, 
Por meu mal tantos annos conservaõas, 
E' tempo õe perõer-vos, já que ousaõas 
Abusastes Õe um longo soffrimento : 

Fugi ; cá ficará meu pensamento 
Meõitanõo nas horas malograõas, 
E õas tristes, presentes e passaõas, 
Farei para as futuras argumento. 



24 Poetisafi Pnr/n.gue^as 

]á não me illuòirá um õoce engano, 
Que não trocarei ligeiras fantasias 
Em pesaõas razões òo õesengano. • 

E tu, sacra VlrtuÒe, que annuncias 
A quem te logra, o gosto soberano, 
Vem õominar o resto ôos meus òias, 

Marqueza õe Alorna. Obras Poéticas, volume I.» pag. 17. 



SONETO 
A El-Rei, estando eu muito doente, em Chellas 

Um moribunõo esforço, um fraco alento 
Inòicio ò'uma quasi extincta viõa, 
Envia uma infeliz, triste, abatiõa, 
DesÕe o leito ôa morte ao Régio Assento. 

Moòéra, oh Soberano, o meu tormento. 
Solta o Pae, por quem choro ôiviõiòa : 
Esta voz, já sem força proferiòa, 
Faça em seu peito branòo movimento. 

Quatro lustros, passaõos na amargura, 
Comprehenòe somente a minha iòaôe ; 
Entfo no quinto, e mais na sepultura. 

Ah ! consente, Monarcha, por pieõaôe, 
Que mão paterna beije com ternura, 
Mate o ^osto quem morre ôe sauõaõe ! 

Marqueza õe Alorna. Obras Poéticas, volume I, pag. 34. 



Poetisas Portuguesas 25 



D. MARIANNA ANGÉLICA DE ANDRADE 

D. Marianna Angélica Õe Anòraòe nasceu em Souzel, em 
11 Ôe Maio õe 1840 e faleceu em 14 òe Novembro Òe 1882. 

Foram seus pães D. Maria Francisca Pereira õa Silva e 
Joaquim Aníonio Serrano. 

Foi em homenagem a sua maôrinha, D. Gertruões Angé- 
lica õe Anõraõe Ligeiro, viuva õe um rico proprietário, e com 
a qual viveu õesõe pequena, que D. Marianna Angélica õe 
Anõraõe aõoptou os apeliõos que usava. 

Esta Senhora foi casaõa com o ilustre e notável homem 
Õe letras, Dr. Canõiõo õe Figueireõo. Desse matrimonio 
houve õuas filhas, senõo uma õelas a poetisa D. Rosalinõa 
õe Figueireõo Santos, õe quem igualmente me ocupo neste 
trabalho. 

D. Marianna Angélica õe Anõraõe, foi uma senhora muito 
'nstruiõa. Deixou õispersos muitos vestígios õo seu talento, 
na Ga^ieta Setubalense, õe que foi reõactora ; na Vo^ Fe- 
minina^ jornal a principio só colaboraõo por senhoras; no 
Aimanach de Lembranças^ etc. 

Foi auctora õe uma comeõia, as Esporas do Alferes e 
traõuziu vários romances, publicaõos em õiversos jornaes. 

As suas proõuções poéticas constam õe õois volumes : 
Murmúrios do Sado e Revérberos do Poente — (1882) preía- 
ciaõos por Gomes õe Amorim. Este ultimo livro apareceu 
poucos õias ôepois õe ter faleciõo sua auctora. 

Com a õeviõa vénia, transcrevo o que se a acha a pag. 
259 õo livro Figuras Literárias^ ' acerca õos Murmúrios do 
Sado : 

*0s Murmúrios do Sado são a traõução completa õos 
sentimentos mais íntimos Õa autora, õas suas aspirações, 
õas suas crenças, õas suas tristezas, õas suas alegrias, õos 
seus õesalentos ; são as capelas õe flores, que as virgens 



Dr. Oanii do de Figueiredo. 



26 Poetisas Portuguesas 

varsovianas arremessam á corrente, por se libertarem òe 
ruins cuiôaõos.> 

De D. Marianna Angélica ôe Anòraõe que ôescenôia òo 
poeta Curvo Semeôo, também trata D. António õa Costa no 
seu livro, A Mulher em Portugal. 

Um ano depois òa morte òesta Poetisa, seu esposo reu- 
niu, em folheto, as condolências que recebeu òe inõiviôua- 
liôaòes em õestaque na nossa literatura. 

Se não estou em erro, Camillo escreveu, a esse propósito, 
uma sentiòa carta que figura no mencionado folheto que se 
intitula : Quator^e de Novembro. 

A MINHA ESTRELLA! 

Jamais se esconda tua luz tão bella, 
Formosa estrella de meu puro céu ! 
Ah ! que se um dia te não vejo pura, 
Toda a ventura para mim morreu ! 

Eu te procuro quando o sol nos foge 
E ainda hoje namorar-te vim ! 
Quando te vejo scintillar, querida, 
Esqueço a vida n'este enlevo assim ! 

Esqueço tudo quanto abrange a terra ; 
A paz e a guerra, e o prazer e a dôr! 
Deixando aos homens a ambição, que arrasta, 
A mim me basta teu feliz amor ! 

Se um dia, a vista, percorrendo espaços. 
Não visse traços de tão meiga luz, 
Ficava triste, sem amor, sem vida. . . 
No chão cahida deporia a cruz ! 

Marianna Angélica de Andrade. SMurmurios do Sado, Se- 
túbal, 1870, pag. 106 e 107. 



Poetisas Portuguesas 27 



XXXIII 

MYSTERIOS DO TOUCADOR 

Cassilôa foi ao baile, e tão formosa, 
Que fez inveja a toôas as senhoras ; 
Muito embora gentis, encantaõoras, 
Nenhuma era tão bella e magestosa. 

Tinha a cútis rosaõa e setinosa, 
Tinha no olhar o brilho õas auroras, 
Tinha as formas perfeitas seôuctoras ; 
E ella passava altiva e õonairosa. 

De walsas e sorrisos fatigaõa, 
Assim fallou õepois com a criaôa 
A sós, ao toucador venòo as feições : 

<Fui rainha òo baile ! que patetas 
São os homens ! Recolhe nas gavetas 
Os òentes, o cabello, os algoòões > 

Marianna Angélica ôe AnÒraòe. Revérberos do Poente, 
publicação posthuma. Porto, 1883, pag. 93 e 94, 



D. MARIANNA BELMIRA DE ANDRADE 

D. Marianna Belmira õe Anôraôe é, segunõo penso, aço- 
riana. 

Em 1875, publicou em Ponta Delgada, um volume 5e ver- 
sos, intitulado Phantasias, õo qual extrahi a poesia que apre- 
sento. 

Tem colaborado em vários jornaes, como A Folha, de 
que é directora, D. Alice Moderno, no Almanach de Lem- 
branças, etc. 



28 Poetisas Portuguesas 

Pertence, pois, D. Marianna Belmira õe Anõraòe, ao nu- 
mero õas muitas Senhoras Açoreanas que, por suas virtu- 
des e conhecimentos, se teem ôistinguiòo. 

Lamento bastante, não ter nesta ocasião, os elementos 
necessários para poõer completar a biografia Desta Poetisa. 

A MINHA TERRA 
(na montanha) 

Quão bella, quão formosa nos parece 

A terra onõe nascemos, onôe a infância 

Alegre nos sorriu ÕescuiÕosa . . . 

Toucaõa c)'alvas flores ! . . . Quanto amamos 

Os sitios que risonhos percorríamos 

Nos brincos infantis ; quanôo a innocencia 

Com uma luz tão pura nos lembrava, ^ 

E entre as illusões ò'um mago sonho 

A mente acalentaòa aòormecia !. . . 

Por isso te acho bella, ó minha terra, 

E quanòo a primavera nos assoma 

A rir por entre graças e perfumes • 

De pé sobre alto monte flexuoso. 

Da tarõe ao pôr õo sol m'encontras sempre. 

Alli sob a ramagem fluctuante 

Dos alamos fronòosos que me cercam, 

A vista se dilata embevecida ■ . . 

O dorso da montanha que s'eleva 

Coberto por formosas larangeiras. 

Ao sopro animador da guarda amena 

Desata-se em festões da côr de neve. • • 

E as brisas que perpassam entre a folhagem 

Correndo pelas copas do arvoredo, 

Agitam-no qual manto prateado 

Das auras ao capricho estremecendo . . 

As aves voejando em borborinho 



Poetisas Portiiqaesas 29 



Aninham-se entre as ramas perfumaõas, 
Soltanõo em suas notas feiticeiras 
O hymno òa sauõaõe ao fim ôo ôia. 

Alem a extensa renque ôe rochedos 
Alçanõo-se imponentes, escarpaõos, 
Em sua côr sombria traõuzinõo 
Reflexos ôa poesia granõiosa • 
Emquanto a contrastar co'a nuõez sua 
E como a engrinalõar-llie a fronte altiva 
Os cimos se recobrem Òe verdura. 
Onôêa o arvoredo, alvas casinhas 
Avultam aqui e alli emolòuranõo-se 
Das fayas na lustrosa ramaria. 

Em baixo o oceano quêôo e lizo 
Estenôe-se indolente e suspiroso. . ■ 
Em doce languidez beijando a base 
Da villa cujas casas agrupadas 
Alli se apinham junto á verde encosta 
Os homens que desHsam brandamente 
Deixando após de si longas esteiras. . . 
Parecem bellos cysnes resvalando 
A' flor do crystalino e puro lago. - ■ 

Marianna Belmira de Andrade. Phantaúas, Ponta Delga- 
da, 1876, pag. 61 e 62. 

CONDESSA DE ALMEIDA ARAÚJO 

(d. HERMÍNIA FRANCO d'aLMEIDA ARAUJo) 

A Senhora Condessa de Almeida Araújo, D. Hermínia 

Franco de Almeida Araújo, nasceu em Lisboa. 

Era a filha mais velha dos Viscondes de Falcarreira. Foi 

asada com o Sr. Joaquim Palhares de Almeida Araújo, 

rande proprietário. 

Aos dotes de formosura e coração, aliava a Sr." Con- 



30 Poetisas Portuguesas 

ôessa õe Almeiòa Araújo, um temperamento veròaòeira- 
mente artístico que muito a fez sobresahir no nosso meio 
intelectual. 

Ainôa está bem viva na memoria õ'aqueles que tiveram 
a feliciõaòe ô'assistir a alguns õos concertos, promoviòos 
pela Schola Cantorum (funõaõa por Alberto Sarti, no pro- 
pósito õe desenvolver entre nós o gosto pela musica reli- 
giosa), a agradabilíssima impressão que receberam, ao 
ouvir, alguns õos trechos que tão magistralmente foram 
cantaõos nelas Senhora Conõessas õe Almeiõa Araújo e 
õe Proença a Velha, õirectoras õa referiõa Schola. 

Entre as composições que nestas festas õ'arte foram 
cantaõas, por estas Senhoras, citarei o Stabat Mater õe 
Pergolesi, A Rissurei^áo de Lazaro, õe Perosi e Ala porte 
du Cloitre, õe Grieg. 

Foi, ainõa, nestes concertos, que se tornaram celebres 
entre nós, pela noviòaõe e pela forma porque foram exe- 
cutados, que Alberto Sarti fez ouvir, alem õe algumas 
Oratórias õo Abaòe Perosi, Terre Promise Õe Massemet» 
Rcquien õe Mozart ; Sete Palavras õ'HaYÕn, a missa de 
Palestrina, a Moabita, õe Thomaz õe Lima, o concertante 
õo «Amor õe Perõição», etc. 

Parte õestas notas obtive-as õo livro Horas d' Arte, õe 
Alíreõo Pinto (Sacavém). 

Em 1912, após uma curta existência, minaõa por granões 
õesgostos, faleceu a Senhora Condessa õe Almeiõa Araújo» 
a õistinctissima auctora õum pequeno e mimoso livro õe 
versos — Villancetes — cuja beleza e sentimento faciimente 
os leitores õesta Antologia avaliarão. 

Estes Villancetes foram escriptos, no ultimo ano Õe sua 
viõa, mais como expansão d'alma ferida, que, propriamente, 
como manifestação poética. 

Compilados postumamente por sua irmã, a distincta poe- 
tisa D. Zulmira Franco Teixeira e prefaciados por Júlio Dan- 
tas, é para lamentar que poucos conheçam os Vtllancetesi 
por não ter a edição entrado no mer ca£c. 



Poetisas Portuguesas 31 

VILLANCETE 

Para sempre ouvir lamentos, 
Para sempre ouvir gemiôos, 
De que serve ter ouvidos ? 

VOLTAS 

Os meus ouvidos, outrora, 
Anôavam mal costumados : 
Ouviam sempre trinados, 
Cantigas a toda a hora. 
Mas para ouvir só agora 
Lamentações e gemidos, 
De que serve ter ouvidos ? 

Ai, meu Deus, mais me valera 
Ensurdecer de uma vez, 
Pois não ouvindo, talvez 
Meu coração não soffrera. 
Não ouvir, ai quem me dera ! 
Senhor, para ouvir gemidos, 
De que serve ter ouvidos ? 

Condessa de Almeida Araújo (D. Hermínia Franco d'Al- 
meida Araújo). Villancetes, Lisboa, 1912. 



VILLANCETE 

A desgostos sempre afeita, 
Nem eu já me lembro bem 
Do gosto que um gosto tem. 

VOLTAS 

Se para sof frer nasci, 
Não posso ter outra sorte : 
Soffrerei até á morte, 



32 Poetisas Portuguesas 

Morrerei como vivi 
Tantos òesgostos soffri, 
Que nem já me lembro bem 
Do gosto que um gosto tem. 

Bem quizera em caba õia 
Recordar gostos passaòos : 
Nos òias amargurados 
Algum consolo teria. 
Ai, que viòa õ'agonia 
Que nem já me lembro bem 
Do gosto que um gosto tem. 

Conôessa õe Almeida Araújo. 'Viliancetes. Lisboa, 1912. 



D. MARIA CHRISTINA DE ARRIAGA 

D. Maria Christina de Arriaga era a filha primogénita de 
D. Maria Christina Pardal Caldeira de Arriaga e de Sebas- 
tião ]osé de Arriaga Brun da Silveira e Peyrelongue, ultimo 
morgado da família Arriaga. 

Nasceu na cidade da Horta e faleceu em 21 ou 22 de 
maio de 1915. Do que foi em vida esta virtuosa Senhora,,— 
que tanto protegeu os pobres e os infelizes, e que a tantos 
outros predicados juntava o de uma inteligência viva e de 
um espirito cultivado, di-lo o jornal O Telegrapho, diário 
noticioso da Horta, onde a morte de D. Christina de Ar- 
riaga foi muito sentida. 

D. Maria Christina de Arriaga era irmã de José de Arria- 
ga, escriptor bastante conhecido e do dr. Manuel de Arria- 
ga, auctor dos Cantos Sagrados e das Irradiações, o vene- 
rando e probo primeiro Presidente da Republica Portu- 
guesa, a quem devo parte d'estes apontamentos, que me 
foram dados com a distincta e captivante amabilidade que 
lhe eram peculiares. 



Poetisas Portuguesas 33 



Esta Senhora era, por sua avó, D. Maria òa Pieõaõe Ca- 
bral õa Cunha Gooõolfim õe Ia Rocca, ôescenôente, entre 
outras pessoas notáveis, ôe : El-rei D, Affonso terceiro, 15.* 
neta; õo rei ôe Leão, Ramiro 2.", õuas vezes neta ; õe D. 
Hugo Capeto, Duque Õe França, Conõe õe Paris e Õe Or- 
leans, 12." neta. 

D. Maria Christina õe Arriaga foi uma poetisa notável. 

Em õezembro õe 1910, publicou, õe colaboração com seu 
sobrinho Roque M. õe Arriaga, M. Emilio, Marcelino Lima e 
Osório Goulart, um folheto, Paginas Soltas, cujo proõucto 
se õestinava ao Albergue Nocturno õa ciõaõe õa Horta que 
õesta Senhora recebeu granõe impulso. Cariõosa por exce- 
lência, era raro o õia, e isto suceõeu õurante anos, que não 
visitasse o asylo õe Menõiciõaõe, onõe levava consolo aos 
velhos e Unitivos á miséria. 

Alem õesse folheto, escreveu um livro õe versos — Flo- 
res d' Alma, senõo também auctora õe muitos pensamentos 
que pela sua elevação e conceito são õignos Õe nota. 

Serviu-me ainõa õe auxilio, para traçar estas ligeiras no- 
tas biográficas, uma obra monumental que, ha pouco tem- 
po, foi ofereciõa ao õr. Manuel õe Arriaga que teve a gen- 
tileza õe m'a Õeixar consultar. 

Nesse volume que é õe õesusaõo formato, õe 217 pagi- 
nas, e que foi compilaõo por António Manuel õa Silva, com 
elementos postos á sua õisposição pelo Sr. Roque õe Ar- 
riaga, acham-se reuniõos inúmeros artigos õe jornaes, ilus- 
trações, folhetos, etc, que sem Õuviõa alguma virão a cons- 
tituir, um õia, um preciosa elemento õe estuõo, acerca õo 
õr. Manuel Õe Arriaga e õe sua familia. 

UM SEGREDO 

Quanõo a brisa vem beijar 
O linõo cálix õa flor, 
Lembro-me que traz õo sol 
Alguns segreõos õ'amor. 



34 Poetisas Portuguesas 

Elle moranDo tão longe 
Lá nesse azul õa amplibão, 
Talvez faça confiòente 
A suave viração. 

De lá offerece seus raios, 
A sua luz e calor ; 
E' como prova eviòente 
Que á floresinha vota amor. 

E o amor não meõe õistancias 
P'ra sua acção exercer, 
Naõa ò'elle está isempto, 
Tuòo poôe submetter. 

Venõo a briza perpassar 
Beijanôo o cálix õa flor, 
Lembro-me trará õo sol 
Algum segreòo ò'amor. . . 

Maria Christina ò' Arriaga. Na Ala do Bem, n." 1. Dezem- 
bro õe 1910. Paginas Soltas, pag. 20. Horta, 1910. 



D. MARIA RIBEIRO ARTHUR 

D. Maria Ribeiro Arthur nasceu em Lisboa. E' viuva òo co- 
ronel ôe infantaria, Bartholomeu Sesinanòo Ribeiro Arthur, 
auctor òe vários livros curiosos, entre os quaes citarei: 
(íírte e Artistas, 3 vol.; Da Legião Portuguesa ao serviço 
de Napoleão, etc. 

Em D. Maria Ribeiro Arthur, que é uma senhora muito 
instruiõa, teve seu mariòo uma granõe auxiliar, nalguns ôos 
seus trabalhos literários. 

No jornal O Repórter, òe 1896, escreveu esta Poetisa os 
seguintes artigos : Veraneando e Recordações de Peniche 



Poetisas Portuguems 35 



€ no jornal Branco e l^égro : aEnire o Cabo Carvoeiro e as 
Berlengas, Viagens no Paij, Peniche, Pelas Margens do 
Mondego^ Margens do Lima, Saudades do Lima, etc. 

Também colaborou no Jornal da Infância onòe publicou 
va rias poesias, Universo, etc. 

Actualmente, resiòe D. Maria Ribeiro Arthur, em Louren- 
ço Marques, onÒe vive em companhia ôo seu filho, o En- 
genheiro SesinanÕo Ribeiro, Arthur sub-Ôirector ôo Cami- 
nho De Ferro. 

A MINHA PÁTRIA 

Minha Pátria, és tão formosa 
como as pétalas õa rosa 
que nasce no solo leu ! 
Como é azul o teu céu, 
sauòoso o teu arrebol ! 
As tuas flores õe matiz 
tão variaõo e feliz, 
que mimosas, que gentis 
á viva luz Òo teu sol ! 

Que noites tão perfumadas! 
que linòas as maõrugaõas l 
Tens nos teus praõos bellezas, 
tens nos teus campos riquezas 
que poucos como tu tens ; 
mas um Tejo tão formoso, 
um Ave a gemer sauÒoso, 
um Douro tão alteroso 
como tu não tem ninguém ! 

E a rainha õo occiòente 
recostanòo-se inòolente 
pelas montanhas em flor, 
a sorrir-se, toõa amor, 



36 Poetisas Portuguesas 

quando a bafeja o luar, 
p'ra o namoraòo que a véla, 
que a faz tão rica e tão bella, 
e que prostraõo aos pés ò'ella 
Ih'os vai submisso beijar! 

Tens as veigas ôo teu Minho, 
e no teu Algarve um ninho 
ô'amor, sob o sol arõente, 
tens, erguiôo altivamente, 
á liberôaôe um paòrão 
sobre as fraguas ôo teu Douro, 
que salpica areias ò'ouro : 
o teu seio é um thesouro, 
a tua voz uma canção 1 

Como te amo pátria qu'riõa 
que foste tão alto erguiòa 
na Ivra ôo teu Camões, 
que ouviste as meigas canções 
ôo mimoso DernarÔim 
ôe Garrett as harmonias, 
õe Castilho as meloôias, 
soltas por formosos ôias 
sob a olaya Ôo jarôim. 

Que tiveste um Herculano 
para com trabalho insano, 
pelo pátrio amor levaôo, 
ir Ôo abysmo ôo passaôo 
tua historia levantar 
e nas paginas ôa historia 
que é para ti toôa a gloria» 
ôe que heroes a memoria 
se vê altiva brilhar ! 



Poetisas Portuguesas 37 

Oh pátria, eu amo-te tanto 
que por ti quizéra um canto 
soltar, um canto õivino, 
mas como é pobre meu hymno 
para ti meu Portugal, 
que o rouxinol amoroso 
escutas, meloòioso 
soltanõo o trinar sauõoso 
òebaixo òo laranjal ! 

Maria Ribeiro Arthur. O Universo lllustrado. Semanário 
ôe Instrucção e ôe Recreio, Lisboa, 1879, pag. 127 e 128. 



D. MARIA HELENA JERVIS DE ATHOUGUIA 
E ALMEIDA 

D. Maria Helena Jervis õe Athouguia e Almeiõa nasceu 
na ciõaôe õo Funchal. Pertence a uma familia ilustre òa 
Ilha ôa Madeira — os Jervis Ôe Athouguia, 

Tenõo ficaôo órfã Ôe pae aos nove anos õe iõaõe, fof 
resiòir para o campo, na encantadora alòeia õe Nossa Se- 
nhora ôo Monte, um õos pontos mais linõos õa formosa e 
fértil Ilha õa Maõeira, local este que, sem õuviõa alguma, 
contribuiu pela sua fascinante belesa, para que no juvenil 
espirito õa Poetisa õe que agora me ocupo, se õesenvol- 
vesse o gosto e o amor pela poesia, que tão expontanea- 
"lente lhe brotaram õ'alma. 

Trinta e tal anos esteve D. Maria Helena Jervis õe Athou- 
: guia e Almeiõa fora õa sua terra natal. 

As impressões que recebeu esta õistincta Senhora, ao 
! tornar a ver a alõeia onõe passara parte Õos primeiros 
anos õe sua mociõaõe, exprime-as numa linguagem simples 
e comovente na sua poesia intutulaõa iV/<m dia chovoso. 

Apesar õe D. Maria Helena Jervis Õe Athouguia haver 



38 Poetisas Portuguesas 

enviuvaòo e contratempos Ò3 varia natureza a terem afas- 
taòo ôo convivio ôas Musas e õos estuõos, que sempre fo- 
ram o seu enlevo e a que com tanta meticulasiôaòe e cons- 
ciência se aplica, em 1909, apareceu a 2.» eôição Òo seu livro 
Òe versos, Mosaicos, prefaciaòo por Sena Freitas. 

O proõucto òa venôa òesta obra que sahiu sob o pseu- 
Ôonimo õe Bertha de Athaide, õestinava-se a socorrer tu- 
berculosos pobres. 

A 3.* eõição ôos Mosaicos que Ôeve aparecer em breve, 
contem bastantes poesias ineõitas. 

De rêve en rêve 
L*amour nous prenõ 

En riant. 
De rêve en rêve 
L'amour s'enfuit 

En pleurant. 

Bertha ôe Athayôe. Mosaicos, 2.» eÒição, pag. 65. 



A LAGRIMA 

S.iUt lacrimae reram. 
(Eneida). 



VIRGI. IO. 



Nasce no berço a lagrima 
Tão õoçe e crystallina 
Como o orvalho ôo céu ; 
E morre sobre a campa, 
Amargurada e triste, 
Como ôa treva o véo. 

E' que na infância a lagrima 
E' filha õo sorriso ; 
Tem prismas õa Alvoraòa 
Que vem Ôo Paraíso 



Poetisas Portuguesas 39 

Mas a que òesce ao túmulo 
Deriva Õa sauôaõe 
Vem õas existências finõas, 
ReÒime a humaniõaõe. 

Nos lirios e nas rosas, 
Em seus formosos cálices, 
Ha lagrimas também ; 
Penosas õeslisanòo 
Quanõo, no seu canteiro 
As colhe õa haste alguém. 

Do naôa, nos abysmos, 
Pois o pranto, não é 
Filtraòo pela õôr 
Dos martyres ôa fé ? 

Lá no munòo ôos munôos 
Caòa estrella que nasce 
Caminha e resplandece, 
Deixa canôente o sulco 
No pranto maguaõo 
D'um astro que esmorece. 

Bertha òe Athayõe. 'íMosaicos, 2.' eõição, pag. 107 e 108. 



REMINISCÊNCIA 

Eu me lembro ainòa era pequenina — 
D'uma noite. - . que noite sem luar ! 
Cahia tanta chuva. . . tanto frio . . 
Que toôos se acolhiam junto ao lar. 

Não se viam estrellas reluzentes 
Espreitando ôe Vénus os amores ; 
Nem õas faõas se ouviam as ballaôas, 
Nem òos campos brotavam lindas flores. 



40 Poetisas Portuguesas 

E no horror õ'essa noite procellosa, 
Minha mãe me ensinava uma oração, 
Para o vento amainar, õo mar as onôas, 
E ôesviar õo munõo a maldição. 

E òepois, no meu berço Ô'innocencia, 
Embalavam-me os anjos a sorrir. . . 
Quanòo eu também alegre e já sem meòo, 
Sorria-me para elles a õormir. 

Dertha Òe Athayõe. Mosaicos, 2.» eôição, pag. 97 e 98. 



«AZUL» "^ 

(D. ZULMIRA DE ALMEIDA FRANCO TEIXEIRA) 

D. Zulmira ò'Almeiõa Franco Teixeira nasceu no Rio òe 
Janeiro. E' filha ôe D. Carolina Augusta Ferreira ò'Almeiôa, 
Viscondessa õa Falcarreira e ôe Pompilio Augusto Gonçal- 
ves Franco, Visconde õo mesmo titulo, Fidalgo Cavaleiro 
da casa Real, Comendador das Ordens de Christo, da Con- 
ceição, etc, e uma das figuras mais insinuantes õo seu 
tempo e que tantos benefícios proõigalisou, protegendo os 
pobres e desamparados. 

Pelo lado materno é D. Zulmira ò'Almeida Franco Tei- 
xeira aparentada com as famílias do Conde de Carvalhiôo 
e do Visconde de Ferreira d'Almeida, o importante e co- 
nhecido banqueiro brazileiro. 

D. Zulmira Teixeira que é casada com o Sr. Luiz Virgílio 
Teixeira, antigo Deputado da Nação e 1." Secretario de 
Legação que durante muitos anos prestou serviço nas Le- 
gações de Portugal, em Madrid e nò Rio de Janeiro, é neta 
de ]osé Gonçalves Franco — fundador da primeira casa 
Bancaria Portuguesa, do seu tempo, que foi pae do Vis- 







Poetisas Portuguesas 41 



conôe õa Falcarreira e òo Marquez õe Franco que lhe su- 
cederam na gerência Ôe seus importantes negócios. 

Apesar õe uma ou outra vez terem siõo publicadas na 
Ilustração Portuguesa, Jornat da Mulher^ Diário de Noticias, 
Dia e noutros jornaes, poesias òe D. Zulmira õ'Almeiõa 
Franco Teixeira que tem usaòo sempre o pseudónimo 
A^uL a maioria Õas inúmeras composições poéticas que, 
ôiga-se òe passagem, sua Ex.^ produz com extraordinária 
facilidade, está inédita, devendo uma parte desses versos 
figurar numa luxuosa obra em que trabalha ha bastante 
tempo esta Poetisa. 

A este livro está assegurado, por certo, grande êxito no 
nosso meio literário e artístico, successo para que contri- 
bue não só as apreciáveis e belas produções de sua au- 
ctora, como também as assignaturas òe distinctos Mestres 
que, inspiranòo-se nos versos Òe D. Zulmira Teixeira, fir- 
mam as aguarelas, pasteis, sanguíneas e musicas que Òeve- 
rão ornar esta Obra que ficará senòo um granòe e notável 
Repositório d'Arte. 

NO ANNO DE 1917 
(inédito) 

O' coração humano ! Obra divina, 
Sacrário de clemência e de doçura 
Emprestado por Deus á creatura 
E aonde a clara face Elle reclina : 

O que é feito de ti, ó pequenina 
Parcela de uma essência forte e pura ? 
Como te ha de encontrar quem te procura 
Hoje, na humanidade que se arruina ? 

Só vejo — ó dôr ! — por esse mundo vasto, 
Nuvens de fogo, e em sanguinário rasto, 
. Crimes dos homens que perdidos vão . . 



42 Poetisas Portuguesas 

E o coração, fonte Ôe amor constante, 
MuÒaõo é errefeciòo a caòa instante, 
Na taça venenosa õa ambição. 

<Azul> (D. Zulmira õ'A!meiôa Franco Teixeira). 



O OUTOMNO 

Dias òe Outomno, õias sem eguaes ! 
O sol tem fogo, mas não queima, aquece. 
Se já òo trigo não se avista a messe, 
Chilreiam ainõa alegres os parõaes. 

Sob os troncos erectos õos pinhaes 

— Braços õa natureza em muòa prece 
A urze côr òe rosa até parece 
Tapete òe aòornar paços reaes. 

Nos castanheiros riem os ouriços. 
E Òeixam tremulanòo, moviòiços, 
Cahir o fructo novo, cheio e são. 

E eu julgo-me òoiraòa e fina abelha 

— Scismo na tua bocca tão vermelha 
Ao vêr meòronhos rubros pelo chão. 

«Azul> (D. Zulmira ò'Almeiòa Franco Teixeira). 



TU E SÓ TU 

De ti só veio a minha musa triste. 
Para ti vae o meu cantar magoaòo ; 
As tristes notas ôo meu triste faòo 
São para ti, ó Bem que me fugiste : 



Poeíisas Portuguesas 43 



Em ti só vivo e lá comtigo assiste 
Meu pobre coração alanceaôo : 
Para ti, o meu sonho illuminaôo, 
E's a essência òe tuòo quanto existe. 

Só os teus õeôos ò'oiro me susteem 
O' meu eterno mal meu õôce Bem 
Quero òeixar-te e sinto que não posso . . 

Se ao menos juntos e na mesma cova 
Poôesse, aberto n'uma seiva nova, 
Florir n'um livro, caôa beijo nosso ! 

«Azul» (D. Zulmira Franco òe Almeiõa Teixeira). 



SOL 

(inédito) 

Ninguém òeve ôizer «Esse õia linôo !> 
Por que faz sol e que athmosphera é calma 
Devemos consultar os olhos ô'alma, 
— Olhos que só a ventura vae abrinòo. 

Que nos importa o Ceu e o mar infinòo, 
Do lirio a flor ou ôa palmeira a palma 
A fonte que refresca e nos acalma 
Ou a espiga que õe pão nos vae nutrinòo ? 

O que poõe affligir a noite escura 

A quem n*ella se encontra ou se aventura 

Ou que as estreitas fujam ôe onôe estão ? 

Que nos importa um temporal õesfeito, 
Se sentimos calor dentro ôo peito. 
Se é Õia claro em nosso coração ? 

tAzul» (D. Zulmira Franco ô'Almeiõa Teixeira). 



44 Poetisas Portuguesas 

VISCONDESSA DE BALSEMÃO 

(d. CATHARINA MICHAELA de SOUSA CÉSAR 
D li LENCASIPE) 

A Visconõessa õe Balsemão, D. Catharina Michaela Ôe 
Sousa César ôe Lencastre, primeira VisconÕessa õo citaòo 
titulo, nasceu em Guimarães a 29 òe Setembro òe 1749. 
Foram seus pães D, Rosa Maria ôe Viterbo César Õe Len- 
castre, filha ôos segunòos viscondes Ò'Asseca e Francisco 
Filippe òe Sousa òa Silva Alcoforado. 

Foi casaôa com o primeiro Visconôe õe Balsemão, Luiz 
Pinto õe Sousa Coutinho, antigo governaôor õa Capitania 
õe Matto Grasso e õiplomata e estaõista. 

Acerca õa VisconÕessa õe Balsemão que foi amiga in- 
tima õa Marqueza õe Alorna {Alcippe) e õe D. Francisca 
Possolo, outra poetisa notável õessa época, õiz o Diccio- 
nario' Popular Õe Pinheiro Chagas : 

«Cheganõo á capital õa Grã Bretanha, conheceu D. Ca- 
tharina quanto era õeficiente a instrucção que havia rece- 
biõo e buscanõo õiversos pretextos para se afastar õa so- 
cieõaõe, viveu por mais õe um anno em completo isolamento 
entregue ao estuõo õas línguas e litteratura ingleza, fran- 
ceza e italiana>. 

«Depois õesse tempo õe reclusão, a que voluntariamente 
se conõemnára, appareceu nas reuniões õa corte e em sua 
própria casa se juntavam os homens mais õistinctos õe 
Lonõres, e pela convivência com as illustrações õ'essa 
granõe ciõaõe alargou os conhecimentos que havia aõqui- 
riõo õurante o seu isolamento>. 

Ao regressar a Portugal, teve granõe numero õe aõmira- 
õores, senõo a sua casa frequentaõa por õistinctos cultores 
õa poesia e õas belas letras. 

Poucas foram as proõucções poéticas õa VisconÕessa õe 
Balsemão que foram publicaõas. 

O Soneto Mesericordia que reproõuso, foi feito por D. 



Poetisas Portuguesas 45 



Catharina, em 4 õe Janeiro õe 1821 (òia em que faleceu), 
ôepois õe ter cumpriõo os últimos õeveres religiosos que a 
sua consciência lhe ôictou. 

O Saceròote, que assistia aos últimos momentos ôa Vis- 
conõessa òe Balsemão, e a quem ela peôiu que lesse essa 
composição, não pouõe passar alem Òa 2.» quaôra, pois 
que ao começar a ler o primeiro terceto, faleceu D. Catha- 
rina. 

Os trabalhos mais notáveis õa Visconõessa õe Balsemão, 
são: 

Ode ao Marque^ de Pombal, o seu soneto â morte de Go- 
mes Freire e as suas proõuções inspiraõas pela Revolução 
Õe 1820. 

Pela forma porque nas suas composições õescrevia o 
amor, foi cognominaõa a Sapho Portuguesa. 

MESERICORDIA 

Granõe Deus! que Õo alto õ'esse throno, 
Lanças o braço ao peccaõor contricto ; 
Escuta Õo remorso humilõe grito, 
Das tuas leis perõôa o abanõono. 

Tu, õa graça efficaz único Õono, 
Que nunca a pena igualas ao õelicto, 
Dá-me socego ao coração afflicto. 
Tão próximo a jazer no eterno somno ! . . 

Bem õebaixo õe magica apparencia 
Encobri os requintes Õa malõaõe. 
Mas qual é hoje a triste consequência ? 

Ah ! Senhor ! recebei-me com pieõaõe ! . . 
Tiraste-me õo abysmo õa impruõencia, 
Dai-me uma venturosa eterniõaõe. 

Visconõessa õe Balsemão (D. Catharina). Àlmanack Luso 
Brasileiro para 1858, pag. 237. 



46 Poetisas Portuguesas 



SAPHO 

Sapho ao mar se precepita 
Por impulso ôa paixão, 
Vinga em si o alheio crime 
Da perfiòa ingratiõão. 

Muitos annos respeitaòo 
Foi o peneôo fatal, 
Mas por força õ'um exemplo 
Logo um mal causa outro mal. 

Se fizessem assim toõas, 
Que se vêem ôespresaõas, 
Forão ôe victimas tristes 
As brancas onõas coalhaòas. 

Sem ti que vale a firmeza, 
O' santa conformiõaòe ? 
Tu a perõoar ensinas 
Loucuras òa humaniòaõe. 

Viscondessa õe Balsemão (D. Catharina). Almanack de 
Lembranças Luso- Brasileiro para o anno õe 1863. Lisboa, 
1862. pag. 376. 

UMA PAIXÃO 

Inòa existe, cruel, inòa em meu peito 
Se nutre òa paixão o fogo activo ; 
Inôa contra o teu gosto por ti vivo, 
Fazenôo o sacrifício mais perfeito. 

Inôa te aõoro, ainôa te respeito. 
Venõo em ti õe meus males o motivo, 
Porem o coração, õe amor captivo. 
No captiveiro vive satisfeito. 



Poetisas Portuguesas 47 



Se ás vezes contra ti queixumes solto, 
Do que fiz insensato então me aõmiro, 
E aos meus antigos sentimentos volto. 

Só por ti vivo, só por ti respiro ; 

Sahirá com a minha alma em pranto envolto, 

Teu nome uniòo ao ultimo suspiro. 

Visconôessa õe Balsemão (D. Catharina). Almanack de 
Lembranças, 1857, pag. 227. 



D. HORTENCIA PAULINA DE LIMA 
BARBOSA 

Apesar õe D. Hortencia Paulina õe Lima Barbosa, ter 
«scripto ôiversas vezes, na Grinalda, jornal Ôe poesias 
ineõitas, publicaòo no Porto, nos anos òe 1855 a 1869, 
pouco sei acerca besta Poetisa a quem Innocencio se não 
refere no seu Diccionario. 

Esta Senhora viveu em Ponte Òa Barca, localiòaòe ôon- 
í>e ôatou algumas ôe suas proõucões poéticas. 

Na Grinalda que é um jornal curioso e bastante apre- 
ciaôo, e que teve seis anos õe existência (caso raro entre 
nós, em publicações õesta natureza) alem òe Nogueira 
Lima e J. M. B. Carneiro, seus redactores, colaboraram : 
Guerra Junqueiro, Alexandre Braga, Alexandre õa Concei- 
ção, Alberto Pimentel, Augusto Luso, Camillo Castello 
Branco, Custodio José Duarte, D. Clorinda M. Ernesto 
Pinto de Almeida, Faustino Xavier de Novaes, Francisco 
Joaquim Bingre, Sousa Viterbo, Guilhermino de Barros, 
João de Deus, José Maria de Sousa Monteiro, José Ramos 
Coelho, Júlio Diniz, Furtado Dantas, J. Guilherme Lobato 
Pires, J. M. Barbosa Carneiro, J. M. Nogueira Lima, Ma- 
nuel Duarte d*Almeida, D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho 



48 Poetisas Portuguesas 

D. Mariana Belmira Ôe Anòraôe, D. Maria Peregrina õc 
Sousa, Soares òe Passos, Theophilo Braga, Thomaz Ri 
beiro, etc. 

A PASTORA 

Sou pastora, sou feliz 
Meus rebanhos apascento ; 
Na veròe relva me sento, 
Colho as rozas côr ôe Hz, 
Os jasmins e brancos lirios. 
Louros verões e martirios. 

Vejo as margens encantaôas 
Do meu Lima, tão formoso* 
Deslisanòo preguiçoso 
Sobre as areias õouraõas ; 
Vejo o sol no céu brilhante 
De mil raios fulgurante. 

Góso as noites tão saudosas 
Em que a lua prateaòa. 
De mil estrelles cercada, 
Corre as campinas vistosas ; 
Vejo nascer linòa aurora. 
Que com seu brilho namora. 

As auras vejo brincando 
Co' as flores lindas mimosas, 
As folhinhas graciosas 
Sobre a terra debruçando. 
Pela manhã orvalhadas, 
A' tarde do sol crestadas. 

Sou pastora, sou feliz. 
Meus rebanhos apascento ; 
Na verde relva me sento, 



Poetisas Portuguesas 49 



Colho as rosas côr Òe Hz, 
Os jasmins e brancos lirios 
Louros verões e martírios. 



Hortencia Paulina ôe Lima Barbosa. A Grinalda, pag. 21 
e 22, terceiro anno, Porto, 1860. 



D. MARIA JACINTHA TEIXEIRA BASTOS 

D, Maria Jacintha Teixeira Bastos nasceu em Lisboa. 

E' filha õe D. Marina CanÔiÔa Villaverôe Teixeira Bastos 
e 5o faleciõo publicista e poeta Francisco ]osé Teixeira 
Bastos, auctor õas Vibrações do Século, Õos Rumores Vt4l- 
caniços e ò'outros trabalhos literários õe valor. 

Dos quinze para os õezaseis anos, escreveu, esta Senho- 
ra, uns contos para creanças, os quaes foram publicaiios 
em vários jornaes òa província. 

Datam, aproximadamente, õessa época, as poesias que 
insiro, e que senõo íneõítas, ôevo á amabiliôaòe Ôe sua au- 
:tora, queé casaõa com o õistincto aòvogaõo Dr. João Va- 
erio òas Neves Pereira, caricaturista õe merecimento. 

O FUTURO 

(tnedito) 

Que é o futuro ? 
Enigma escuro 
P'ra nossa alma ! 
Na víõa calma 
Que se õisfructa, 
Ninguém prescruta 
O que elle trará. 

E' boa a viõa 
. Na sua liõa. 



50 Poetisas Portuguesas 



Com tantos sonhos, 
Doces, risonhos 
Se vae passanôo, 
Não nos lembranòo 
Qual elle será. 

Granôes castellos, 
Linòos e bellos, 
P'ra que os fazemos? 
Se nós sabemos 
Que p'ra o futuro 
O íaõo ouro 
Destrui-Ios-ha. 

Futuro incerto ! 
Será ôe certo 
No fim a morte. 
Com esta sorte 
Triste que temos 
Nunca sabemos, 
Como elle virá. 

Maria jacintha Teixeira Bastos. 



MEU CORAÇÃO 

(inédito) 

Está ôoiòo ! Mas que querem ? 
Ficou assim, coitaòo, 
N'um õia malfa<>aÒo, 
Por uns olhos que ferem. 

Olhou -os sem pensar 
Que uns olhos tentaòores 
PoÕem matar õ*amores 
Aquelle que qs fitar. 



Poetisas Portuguesas 51 

Não mais teve alegria 
Prenõeu-se e assim ficou 
E aqueile que o matou 
Ao vê-lo assim sorria. 

Doiõo ! Quer-se matar ! 
Não ha um só momento 
Que o seu negro tormento 
O òeixe socegar, 

Maria Jacintha Teixeira Bastos. 



D. ELISA TOSCANO BATALHA 

D. Elisa Toscano Batalha nasceu em Portel, uma ôas 
mais soberbas localiòaões òo Sul õe Portugal, vila alente- 
jana, onõe viveu por largos anos, e que ôista umas oito 
léguas õ'Evora, 

Ha anos, publicou o seu primeiro livro Òe versos, ao qual 
ôeu o titulo õe Crepúsculos. 

Passanõo a residir na Capital, tem esta Senhora colabo- 
raòo, em prosa e verso, em vários jornaes e revistas. 

Para o Jornal da Mulher, alem õe varias poesias, escre- 
veu D. Elisa Toscano Batalha um ligeiro estuòo histórico, 
baseaõo numa novela Castelhana, Jaritla, cujo enreõo se 
prenõe com certas passagens õa nossa historia Pátria. 

Esta õistincta Poetisa, que tem um fervoroso culto pela 
Literatura que aõora, trabalha numa serie òe crónicas e 
artigos que se referem á sua terra natal e arreõores, escri- 
ptos que tenciona publicar num õos jornaes òe Lisboa. 

Em 1915, o seu soneto que cito. Meu Tormento, obteve a 
segunòa classificação, num concurso aberto pelo meneio - 
naòo Jornal da Mulher. 



52 Poetisas Portuguesas 

MEU TORMENTO 

<Como sofre !> — me òiz 5oce e excessiva 
E tomanõo-me as mãos — «que õesalento ! 
Vê-se que ôa òesgraça o cruel vento, 
Aqui soprou, com inclemência viva, 

EncaneciÔa tem a pensativa 
Fronte (assim posta quasi n'um momento) 
Ah ! vamos, faça meu o seu tormento 
Conte- me essa occorrencia pungitiva! 

E calou-se. Entretanto, eu òigo assim : 
Bemòita seja, teve Òó òe mim, 
Commoveu-a a minha alma angustiada ! 

Quer saber as razões ?• . pueris talvez. . . 

Olhe, certo vai rir-se ôesta vez, 

E' que eu amei . . amei sem ser amaõa ! 

Elisa Toscano Batalha. Jornal da Mulher, n.' 97, ôe 30-5- 
1915, 5.* anno, pag. 1409. 



AN]INHO INFORTUNADO 

E' pequenita. Só teas 
Dez annos e é fraquinha ; 
Alva loira, õelgaôinha. 
Costuma, õe quanòo em quanòo, 
Peòir-me a sua esmolinha. 

Parece não ter ninguém ; 
Vejo-a sempre sósinha. 

Pobresita ! quanòo peòe, 
Não insiste, não se exceôe. 



Poetisas Portuguesas 53 

E é só, com moòeração, 
Que co'a ôor nos olhos seus, 
Peôe, pelo amor õe Deus, 
Um boccaõinho ôe pão. 

Ontem, òiante Òe mim, 
Alguém lhe fallou assim ! 

— A tua mãe onôe está ? 
Porque não vai ela aqui, 
Caminhando a par ôe ti, 

E a terna mão te não õá ? 

Porque, õe negro vestida, 
Vagueias tu, sem guariba. 
Pelo munôo, ao Deus ôará ? — 

Ao que ela, então, responôeu ! 

— A minha mãe está no ceu, 
Acompanha-me õe lá. — 

Elisa Toscano Batalha. Echos da Avenida, Lisboa, Julho 
õe 1916. 



DE VOLTA AO CURRAL 

Campina em fora, pela estraõa real, 
Eles lá vêem. Buscam o õoce Abrigo 

— Formosos bois — 

Vêem õo pascigo. 
Vêem no passo lento natural. 

Entretanto, refulgem já no Ar 
Estrellas ; por isso ele, o bom amigo 
Maioral (um honraôo servo antigo) 
Grita, õe vez em vez, p'ra os animar. 



54 Poetisas Portuguesas 

E a sua ruõe voz (mas carinhosa) 
Casa-se aqui, então c'o som ôolente 
Dos chocalhos e esquiías. Belamente, 
Numa ingénua toaòa harmoniosa ■ . 

Mas eis chegam emfim. Corre o maioral 
A abrir ôe par em par o amplo portão, 
E eles lá entram todos, Òe gangão, 
P'ra ôentro õo vastíssimo curral. 

D'aqui vão p'ra cabana, sem õemora, 
E ali, ôepois, os levam a tomar 
O seu logar á farta mangeõora, 
Aonôe os prenôem. 

Chamam-nos (é òo maioral a voz) 
Chega cá Baixel ! eh ! chega Galante ! 
Pachá, Formoso! ■ » Emfim, toòos e toôos 
— Que graça ! — logo vão, no mesmo instante. 
Bonacheirões, um e outro e outro após . 

Então, estanôo toÔos já afinal 
No seu logar, comenôo a sã ração 

E tuõo assim sereno 
Ceia o maioral : toicinho e pão moreno, 
Numa òoce e perfeita quietação. . . 

Elisa Toscano Batalha. Jornal da Mulher, 3." ano, n," 16 
Õe 30-5-1913, pag. 573. 



Poetisas Portuguesas 55 



MERCEDES BLASCO 

(d. conceição victoría marques) 

Mercedes Blasco nasceu no baixo Alemtejo como a mes- 
ma õeclara no seu livro, Memorias de uma Actrij, publica- 
do em 1908 (2." eòição), obra òonõe extraí alguns Õos Òa- 
Òos que figuram nestas notas biográficas. 

Também usou em cartazes teatraes, os nomes õe Judit 
Mercedes Blasco e Õe Judit Mercês. 

O verõaõeiro nome õe Merceôes Blasco, é Conceição 
Vicioria Marques. 

Até aos 7 anos òe iôabe viveu com seus pães na Anda- 
luzia. 

Depois passou a resiòir no Porto, onõe se instruiu. 

Seu pae, José Maria Marques, tinha especial empenho 
em que a filha cursasse Medicina. 

O temperamento irrequieto e a atracção profunda que 
sobre Mercedes Dlasco exercia a vida teatral, não lhe per- 
mitiu fazer esse curso, tendo sido, todavia, aluna da Escola 
Normal. 

Um belo dia, sendo ainda menor, foge de casa pela se- 
gunda vez — mau grado o horror que seu pae tinha pelo 
teatro — e faz a sua estreia artística no teatro Chalet, do 
Porto, sendo-lhe confiados os primeiros papeis. 

Em Lisboa, trabalhou nos teatros da Trindade e Avenida. 
Mercedes Blasco fez parte da companhia do teatro da Trin- 
dade, desde outubro de 1890 a maio de 1899. 

Entre outras peças representou : Mam'^elle Nitouche, 
Moira de Silves, Piparote, Miss Helyette, O burro do Sr. 
Alcaide, etc. 

As suas principaes creações que lhe mereceram a popu- 
laridade de que gosou, foram : o Morgadinho do brasileiro 
Pancracio,o Diabo Eléctrico, Miss Helyette, 28 dias de Cla- 
rinha, Solar dos Barricas, Mam^^elle Nitouche, etc. 

Inteligente e dotada de uma bonita voz, Mercedes Blasco 



56 Poeíisaè Portuguesas 

ez sucesso, não só nas peças mencionaòas como tamben 
cantando faõos e canções. 

Representou no Pará, e em MaÔriò nos teatros Lara 
Moderno e Romea. Em Lisboa, também trabalhou no Rea 
Coliseu òe Lisboa, Aveniòa, Rua bos Conòes, D. Amélia, etc 

A' bibliografia teatral portuguesa — ôe que neste momen 
to me lembro terem siòo publicaòas as obras : JSo Theain 
e na Sala, por D. Guiomar Torrezão ; O l^htatro em Fralda 
por Olòemiro César ; liecordaçôes aa Scetia e de Fora d' 
Scena, por Augusto Rosa ; Impressões de Theaíro, por Bra: 
Burity ; Estros e Palcos^ por Luciano Corõeiro ; A Litera 
tura dramática em Portugal^ por ]. M. õe AnõraÔe Ferrei 
ra ; alem òos volumes sobre o actor António Peôro, Angeli 
Pinto e Palmira Bastos — o livro òe Merceões Blasco i 
mais um elemento que se vem juntar. 

BOHEMIA 

No seu olhar, tão negro e revoltoso, 
Luzia a chamma õe infernal malícia . . . 
Um riso branõo, um rastro òe caricia, 
Brincava- lhe no lábio apetitoso. . 

E o manòolim trilhava òôcemente 
Sôb a pressão arõente òos seus òeòos, 
A murmurar-lhe uns òivinaes segreòos. . 
SeguinÒo assim religiosamente, 

Uma canção singela e òesolaòa 
D'um estribilho languiôo e fremente, 
Recorõação òe tempo mais risonho, 

— Talvez òa infância pura e Òescuiòaòa — 

Que ela cantava òistrahiòamente. 

A alma a errar pela ampiiòão ôo Sonho ! . 

Merceòes Blasco. Musa Hysterica, Lisboa, 1908. 



Poetisas Portuguesas 57 

CASTA... 

Quanõo a vejo passar, como o luar serena, 
Luzindo- lhe o puõor no meigo olhar escuro, 
Tenho a visão gracil òa palliõa assucena, 
Brotanòo altiva e sã ôas peôras ò'um monturo. 

O oiro ôo cabello enrosca-se vaiòoso, 
Deijanõo-lhe, egoísta, a nuca õe setim. . • 
Das faces o palor òá-lhe ao perfil gracioso. 
Um mysticismo iòeal õe virgem ôe marfim. . . 

E vae seguinôo alem, sem sombra ôe amargura 
Roçanõo a poõriõão e o vicio a caõa esquina ! 
E naõa vae manchar-lhe a virginal canòura 
Do riso que lhe encrespa a bôcca purpurina ! 

Por isso, ao vêl-a ir, como o luar serena, 
Luzinôo-lhe o puõor no meigo olhar escuro. 
Tenho a visão gracil ôa palliõa assucena, 
Brotanòo altiva e sã òas peõras õ'um monturo. 

Merceões Blasco. oMusa Bysterica. 



D. ESTHER AMÁLIA DA CUNHA BELÉM 

D. Esther Amália ôa Cunha Belém nasceu em Coimbra, a 
25 Òe ]ulho ôe 1856. 

E' filha õe D. Magõalena Emilia õo Carvalhal õe Miranõa 
õa Silveira Vasconcellos e õo Dr. António Manoel õa Cunha 
Belém, cirurgião em Chefe õo Exercito, e auctor õe muitos 
rabalhos literários e scientificos. 

Colaborou no Almanach das Senhoras, no Almanach D 

uíf, na Creche, no Diário lllustrado (onõe publicou, alem 
^Q poesias, perfis e biografias), e na Lisboa Creche. 

Lisboa Creche, é um pequeno e interessantíssimo jornal 



53 Poetisas Portuguesas 

que foi publicaôo em Lisboa em Maio ôe 1884 ; foi seir 
eòitor Daviò Corazzi. 

Teve por directores artistico e literário, respectivamente, 
Rapliael Borôallo Pinheiro e o Dr. Xavier Ôa Cunha, inôi- 
viôualiòaôes consagradas no munõo intelectual. 

Neste jornal miniatura que é ilustrado e que traz o fac- 
simile 5a assignatura ôe caòa escriptor, colaboraram, entre 
outros, em prosa e verso : 

D. Esther ôa Cunha Belém, D. Guiomar Torrezão. Dr. 
Cunha Belém, D. António ôa Costa, Brito Aranha, Camillo 
Castello Branco, Christovão Ayres, Barros Lobo, Eôuarôa 
Viôal, Gomes ôe Amorim. Fernanôes Costa, Fernando Cal- 
Ôeira, Fernanôo Palha, Francisco Palha, Fonseca Benevi- 
Ôes, Gervásio Lobato, Guilherme Ennes, Guilhermino de 
Barros. Lopes ôe Mendonça, Oliveira Ramos, Andrade 
Corvo, Pinheiro Chagas, Jaime Victor, Júlio César Machado, 
Palmeirim, Moura Cabral, Pedro Vidoeira, Ramalho Ortigão, 
Virgílio Machado, Visconde de Benalcanfor, VisconÔes ôe 
Castilho, (António e Júlio), Visconôe ôe Ouguella, Xavier Ôe 
Carvalho, etc. 

Lisboa Creche foi ôeôicaôa a sua Magestaôe a Rainha 
Senhora D. Maria Pia. Destinava -se a auxiliar as Creches. 

D. Esther ôa Cunha Belém fez os seus primeiros versos, 
contanôo apenas ôez anos ôe iôaôe. 

As suas produções poéticas nunca foram reuniôas em 
volume. 

JOÃO DE DEUS 

dNSDtTO^ 

Na Festa 

Vem trazer-te a mociôaôe 
Cantos, flores — que o tempo foge ! 
Diz o mestre com bonôade : 
— A vida é o dia de hoje. 



Poetisas Portuguesas 59 



Na Morte 

Murcham as flores, geme a lyra 
Como a ventura se esvai ! 
Morre o poeta e suspira : 
— A vida é folha que cai. 

Esther Amália õa Cunha Delem. 



AS ROSAS DA RAINHA 

Como a Rainha Santa a historia grato encanto 
Sublime e angelical ô'amor e Ôe pieõaõe 
Um õia meigamente, abrinòo o régio manto 
Em rosas transformara o pão 5a cariòaôe ; 

Hoje, outra existe assim, Ôe quem meigos sorrisos 
Faz bálsamo que extingue alheias funôas Ôôreô ; 
Que em luz converte as trevas, as lagrimas em risos 
Em agasalho o frio, e em cuiõaòo as flores. 

Esther Amália ôa Cunha Belém. A '^Prece, Lisboa, 1884. 



A CRECHE 

A Creche : — um tepiõo ninho 
ToÔo formaôo õe Amor ! 
Onòe as meigas crianchinhas 
Revivem ao seu calor ! 

E' como um ceu constellaòo 
D'essas estrellas formosas 
Onòe sorriem os anjos 
Onòe florescem as rosas. 

Esther Amália òa Cunha Delem. Lisboa Creche, (Maio Òe 
84). 



60 Poetisas Pòríugueòas 

PARA OS ORPHÃOS 

Aos pobres, coitaòinhos. 
Christãos õaí uma esmola 
O' mães, ôai-lhes carinhos 
Dai-lhes ó pátria a escola ! 

E assim tornemos riõente 
O seu Òestino escuro 
A's pombas õo presente, 
A's águias òo futuro !. 

Esther Amália ôa Cunha Delem. Para os Pequeninos. 1885 
(Jornal a favor òa Associação protectora òas crianças). 



D. MARIA RITA CHIAPPE CADET 

D. Maria Rita Chiappe Caôet nasceu no Algarve, seguníx 
supõe Innocencia ôa Silva. D. António Òa Costa julga-: 
lisboeta (pag. 304 õa éMulher em Poríus^alj. 

Faleceu em 5 òe õesembro Ôe 1885, 

D. Maria Rita Chiappe Caõet foi professora 5e francês < 
gerente ôa livraria Lalement. Colaborou em inúmeros jor 
naes e almanacks. 

Em 1870, publicou um livro intitulaôo Versos. E\ também 
auctora ôe Sorrisos e Lagrimas (poesia), e Flores da In 
fancij. contos e poesias moraes, ôeôicaôos á mociôaôe por 
tuguesa. 

Os Contos da Mamã e o Theatro das Creanças constituen 
uma graciosa colecção õe onze pequenas comeôias ôesti 
naôas á infância. 

Foi esta Senhora, segunôo creio, a percursora, entre nós 
ôa lAteratura Infantil, para a qual tem escripto numeroso; 
livros: D. Maria Amália V. ôe Carvalho, D. Maria 0'Neill 



Poetisas Poftiiguesas 

D. Maria Feio, D. Emília òe Sousa Costa, D. Maria Sofia 
Machaòo (Santo Tyrso), etc. 

Alem õas obras citaòas, o nome òe D. Maria Rita Chiappe 
Caõet está ligaòo a muitas outras composições originaes, 
imitações e traduções. 

A VARINA 

Nas longas praias sem cessar banhadas 
Das claras aguas ôo sereno mar, 
Meu pobre berço õe varina tive, 
Que as vagas vinham com amor beijar. 

Ah ! foram ellas que affagaram ternas 
Tranquillos sonhos Ôe infantil viver. 
Que me ensinaram co'murmurio branõo 
A lei õo Eterno a respeitar e crer. 

Que bellos sonhos na primeira iõaòe 
Minh'alma pura e juvenil creou ; 
Que meiga esp'rança no futuro aguarõa 
Quem o trabalho com prazer buscou. 

Que importam liõas, se á faôiga affeito 
Meu braço póõe com aròor liõar ; 
Se o pão bemôito que o trabalho offrece 
Vem a meus pães consolações prestar. 

Ah i se o meu rosto, como as jovens õamas, 
Mimo e alvura que ostentar não tem ; 
Se a brisa aòusía que ôo norte sopra 
As faces toôas requeimar-me vem. 

Em troca õ'isso sinto o peito forte, 
Livre e robusto palpitar õe arÒor, 
E em meu caminho segreòar-me escuto 
Vozes que faliam õe um porvir õe amor. 



62 Poetisas Portuguesas 

Quanôo ao romper Õa maõrugaòa acoròo, 
Ergo-me e sinto o coração feliz, 
Minha alma pura Õe prazer trasborda 
E a Deus meu peito com fervor bemòiz. 

Oh ! sim que ao brilho òa nascente aurora, 
Na luz serena que raiar se vê, 
Sente a varina palpitar-lhe o peito, 
E Dentro õ'elle vigorar-se a fé. 

Não gasto enfeites, meu vestir singelo 
Não tem veluòos, ouropel, setim ; 
O breve lenço que o meu seio encobre. 
As largas abas òo chapéo varim. 

A saia curta, õebruaôa apenas 
De orlas vermelhas sobre um runôo azul. 
Eis meu aõorno, Òa varina a gala, 
Minha riqueza, meu trajar taful. 

Porém, que importa s'inõa assim não troco 
A sorte minha por um throno, oh I não ! 
Eu sou feliz n'esta pobreza honraòa, 
Trabalho e ganho com prazer meu pão ! 

Não sonho flores, nem setins, nem jóias, 
Vale mais que ellas meu gentil rubor, 
Que sob os trajos õe varina humildes 
Mais sobresae õa mociõaõe a flor. 

O único sonho que na mente aífago, 
Única esp'rança que minh'alma tem, 
Toõa a ambição que n'este peito encerro. 
Que a par ôas crenças vegetou também, 

E' ô'esse lucro que o suor me custa, 
Ténue parcella para mim guarõar. 
Pingentes õ'ouro comprarei com ella, 
E a cruz penõenõo õe gentil coliar. 



Poetisas Portuguesas 63 



Oh ! se o consigo, mais feliz na terra 
Mulher alguma viverá ôo que eu, 
Que importam liôas que o prazer esmalta, 
Doces trabalhos que abençoa o ceu ! 

Tomo a canastra que o meu peixe leva, 
E na ciòaòe que topar visinha. 
Vou pelas ruas pregoanDo alegre : 
<Biba, bibinha, quem a quer bibinha ?!...» 

Maria Chiappe Caõet, Feríos, Lisboa, 1870, pag. 17 a 19. 



D. LUTHGARDA GUIMARÃES DE CAÍRES 

D. Luthgaròa Guimarães õe Caires nasceu em Vilia Real 
í>e Santo António. 

E' filha ôe D. Maria Thereza õe Barros Guimarães e ôe 
José Roôrigo Guimarães que foi um granòe amaõor õe 
musica. 

Pelo avô õesta Senhora — Daniel Baptista õe Barros — 
teve D. Luiz I especial estima, õatanõo esta amizaõe õo 
tempo em que o pae õe El- Rei D. Carlos I anõava embar- 
caõo como simples guarõa marinha. 

O meio culto, em que õesõe bem nova viveu e se eõucou 
a ilustre Poetisa õe quem estou falanõo, influiu, por certo, 
bastante, para que no seu espirito germinasse o gosto pelo 
cultivo õas Leiras e õas Belas Artes, estuõos estes que 
tanto õesvelo e atenção merecem a D. Luthgarõa Õe Cai- 
res, esposa Õo muito conheciõo aõvogaõo Dr. João õe 
Caires. 

Esta Õistincta Poetisa tem colaboraõo no Diário de No- 
ticias, Capital, Brasil e Portugal onõe publicou, alem õe 
carias poesias, um conto — O Conspirador — e no Secuio, 
onõe escreveu interessantes artigos sobre assumptos so- 
ciaes. Entre eles, merecem especial referencia : 



64 Poetisas Portuguesas 

Abaixo a penitenciaria (que contribuiu para a abolição 
òa mancara aos presos), e A Mulher na Sociedade. 

D. Luthgarôa Õe Caíres é auctora òos seguintes trabalhos^, 
literários : 

Em verso : Glicineas, Papoulas, 2.» eÕição, A Bandeira 
Portuguesa (exgotaòa), Pombas feridas (plaquete), Sombra?" 
c Cinjas, 2." eôição, A Revolta, peça em 1 acto, adaptação 
em verso, õe uma scena simbólica, escripta em prosa, por 
Nelly Roussel que permitiu que fosse ampiiaòa, o que D. 
Luthgarôa õe Caires levou a efei*o, visto a peça em ques- 
tão ser excessivamente pequena para poôer ser represen- 
tada. 

Em prosa : -4 Dança do Destino. 

A auctora òas Sombras e Cinjas, trabalha actualmente-: 
nas seguintes obras : O Dr. "Vampiro, romance, Castellos 
de Estreitas, poesia, e As ires arvores 

A historia oeste ultimo livro é muito curiosa. Nas ires- 
arvores, serão publicaòos, alem õe alguns contos ineõitos, 
o nome õas pessoas que teem contribuiõo com roupas e 
õinheiro para a meritória obra õe cariõaõe que D. Luth-í 
garoa õe Caires, com tanta õevoção, iniciou ha 3 anos, ves- 
tinõo e Õistribuinôo brinqueõos ás crianças õos hospitaes 
e, em especial, ás Õo Hospital D. Estephania, funõaõo pela 
Rainha õo mesmo nome, a esposa õo Rei D. Peõro V,. 
hospital este, a principio, só õestinaõo á infância. 

Toõos os meses, esta bonõosa Senhora compra brinque- 
õos e rebuçaõos que leva aos seus protegiõos- 

A granõe festa õa õistribuição õas õaõivas que tanta 
alegria causa aos pequeninos õoentes, realisa-se no õia õe- 
Natal, senõo a promotora õesta bemfazeja e simpática obra^ 
auxiliaõa por õeõicaõas Amigas. 

Para bem se avaliar õos primores õo coração õe D. Lu- 
thgarôa õe Caires, basta õizer que parte õo proõucto Ôa 
venõa õos seus trabalhos literários é õestinaõa a estes 
actos õe cariõaõe. 



Poetisas Portuguesas 65 



AVE, MARIA 

Avè, Maria, Mater dolorosa. 
Cheia de graça e ôivinal fulgor ! 
Maria Santa, estrella raòiosa, 
Mãe òe Jesus, o nosso Reôemptor. 

O Senhor é comvosco, Virgem Santa, 
Bemdita Sois, Vós, Casta flor Dos céus ! 
Que perlas finas, õe amargura tanta. 
Vós não chorastes, pelo amor õe Deus I 

Entre as mulheres, Mãe immaculaõa, 
Bemdito é o fructo õa mais casta estrella ; 
No Ceu, na terra. Sois abençoaõa, 
E entre as mais santas, a mais pura e bella. 

Do Vosso ventre, tão bemôito e santo 
Jesus nasceu, nosso ôivino Guia, 
Por quem Ôepois, correu o Vosso pranto, 
VenÔo-o expirar na Cruz, Santa Maria ! 

Luthgarõa Guimarães õe Caíres. Glycinias, Lisboa, 1910, 
ag. 29 a 32. 



A VAGA 

AÕoro-a ! como se aõora 
O que seõuz e fascina, — 
A vaga õiamantina 
Que me atrahe ê~me enamora. 

Quanõo louca ôesarvora, 
E quanõo altiva õomina, 
Quanõo arrebata e extermina, 
Quanõo ruge. . . e quanõo chora. 



66 Poetisas Portuguesas 

Amo a sereia anõolante, 
A preguiçosa bacchante, 
Gemenòo queixas ôe amor. . . 

Embora o seio turbado. 
Sob o seu manto prateaòo 
Alimente a morte e a ôôr !. . . 

Luthgaròa Guimarães òe Caires. Glycinias, pag. 49 a 5í 



LOURDES 

Era ao entarõecer. Luz opalina. 
Como eu fiquei ali extasiaòa ! 
Perante a Virgem branca immaculaõa, 
Na sua gruta mystica e òivina. 

Como lagrima pura, crystalina, 
Corria um fio õe agua abençoaòa. 
E uma rosa moõesta e õeslumbraõa, 
Na rocha tremulava, pequenina . . 

Oh ! Mãe Celeste ! Até as próprias rosas. 
Mesquinhas oscilanòo ao vosso labo, 
Se curvam, vaciliantes, receosas! 

E o vosso olhar, õescenôo iiluminaòo, 
Por sobre as multidões angustiosas, 
Reòime a culpa, e limpa ôe peccaõo. 

Luthgaròa Guimarães õe Caires. Glycinias, pag. 203 a 20íi 



Poetisas Portuguesas 67 



ANTE UMA CAVEIRA 

Quem foste ? Tu que és hoje uns restos õo passado ? 
Um martyr ? um banõiòo ? O' tu que foste alguém ! 
Quem sabe se inòa existe um peito angustiado 
que chore a tua falta. . . um coração õe mãe !. . . 

Nas órbitas sem luz, talvez que uns linôos olhos, 
outrora com amor, chorassem combalidos. . . 
Talvez que o teu caminho, erriçaòo õe abrolhos, 
o regassem òe pranto os teus olhos perdidos ! 

E hoje, fria caveira, insondável mistério, 
nem a terra te abraça o teu craneo gelado ! 
Nem sequer tens lugar num triste cemitério, 
onde a saudade vá chorar o teu passado ! 

Luthgarõa Guimarães de Caires. Sombras e Cin:j[as, 1." 
edição, Lisboa, pag. 53 e 54, 



D. MARIA JOSÉ DA SILVA CANUTO 

D. Maria José da Silva Canuto nasceu em Lisboa, em 28 
õe Janeiro de 1812 e faleceu em 20 de Janeiro de 1890. 

Foi jornalista, poetisa e professora de ensino primário. 

Colaborou em diversos almanachs, na Revolução de Se 
lembro, no Occidente, no Patwrama e na Revista Universal 
Lisbonense, na qual escreveram entre muitos outros ho- 
mens ilustres : António Feliciano de Castilho ; Alexandre 
Herculano; António Augusto Teixeira de Vasconcellos ; 
Pereira da Cunha ; António õe Serpa ; Silva Túlio ; Filippe 
Folque ; Francisco Palha ; Silveira Malhão ; Ferreira Lapa ; 
AnÕraõe Corvo ; João õe Lemos ; Costa Cascaes ; FraÕesso 
da Silveira; Casal Ribeiro ; Correia Calòeira ; Augusto Pai- 



68 Poetisas Portuguesas 

meirim ; Gomes õe Amorim ; Fernanôes Thomaz, Visconõe 
òe Sá ôa Banôeira, etc. 

D. Maria José òa Silva Canuto publicou os seguintes 
trabalhos: Escavações e Conferencias Pedagógicas. 

Foi, principalmente, á instrução que esta Senhora òeôi- 
cou o máximo Õe seu esforço e inteligência. 

Morreu, õepois Ôe uma constante lucta pela viòa, con- 
tando 82 anos Õe iõaõe. 

Se os últimos tempos õe sua longa existência não foram 
completamente angustiosos, Õeve-o a Rosa Araújo, — o 
iniciaõor õos granões melhoramentos Õa ciõaõe Õe Lisboa 
— que lhe conceõeu um subsiõio anual, que em parte lhe 
minorou a õesgraça Õe se ver entrevaõa. 

MAGDALENA 

A que outr'ora opulenta e raõiosa 
Õe belleza e õe amor não saciaõo, 
leito ebúrneo, õe arminhos recamaõo, 
a seus cultos sagrara caprichosa. 

Eil-a. . aos pés õe }esus . tão lacrimosa ! 
De oõorifica unção lh'os tem banhaõo, 
com as áureas maõeixas enxugaõo. 
EsplenõiÕa na õôr ! sempre assombrosa ! 

A que outr'ora aos murmúrios responõia 
õe menestréis acorões com harpejos, 
que a seus festins opíparos reunia. 

Muõa as turbas perpassa, ouve os motejos, 
Amor celeste a mente lhe alumia ; 
pranto e morte fixaram seus õesejos ! 

Maria José õa Silva Canuto. Almanach das Senhoras, 1878, 
pag. 153. 



Poetisas Portuguesas 69 



D. LUCINDA DO CARMO 

D. Lucinõa ôo Carmo nasceu em Lisboa. 

A 22 ôe Setembro ôe 1882, encetou a sua carreira artis- 
tica, representanòo, pela primeira vez, no Theatro Gymna- 
sio, senôo a peça, em que tomou parte. Estação Calmosa, 
comeõia em 3 actos, traòuziõa por José Augusto Ferro. 

As principaes creações artísticas e peças em que mais se 
tem salientado D, Lucinòa ôo Carmo que no meio teatral 
português gosa òe justificaõo renome, e que conta geral es- 
tima e simpatia òo publico, são : 

Niíoiiche, Lili, Carraça, Doutora, Notte do Calvário, Fei- 
ticeira, Innocencia, A Sombra, Cigarra, Intimo, etc. 

No teatro D. Maria Pia, ôa ilha õa Maôeira, e nos Açores, 
representou D. Lucinòa õo Carmo toòo o seu reportório, 
alcançan&o extraorõinario successo. 

Fazenôo parte õas companhias Furtaòo Coelho e Rosa e 
Brasão, representou, respectivamente, no teatro ôa Comedia 
de Madrid, õurante um mes, bem como no Rio ôe Janeiro 
e em S. Paulo. 

Em Paris e em Maôriô, onôe esta Actriz tem estaôo em 
viagens ôe estuôo, assistiu a representações em que toma- 
ram parte os mais iminentes artistas Ôo munôo. 

Em 1891, entrou para o nosso primeiro teatro ôramatico» 

Teatro Nacional, fazenôo parte ôa Companhia Rosa e 
Brasão. 

Em 1898, foi D. Lucinôa ôo Carmo nomeaôa sociataria 
ôe 1.* classe ôo mencionaôo teatro, onôe se tem conser- 
jvaôo até hoje. 

Em Maio ôe 1912, foi-lhe confiaôa a regência ôa 7.^ Ca- 
[ôeira ôa Escola de Artt de Representar que funciona no 

1 Conservatório ôe Lisboa. 
E' nessa caôeira, que se preparam os alunos para as 

[provas íinaes que são publicas e em que os ôiscipulos mais 
[classificaôos ôisputam prémios. 

Em 1911, publicou D. Lucinôa Ôo Carmo, uma ôas pou- 



70 Poetisas Portuguesas 

cas actrizas portuguezas que se teem òeòicaõo á^soesia, o 
seu primeiro livro (prosa e verso) intitulado Fora de. Scena. 
Como escriptora, colaborou no Almanach dos Palcos e 
Salas, Illustrado e ôas Senhoras. 

AS PALMAS 
(monologo) 

Quanto eu gosto òe as ouvir ! . . . 



Fazem-me logo sorrir 

Por mais triste que me sinta : 

— E não ha quem me Desminta ; 
(Pelo menos se esse alguém 
Viver õa arte também 

E artista fôr, ôe õireito.) 
São as palmas o mór preito 
Que o artista sempre anhela, 
A ovação — a mais singela — 
Sempre a nossa alma arrebata 
Porque, em summa, ella é tão grata 
Que nos deslumbra e extasia 
Como a pura luz ôo õia ! 
O templo 5a Arte aôoraôo 
E por tantos profanaôo 
Quantas vezes se anniquila 
Com a asneira que fusila 
Sem que alguém lhe tenha mão ? 
E cá fora a multiòão 
Sempre bôa, complacente, 
Tal profanação consente, 
(Pois só pensa em ôivertir-se) 
E acha graça, fica a rir-se ! . . . 

Que santos, que ingénuas almas, 

— Cae o pano . inòa òão palmas ! - 



Poetisas Portuguesas 71 

Se um artista é õe valor, 
(Aquelle que seja Acior) 
Que prazer ha ôe sentir 
Ouvinõo rir, se elle rir, 
E chorar, se elle chorar ! ? . . . 
Ouvinõo esturgir no ar 
As palmas e as ovações, 
Que mil gratas sensações 
D'alegria ha òe sentir ! ? . . 



Ha õe, por força, sorrir. 
Ha Õe, por força, animar-se. 
Ha õe, emfim enthusiasmar-se ! 
Eu, por mim, naõa conheço 
A que õê maior apreço 
Do que ouvir uma ovação. 
P'las palmas, a õevoção. 
Em mim toca o fanatismo. 
— E até quanõo o paroxismo 
Da morte, se me abeirar 
Eu prometto não chorar 
Se no outro munõo as almas 
Me receberem com palmas ! • ■ 

Lucinõa õo Carmo. Fora de Scena, Lisboa, 1911, pag. 115 
í 117. 



D. AUGUSTA FERNANDES PESSOA 
DE CARVALHO 

D. Augusta Fernanões Pessoa õe Carvalho nasceu em 
Bucellas, em 1886. 

Apesar õe ter resiõiõo, até 1910, nessa localiõaõe, e Õe 
não ter tiõo professores que lhe ensinassem as verõaõeiras 
regras Õe metrificação, as suas proõucções poéticas lêem- 



72 Poetisas Portuguesas 



se com muito agraòo, lai é a singeleza e naturaliòaôe t>e 
que são revestiòas. 

Foi no òiario, Novidades, que D. Augusta Pessoa òe Car- 
valho fez a sua estreia literária. 

No Jornal da Mulher, têm vinòo, por varias vezes, poe- 
sias firmaòas por esta Senhora. 

Os seus versos anòam Mspersos, senòo para lamentar 
não se acharem ainòa reuniõos em volume. 

SONHANDO 

Em linôa noite estrelada 
Que é o que eu penso sosinha 
Na janela òebruçaõa ? 
Aòivinha. . • 

Que pensamento risonho 
Vae minha mente afaganõo ? 
Que riòente e alegre sonho 
Vou sonhanõo? 

Não sabes, queres que òiga ? 
Mas eu sei lá o que penso 
Que iòeias a mente liga 
Com mais senso . 

Eu comparo o pensamento 
Quanòo assim, na soliõão 
Ao espantoso movimento 
Dum tufão. 

Não ha naõa que não venha 
Perpassanòo velozmente 
Transformar em õensa brenha 
Nossa mente. 

São sauòaões, são lembranças. 
São tristes recorõações. 



Poetisas Portuguesas 73 

São meigas ternas esperanças 
Aos milhões. 

Lembram maguas já passaòas 
Despertam sonhos riòentes, 
Mil iõeias são chocaõas 
Tão õifrentes ■ • 

Mas Oura tuõo um momento 
Anõa tuôo a esvoaçar, 
Como as folhinhas que o vento 
Traz no ar. 

E quanõo emíim despertamos 
D'aquele louco rever, 
Que projecto é que formamos 
A valer? 

Ai pergunta embaraçosa 
De que eu livrar-me consigo, 
Um projecto. . . cor Òe rosa. . . 
Que não ôigo. 

Augusta Pessoa òe Carvalho. Jornal da Mulher, II ano, 
n.» 43, pag. 259. 



D. DOMITILLA DE CARVALHO 

D. Domitilla òe Carvalho nasceu em Travanca òa Feira, 
òistricto òe Aveiro. E' filha òe D. Margariõa òe Carvalho e 
òe Manuel Roòrigues òe Carvalho, òe quem ficou órfã, con- 
tanòo, apenas um ano òe iòaòe. 

Ao ^eu talento, perseverança, e exíorço próprio òeve D. 
Domitilla òe Carvalho a sua formatura que fez com alta òis- 
tinção na UniversiòaÕe òe Coimbra, nas antigas Faculda- 
des de Medicina, Matemática e Filosofia. 



74 Poetisaê Portuguesas 

Os estuòos preparatórios fe-los D. Domitilla ôe Carvalho 
em Bragança, Castelo Branco eLeiria onõe concluiuo curso. 

D. Domitilla òe Carvalho foi a primeira senhora que fre- 
quentou a Universiòaõe ôe Coimbra. Tão inteligente como 
moõesta, alcançou nesta Universiôaõe as maiores Òistin- 
ções: 

Na Faculdade de Filosofia, um premio e 8 accessits ; 

Na Faculdade de Matemática, 2 prémios e accessits nas 
restantes cadeiras; 

Na Faculdade de Medicina, accessits em toòas as cadei- 
ras Ôo 1.° e 2." ano e prémios em toÒas as caòeiras ôo 3.°, 
4." e 5.' ano. 

Foram-lhe também conferidos o Premio Barão CasteUo 
de Paiva (trabalhos anatómicos), e o Premio Alvarenga (ma- 
téria medica). 

Não resisto á tentação de aqui transcrever uma ou outra 
passagem do prefacio com que Affonso Lopes Vieira abre 
o volume de versos, de D. Domilla de Carvalho, publicado 
em Coimbra, em 1909. 

«Tenho a honra de pertencer á geração contemporânea 
em Coimbra da senhora ilustre que assina este livro.> 

«Eu me recordo, como todos que no meu tempo eram sen- 
síveis, da graça moderna que imprimia á velha escola o seu 
vestido de estudanta.» . 

«Relembro a admiração profunda com que os cursos a 
que ela pertencia falavam da condiscípula fraternal, que 
conquistou sempre, com o mais franco aplauso dos cama- 
radas e a rendida homenagem dos professores, as mais su- 
bidas distinções e prémios, honrando desta vez quem os 
conferia.» 

<E, sobretudo, á minha lembrança acode que já então 
essa rapariga modesta, de uma formosura simpática e de 
uma gravidade risonha, que atravessava sozinha os nossos 
grupos, guardada pelo nosso respeito e pela sua alma, me 
fazia entender perante a desordem actual do feminismo, o 
que ahi ha de verdadeiro e de proporcionado.» 



Poetisas Portuguesas 75 



«O incanto õesta mulher está em que ella ficou a mais 
feminina ()as criaturas, õepois õa sua longa jornaõa através 
ia sciencia.» 

Do valor õe seus Versos que eu também consibero ôos 
melhores õe quantos Senhoras Portuguesas teem feito, 
ainõa é o auctor òas Canções do Sol e do Vento, quem 
õiz : 

«Se tivesse feito só estes versos — ôos mais sinceramen- 
te compostos e interessantes que mulheres portuguezas 
têm publicaõo — teria feito pouco. A vulgariòaôe Òas li- 
sonjas não é para aqui, Elias seriam bem mesquinhas para 
a mulher gloriosa que uma faculbaôe òe meõicina, violen- 
tando os preconceitos terríveis õe uma escola e õe um país, 
pretenõeu unanimemente contar entre os seus membros.» 

A Acaõemia õe Sciencias õe Portugal, que ha pouco aca- 
ba Õe comemorar o seu primeiro decenario, honrou-se, ins- 
crevendo no numero õe seus sócios, a Doutora D. Domi- 
tilla õe Carvalho. 

Esta Senhora foi õirectora õo liceu feminino D. Maria 
Pia, cargo que õeixou a seu peõiõo, para simplesmente 
nele exercer o Õe professora. 

D. Domitilla õe Carvalho trabalha, actualmente, num ou- 
tro livro õe versos, certamente um novo primor literário, _ 

PORQUÊ? 

Já que os nossos Õestinos são õiversos 
E vae finõar a luz que me alumia. 
Quero õizer-te em meus sentiõos versos 
Aquillo que fallanõo não õiria. 

Has õe saber emfim quanta agonia, 
Quanta amargura e quantos ais õispersos 
Se traõuzem em toõos os meus versos — 
Se os teus olhos os lerem algum õia . . . 



76 Poetisas Portuguesas 



Como é que senõo tu melhor que um santo, 
TenÕo um conforto a òar a toõo o pranto, 
Tenôo sempre um allivio para a õor, 

Como é que n'est^ magoa õoloriòa, 
Senòo tu, como és, a minha viòa, 
Assim me õás a morte, meu amor? 

Domitilla õe Carvalho. Verbos, Coimbra, 1909, pag. 105 e 
106. 



FLOR QUE MORRE 

No hospital 

E' linòa como os anjos. Na pureza 

Do seu olhar macio, avelluôaõo 

Ha sempre a mesma febre e a mesma reza 

Que o meu peito recolhe apieòaòo. 

Com gesto òe quem peòe e essa tristesa 
De quem presente o fim amarguráõo. 
Ergue as mãos pequeninas òe princeza 
E sorri para toòos com agráõo. 

Com aquella iòeal resignação 

E a mesma fé em Deus nosso Senhor, 

Ha Òois annos que a vejo Doentinha. 

Quanôo presa õe immensa compaixão 

Do seu leito me acerco : <— Está melhor?» 

Ella responõe sempre «— Melhorsinha. . .» 

Domitilla òe Carvalho. Versos, Coimbra, 1909, pag. 39 e 
40. 



Poetisas Portuguesas 77 



ORPHAS 

Vi-as passar, as meigas criancinhas, 
Vestes ôe luto em almas õe açucenas. 
E sorriam ! Também as avesinhas 
Vão levanõo a cantar as suas penas. 

Sorriam, sim, contentes, a brincar 
Lá iam, como as aves pelo ceu 
Alegremente em banôo, a chilrear. . . 
Mas õe vê-las sorrir, chorava eu ! 

Domitilla õe Carvalho. Versos, pag. 47. 



MINHA SINA 

AnÕei por largo tempo a imaginar 
A Suprema alegria Õe te ver ! 
Tanto cuiõaõo puz em te guarõar 
E só te encontro para te perõer ! 

Seguia-te õe longe. Era um prazer, 
Um casto bem p'ra mim o recorõar 
Essa altivez õe porte singular 
Na esperança Õe um õia te merecer. 

Tinha-te sempre a ti no pensamento. 
Só a tua lembrança õava alento 
A' õesolaõa viõa que me arrasta ! 

Bem sei que não tens culpa, é minha sina. 
Vae atraz õ'essa luz que te fascina 
Sê feliz, meu amor, isso me basta ! 

Domitilla õe Carvalho. Versos, pag. 83 e 84. 



J78 Poetisas Portuguesas 



POBRE MORTA 

I 

Entrou na viòa agreste e acciòentaòa 
— Revolto mar òe lutas inconstantes — 
Sem ter alguém, a pobre abanòonaòa, 
Que lhe guiasse os passos vacillantes. 

Sem um raio òe luz n'esta jornada, 
Nem uns laços Òe amor cariciantes 
Que a prenõessem á viôa n'uns instantes, 
Por vezes quiz matar-se a Desgraçada ! 

Mas hoje, quanòo a morte percorria 
O seu corpo òe cera emagreciòo, 
Quanòo em gelos òe toòo arrefecia, 

Ella ergueu para mim os olhos baços 
E sem força na voz, ôiz num gemiòo : 
«Não me òeixe morrer, òê-me os seus braços ! 

II 

Vi- a ôepois, a pobresinha, fria, 
Sobre a mesa òe peòra revoltante 
Em que o ouro escalpelo principia 
A òissecar, num gesto torturante 

E ella que em viòa tanto horror sentia 
Pelo theatro, pobre morta errante, 
Do repouso òo tumulo òistante, 
Resignaòa parece que sorria- . . 

Não me poòe esquecer a immensa Òôr, 
Um mixto òe pieòaõe e òe terror, 
Que senti ao fitá-la com esforço : 



Poetisas Portuguesas 79 

Lábio roxo, cabello òesgrenhaôo, 

Mas sobretudo o olhar ! o olhar paraôo, 

Tenho- o cravaõo em mim, como um remorso. 

Domililla ôe Carvalho, Versos, pag. 41 a 44. 



D. MARIA DE CARVALHO 

D. Maria õe Carvalho — a ilustre Poetisa que tanto honra 
as Letras Portuguesas — nasceu na Chamusca. 

Os três sonetos : No Minho, O Lampeão e o Velhinho, 
que figuram nesta Antologia, foram pela primeira vez pu- 
blicados, ha muitos anos, nas Novidades que Òeles õisse : 

«Cae-nos na nossa banca be trabalho estes sonetos. Não 
sabemos quem seja o auctor. Mas seja quem íôr, publica- 
mo-los por sentirmos que vamos õar a lume qualquer coi- 
sa que ha-õe ficar na lingua portuguesa.» 

Estas proôucções que tantos elogios mereceram, foram 
«nviaõas para o citaôo jornal, contra vontaôe òe sua au- 
ctora, que, singelamente, as assignou com as iniciaes õo 
seu nome e apeliõo. 

Poucos òias õepois õe publicados (ViÔe o artigo de Joa- 
quim Leitão, na Liberdade)^ D. João da Camará dizia numa 
das suas crónicas Õo Occidente : 

«Dei estes três sonetos para ensaio de dicção ás minhas 
alunas do Conservatório, e disse-lhes : Decorem-nos por- 
que de facto decoram três sonetos que ficam na historia da 
literatura portuguesa». 

Em 1915, D. Maria de Carvalho publicou um interessante 
livrinho As Sete Palavras, ao qual a critica fez justas e 
merecidas referencias. 

Em 1916, apareceu o seu segundo livro de versos. Sone- 
tos, volume que contem verdadeiras jóias poéticas, como 
os leitores, pelas numerosas citações que faço, poderão 
avaliar. 



! 



80 Poetisas Porluguem^^ 



NO MOINHO 

Ha na várzea um moinho que, isolado, 
Traballia alegre para toòa a gente, 
Aproveitando as aguas ôa torrente 
Que espuma nos açuôes. Levantado 

Sobre a verdura rústica do prado, 
Que o sol inunda, preguiçosamente, 
Ergue a risonha e pittoresca frente. 
Esse moinho branco, enfarinhado. 

Arrulham pombos no beiral vermelho 
Do seu telhado, e ladrão cão, já velho, 
Aos camponios, que passam no caminho . 

Quem me dera que tu . fosses moleiro ! 
E eu te pudesse ter por companheiro, 
Na doce e branca paz d'esse moinho. 

Maria de Carvalho. Sonetos, Lisboa 1916, pag. 43. 



O LAMPEAO 

Na moribunda luz bruxoleante 
D'aquelle pobre lampeão de rua, 
Triste, isolado, na parede nua, 
Achei um não sei quê, vago e tocante. 

Mais triste ainda sob o alvor da lua . 
E puz-me a comparalo, n'esse instante, 
A' saudade confusa e palpitante, 
Que sempre em nós symbólica fluctua. 

Pois se tivesse olhar o sentimento, 
Que nos faz acudir ao pensamento 
A lembrança do tempo já passado, 



Poetisas Portuguesas 81 

Devia ser assim — olhar sem viõa — 
Como a luz fraca, trémula, penôiõa, 
Do pobre lampeão quasi apagaôo. 

Maria òe Carvalho. Sonetos, pag. 9. 



VELHINHO 

Muito velho, asseaôo e pobresinho, 
Peòe-me sempre esmola ás terças feiras 
Eu chamo- lhe, sorrinôo, o meu velhinho, 
E converso com elle horas inteiras. 

Falla-me ò'um fiõalgo, seu paôrinho, 
Que lhe õeu um casal e algumas leiras ; 
Antes õe empobrecer teve um moinho 
E milho loiro, aos montes, pelas eiras. 

E estas longas historias alõeãs, 
Tão humilòes, tão rústicas e sãs, 
]á eu sei como o velho as principia : 

— «Quanòo eu era rapaz. •» e ao terminar 
E' certo ouvil-o sempre confirmar : 
E' como ôigo a vossa senhoria.» 

Maria òe Carvalho. Sonetos, pag. 37. 



ESQUECIMENTO . 

Ao ver o mal por toõos aõmittiôo, 
Como regra a que a viòa está sujeita — 
Ao trocar a illusão pela suspeita. 
Quem poôerá negar haver sofriôo ? 



82 Poetisas Portuguesas 

Depois, no coração fortaieciòo 

Vae-se fazenõo a paz, quanõo se acceita 

A crua viòa assim, tal como é feita 

No munôo, sempre egoísta e corrompido. 

Mas õe tuòo o que aõmitto, soffro e vejo, 
— Tão contrario ao que sinto e ao que Õesejo 
O que mais me perturba e me entristece, 

O que afinal impéõe que eu me illuõa, 
E' a maneira auôaz por que se muòa, 
E a fácil rapiõez com que se esquece. 

Maria õe Carvalho. Sonetos, pag. 17. 



VIDAS 

Algumas viòas ha em que parece 
Pesar não sei que estranha malòição ; 
Ha viõas, em que a òôr nunca se esquece 
De esmagar lentamente o coração. 

Dias e ôias, em que se envilhece 
Como se fossem annos òe afflição ; 
Horas e horas, em que se apetece 
O gelaòo repouso ò'um caixão. 

E julga sempre o munbo que avalia 
As razões òe tristeza ou òe alegria, 
Que tenta òescobrir em caõa viòa 

E fala sem receio òe enganar- se !. . . 
Como se a òôr puòesse avaliar-se, 
Fora òo coração em que é sentiòa ! 

Maria òe Carvalho. Sonetos, pag. 35. 



Poetisas Portuguesas 83 



IV 

Soffre-se tanto pela viõa fora, 
Que o desalento õeve perõoar-se. 
Saber luctar, viver e conformar-se, 
E' ôifficil missão para quem chora. 

O rapiôo heroísmo õ'uma hora 
Poucas vezes consegue sustentar- se, 
E' um sublime, um canòiòo Disfarce 
Da fraqueza mortal que nos õevora, 

O próprio Christo, sobre a Cruz exangue, 
- O corpo esbelto gottejanòo sangue. 
Jóias vermelhas n'um sagrado engaste. . 

Teve um momento òe tamanha magua 

Que soluçou, — os olhos rasos õe agua : 

— Meu Deus ! meu Deus ! porque me abandonastes ? 

Maria ôe Carvalho. .15 Sete Palavras, Lisboa, 1915, pa^. 21. 



D. MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO 

D. Maria Araalia Vaz òe Carvalho, a ôistinctissima Es- 
riptora e Poetisa, ôe que neste momento me ocupo, nas- 
eu na ciòaõe ôo Porto, segunôo afirma o Diccionario Fra- 
co Jllustrado òe Jayme Seguier e em Pintéus, segundo 
jsevera o Diccionario Portugal 

Sua Excellencia é filha ôe D. Christina òe Almeiõa e Al- 
iquerque, senhora assas inteligente e culta, e ôe José Vaz 

í Carvalho, inòiviòualiõaòe não menos ôistincta. 

A minha aòmiração pelo talento e vastíssimos conheci- 
-sntos que possue D. Maria Amália Vaz òe Carvalho, é 



84 Poetisas Poríuguef^as 

tanto maior, quanto é certo que á notável escriptora, af 
ma o Sr. Christovam Aires, no Boletim da II classe da Ai. 
demia de Scicncias de Lisboa — «naõa foi ensinaõo.> «F; 
taram-lhe aquelles mestres, tantas vezes atrofiantes e esl 
rilisaôores, que toòos nós guarõamos entre as recoròaçõ 
õa nossa infância.» 

Foi auxiliada pela sua granòe inteligência e proõigio 
memoria, lenõo, lenõo imenso, analisando, raciocinanõc 
fixanõo, que D. Maria Vaz òe Carvalho se transformou 
apreciaòissima e notável historiadora, jornalista, peõago 
e moralista, que nacionaes e estrangeiros admiram e v 
neram. 

São de D Maria 0'Neill, as palavras que transcrevo, 
um seu folheto intitulado Uma Satisfação á Ex.'"^ Sr.* 
Maria Amália Vízf de Carvalho (Lisboa, 1911): 

<0 seu olhar de águia, penetrante e fino, educado p 
ella na constante observação dos homens e das cous; 
abrange n'um relance os mais complicados problemas ps 
cologicos e especulativos, mas longe de se irritar e romp 
em justificada diatribe contra os erros e fraquezas da h 
manidade, o sorriso benévolo que lhe enfeita os lábios ô 
monstra que a experiência adquirida não lhe tornou seve 
o juizo, nem duro o coração, como quasi sempre succeò( 

A mocidade de D. Maria Amália Vaz de Carvalho foi pa 
sada no velho solar de Pintéus, que, a breve trecho, se co 
verteu num centro intelectual, onde homens de nome n 
letras (isto succedia ainda no período romântico), iam prt 
tar a sua homenagem de admiração e respeito a D, Ma 
Amália Vaz de Carvalho, a juvenil Poetisa que aos de^ 
nove anos de idade, escreveu o seu primeiro livro, U' 
Primavera de Mulher, obra que para a Literatura Por 
guesa foi logo mais que uma esperança. Foi ahi em | 
teus, que Gonçalves Crespo, o mimoso e admirável p<i 
das Miniaturas, e dos Nocturnos conheceu D. Maria Arai 
Vaz de Carvalho com quem anos depois, se consorcio^. 

Do valor dos trabalhos literários de D. Maria Amaliai 



Poetisas Portuguesas 85 

òe Carvalho, escriptos tcõos numa linguagem sã, clara, ver- 
nácula, bela e profunôa ou simples, consoante o assumpto 
ôe que trata, e a òespeito Òe, ha muito, ter o seu nome con- 
sagrado esta ilustre e notável Escriptora que é a auctora õa 
obra mais vasta e mais valiosa que Senhoras Portuguesas 
se poôerão orgulhar õe ter proòuziòo, fala a honrosa ex- 
cepção que a Academia de Siencias de Lisboa, em sessão 
ôa 11 classe, e por proposta ôe Henrique Lopes õe Men- 
donça, abriu, elegenòo D. Maria Amália ôe Carvalho, para 
o seu grémio, ôisíinção esta só conceõiõa, em Portugal, a 
esta Senhora e a D. Carolina Michaelis ôe Vasconcelos. 
- E' bem proveitoso, para quem com consciência queira 
apreciar as proôuções literárias ôe D. Maria Amália Vaz ôe 
Carvalho, ler o parecer que, sobre a sua canôiôatura, foi ela- 
boraôo por Teixeira ôe Queiroz, e assignaôo por : 

Raymunôo A. ôe Bulhão Pato, Júlio M. ôe Vilhena, ]osé 
Ramos Coelho, José Leite ôe Vasconcellos, Henrique Lo- 
jies ôe MenÔonça, J. FernanÔes Costa, Jaime Moniz, Joa- 
'3uim Coelho ôe Carvalho, Gama Barros, Aniceto ôos Reis 
jonçalves Viana, António Canôiôo, Teófilo Braga, Christo- 
;'am Aires e Francisco Teixeira ôe Queiroz, (relator). 
[. Este parecer que figura a pag. 484 a 493 ôo citaôo Bole- 
tim, baseia-se, principalmente, no importante estuôo histo- 
.ico ôesta Escriptora, O Duque de Palmela, obra em 3vo- 
ames. Como se os Acaôemicos que firmam a proposta e 
íarecer referiôos, não fossem só por si, bastante garantia 
;o mérito Ôe D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho, que no ci- 
[lÔo Boletim apresenta um interessante estuôo histórico, 
leòito até então, intitulado, A Murque:^a de Alorna — A 
Kiedade e a literatura do seu tempo, trabalho que não che- 
3u a concluir, ainôa se lêem no mesmo Boletim, aprecia- 
res feitas pelo Sr. Conôe Ôe Sabugosa, Santo Thirso, Hen- 
que Lopes ôe Mendonça, etc. 

Não obstante só em 1912, A Acaôemia ter aberto as suas 
irtas a D. Maria Amália Vaz ôe Carvalho, (visto precon- 
|itos ôe varia natureza e entre eles a infração ôos Esta- 



86 Poetisas Por/nr/nasa,^ 

tutos o não terem permitiòo fazer antes), já D. Luiz I ma- 
nifestara vontaòe Òe ver esta Senhora eleita para essa õouta 
Corporação, como no seu belo livro Gente d' Algo, afirma o 
Sr. Conõe òe Sabugosa, um òos frequentaõores òos salões 
òe SM Catharina, onòe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho 
tem reuniòo tuòo quanto ha òe mais selecto nas letras por- 
tuguezas. 

Sob qualquer aspecto que possa ser encaraòa, a perso- 
naliòaòe òe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho é notável. 
E', ainòa, o Sr. Cristovam Aires que escreve : 
<E nem por isso Maria Amália òeixou nunca òe ser í 
mais simples a mais bonòosa a mais singela, a mais òoce 
entre as mulheres portuguesas.» 

«Nos seus belos olhos luminosos, muitas vezes o fulgoi 
òo génio é embaciaòo pelas lagrimas que a òôr humana 
nas suas ramificações infinitas lhe vae levar a caôa passo 
tão intensa é a comunhão òa sua alma com o sofrimentc 
òos humilòes, òos òesòitosos. òos pequeninos.> 

«Quem um òia sentiu a Òore caricia òa sua voz- quen 
viu òe perto em toòa a sua soberania, a bonòaòe inegua 
lavei Òa sua alma, fica preso para sempre, mais òo que ac 
seu talento e ao seu saber, a quanto tem òe infinitamenti 
santo, simples e òoce essa fulgurante e rara encarnação ò< 
òp Mulher.» (Pag. V òo citaòo Boletim). 

Para concluir estes ligeiros òaòos biographicos, resta-mi 
apresentar a nota òos numerosíssimos e valiosos trabalho 
òe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho, que outr'ora firmot 
vários folhetins publicaòos em jornaes, sob o pseuòoninK 
òe Valentina de Lucena : 

Uma Primavera de Mulher (poema), 1867, Vo^es do Erm 
(versos), 1876, Mulheres e Creanças (notas sobre eòucação] 
1880-87, Contos e Fantasias, 1880, Contos para nossos filho 
(òe colaboração com seu mariòo, Gonçalves Crespo), 8 eôi 
ções. Arabescos, 1880, Urn como, 1885, Cartas a Luija (Mo 
ral, eòucação e costumes), 1886, Alguns homens do meu tem 
fo (impressões literárias), 1889 As Crónicas de Valentinc 



Poetisas Portuguesag 87 



1890, Cartas a uma Noiva, Pelo mundo fora, 1896, Arte de 
viver na sociedade ou manual da vida elegante, 4 eòições, 
Vida do Duque de Palmela, 3 volumes 1898-904, Em Portu- 
s^al e no esírangeiro (ensaios críticos), 1899, Figuras de hon- 
tem e de hoji', 1902, Cérebros e corações, 1903, 4s nossas filhas 
(carta ás mães), 2 eòições 1905-906. Ao correr do tempo, 1906, 
No meu cantinho (Homem, factos, ideias), 1909, Duquesa de 
Palmela (In Memoriam), 1910, Impressões de Historia, 1911, 
Cousas de Agora, 1913. 

Jornaes em que sua Ex.^ colaborou : 

Jornal do Comercio, ôo Rio òe janeiro, em que escreve 
ha 34 anos. Diário Popular, Jornal do Comercio, Repórter, 
(i4rtes e letras (jornaes ôe Lisboa), Actualidade, Porto, Co- 
mercio do Porto, Pai^ (Rio òe Janeiro), etc. 

Depois òe ter manòaòo o original para a imprensa, soube 
por pessoa òa família Òe D. Maria Amália Vaz òe Carvalho, 
que esta Senhora nasceu em Lisboa, na. Rua Òos Poyaes 
òe S. Bento. 

A ANDORINHA 
D'onòe partiste, anòorínha, 
minha alaòa forasteira, 
que á terra òa larangeira 
vens peòir luz e calor? 
D'este clima abençoaòo, 
chamou-te ao longe o carinho? 
terás so> sobre o teu ninho, 
e lá òentro muito amor 1 

Aqui onòe a primavera, 

se enfeita òe róseo manto ; 

onòe òas aves o canto 

verte harmonias sem par ; 

onòe á noite se estrelleja 

e palpita o ceu profunòo, 

e áureas visões Òe além-munòo, 

brincam nas onòas òo mar ; 



88 Poetisas Portuguesas 

aqui onôe em caòa flôr, 

treme vivo e scintillante 

um prismático Diamante, 

que a aurora chorou ôos céus ; 

onôe tuôo se illumina 

òe mil ignotos fulgores ; 

onôe pululam amores, 

sob o amante olhar õe Deus; 

onôe exhala. acres effiuvios 
a rama ôos loureiraes, 
e se une á flor ôos myrtaes 
ôa vinha o verôe festão ; 
aqui não terás sauôaôes 
n'este ceu que a luz esmalta, 
nem ôos terraços òe Malta 
nem õas brisas ôe Ceilão. 

Vens talvez ôa velha Athenas 
onôe em ruínas marmóreas 
viste esculpiôas historias, 
que não sabes ôecifrar ? 
Deixaste acaso o teu ninho 
entre os mysterios òo Egypto, 
e a uma esphinge ôe granito, 
peôiste para o guarôar ? 

Viste os brancos minaretes ? 
viste as cúpulas reôcnôas? 
e as verões profunôas onôas, 
e os floriõos arrozaes ? 
Conta-me as tuas viacens, 
filha ôa luz e ôa aurora 
que vens ôescançar agora 
á sombra ôós laranjaes! 

Maria Amália Vaz ôe Carvalho. Fofes do Ermo, 1876, pag. 
lli a 113. 

M 



Poetisas Portuguesas ' 89 



D. JOANA DE CASLELBRANCO 

D. Joana õe Castelbranco que pertence á família Velosa 
Ôe Castelbranco, nasceu na Ilha òa Maõeira, freguezia ôo 
Fayal, onôe passou a sua infância e juventude. 

Desõe bem nova, que D. ]oana õe Castelbranco verseja. 

Apesar õ'isso, só em 1908 publicou em Lisboa o seu 1." 
livro òe versos, As minhas flores. 

Posteriormente, reuniu esta Senhora, em volume, sob o 
titulo ôe Fluctuaçôes, algumas õas suas poesias. 

Tem coiaboraôo em vários almanachs e jornaes. 



TRISTEZA 

Sou como a flor já mirraòa 
aos raios õo estio arôente ; 
sou como a onõa fermente, 
gemenõo alem sem guariòa ; 
Sou como a folha òo outomno, 
que morta no chão existe, 
sou como a lagrima triste 
òo coração òesprenòiõa. 

Sou como a nuvem que passa 
tolòanõo o ceu tão formoso ; 
sou como o ai pieõoso 
que foge ao seio õescrente. 
Sou como a noite gelaòa 
em negro manto envolviòa, 
sou como folha cahiõa 
levaòa pela corrente. 

Minha alma é muòa e sombria 
como o jazigo òa morte. 
Lucto e pranto é minha sorte 
no albor òo meu viver. 



90 loetisas Portuguesas 

Sinto empanar os meus gosos 
nuvens òe õor e tristeza ! 
Correr após a incerteza . . . 
luctar sempre. . . e só morrer ! 

Joanna Õe Castelbranco. ^5 Minhas Flores, Lisboa 1908» 
pag. 14. • 



D. CAROLINA DA V. CASTELLO BRANCO 

D. Carolina òa V. Castello Branco foi uma õas senhoras 
que colaborou na Miscelânea Poética, jornal ôe Poesias pu- 
blicadas Òesõe Julho Ôe 1851 a Agosto õe 1853 (2.^ Colec- 
ção), Porto 1852, 

No citaõo jornal, figuram versos òe : D. Ana Amália Õe 
Sá, D. Antónia Gertuões Pusich, D. Maria Feliciõaõe òo 
Couto. Brown {Soror Dolores), D. Maria Peregrina õe Sou- 
za, A. C. Louzaõa, António Feliciano õe Castilho, AugustaJ 
Luso, A. Lima, A. P. Calõas, Augusto Pereira Soromenho,| 
Faustino Xavier õe Novaes, D. João õe Azeveõo, João Õ€ 
Lemos, J. Freire ôe Serpa Pimentel, Nogueira Lima, Pe- 
reira õa Cunha, Camillo Castello Branco, etc, etc. 

A pag, 201 ôa mencionaõa Miscelânea Poética, ha umaf 
poesia ôe Camillo, intitulaõa Meditação, Ôeôicaôa a sua ir- ' 
mã, Carolina Castello Branco, 

A pag. 73 õo referiõo jornal, encontrei a poesia que transa 
crevo e que é firmaõa por Carolina õa V. Castello Branco. 

HavenÔo, na familia õe Camillo, o apeliõo Veiga, (o gran» 
Õe romancista teve uma tia chamaõa D, Rita Emilia õa Veiga 
Castello Branco), será a irmã de Camillo, a senhora a quem 
me refiro ? Esse da V. corresponderá a da Veiga f Será umt 
mera coincidência o facto que aponto ? 

Não tenho elementos para esclarecer este interessante 
caso que em pouco se cifra. 

Para o resolver, porém, parece-me que bastava saber: 



Poetisas Portuguesas 91 

» 
primeiro : se a irmã òe Camillo, D. Carolina Castello Branco 

que, Ôepois õe se casar com o meõico Francisco José õe 
Azevedo, passou a assignar-se D. Carolina ô'Azeveòo Cas- 
tello Branco (Romance do Romancista, pelo Sr. Alberto Pi- 
mentel, pag. 37), alguma vez usou o apelido Veiga; segunõo : 
se fez versos. 

Quanto a esta ultima parte, parente próximo Òe Camillo, 
informou-me que D. Carolina, não foi poetisa. 

Tenõo recorrido a uma outra fonte segura e ò'auctori- 
saõa opinião sobre assumptos Camillianos, naòa consegui 
apurar. 

Aqui fica posto o problema, para quem, com mais tempo 
e elementos õo que tenho e disponho, o queira solucionar. 

Se esta Poetisa tiver sido a irmã de Camillo, grande se- 
rá a minha satisfação, por ter provocado o conhecimento 
desse facto. Se tal se não der, registada fica a coincidência 
que leva ás duvidas que apresento. 

SCISMAVA 

Passo aqui tardes, sósinha, 
Nestes prados verdejantes 

A scismar : 
N'alma sinto as fundas maguas. 
Ao murmúrio d'estas aguas 

Murmurar. 

Quando assim me vejo triste 
D'um penar d'intima pena ■ 

Choro então ; 
Que eu não amo a natureza 

Na solidão. 

Amo-a sim, embalsamada 
Nos perfumes que lhe aspira 
A alma em paz ; 



92 Poetisas Portuguesas 



Mas se a Õor punge òe aguõa 
A natureza também muòa 
Não me apraz 

Sei que a õor tem ôesafogo 
No alaúôe, terno amigo 

Tam fiel. 
Faço trovas, mas as trovas 
São amargas, ouras provas 

De agro fel ! 

Carolina òa V. Casteilo Branco. Miscellanea poética, 2. 
collecção, Porto, 1852. pag. 73. 



D. CATHARINA MÁXIMA DE FIGUEIREDO 
ABREU CASTELLO BRANCO 

D. Catharina Máxima òe Figueiredo Abreu Casteilo Bran- 
co nasceu em Guiães (pequena alôeia õo õistricto òe Vila 
Real), cognominada a Cintra Transmontana. 

Esta Senhora tem uma ascendência muito ilustre, como 
se lê no livro Os Estrangeiros no Lima, obra rara e curio- 
sissima òe que é auctor Manoel Gomes òe Lima Bezerra, 
e que foi publicada em Coimbra em MDCCLXXXV. 

No mencionado livro, diz-se que os •< Abreus são Òas fa- 
milias mais antigas e ilustres òo Reino.> «Segundo alguns 
auctores, provem da Casa Real de França pela linha e va- 
ronia òe Filippe e Carlos, Conòe òe Evreux.> 

Nesta familia, tem havido, segunôo menciona o referido 
volume, muitos eruditos, preòestinaòos, heroes e santos. 

Assim, citarei, por exemplo, os nomes òe Frei Manoel do 
Cenáculo, arcebispo de Évora ; D. Luiz Álvaro de Figuei- 
redo, arcebispo da Bahia ; Bernardo d'Abreu Casteilo Bran« 
CO, desembargador muito culto. 



Poetisas Portuguesas 93 



Apezar õe D. Catharina Máxima Ôe Figueiredo Feio só 
se õeõicar á literatura, nos poucos momentos que as suas 
ocupações caseiras lhe òeixavam livres, foi uma poetisa 
Òistincta. 

O que acabo ôe escrever, faz-me pensar quantas Sevi- 
gnès e Georges Sano Portuga! poderia contar, se o nosso 
meio fosse propicio á revelação e òesenvolvimento õe mui- 
tos talentos e vocações que, por certo, se teem õefinhaõo 
e peròiòo ! 

Aos õezaseis anos publicou esta Senhora o seu primeiro 
volume òe versos, inMtulaòo Poesias. 

E' também auctora ôe um romance. Amor de Mãe, pubti- 
cabo em folhetins, e ôe mais ôois volumes cujos titulos são : 
Fragmentos de Prosa e Verso e A Ultima Estancia, livro 
qué foi prefaciaôo por Xavier RoÔrigues Corôeiro, o notá- 
vel poeta, auctor ôo Tasso e ôa Doida de Albano. 

O fragmento òa poesia, O Firmamento, que reproôuzo, é 
extractaôo oeste livro. Na opinião ôe um ôos nossos ho- 
mens ôe letras mais notáveis, poôe esta composição poé- 
tica figurar a par Ôa ôe igual titulo, ôe Soares Ôe Passos. 

Tenôo siôo Soares ôe Passos acusaôo ôe plagiário, Theo- 
philo Braga provou na Revista Literária e Scientifica, ôe 
O Século ôe ôezembro ôe 1904, que a poesia Firmamento 
foi feita pelo auctor ôo Noivado do Sepulchro e não por 
Lourenço ôe Almeiôa e Meôeiros. 

O FIRMAMENTO 

E' noute ! • • sobre o munôo aôormeciôo, 
Fulge tranquillo o céo, profunôo e bello ! 
Eis a extensão immensa. . inôefeniôo 
Abysmo. • . ôe razão constante anhelo ! 

Seus limites quaes são ? Onôe termina 
Esta série ôe estreitas rutillaníes?. - . 
Nos paramos ô'um Deus ; mansão ôivlna, 
Povoaôa ôe aéreos habitantes ? 



94 Poetisas Portuguesas 

São munôos ; õa attracção no eterno laço 
Sustidos pelo impulso que não cança ; 
Giranôo sem ôestino n'esse espaço, 
Que o espirito nosso não alcança?. . . 

Mas tantos, tantos munôos ? ! Esta iòeia 
Que esmaga o pensamento e a voz tem presa, 
Mais nos oífusca a luz, porque a alma anceia. 
Deixanõo-nos no vago a incerteza. 

Que tormento, meu Deus! Não ser possível 
Haver õa gloria vossa a comprehensão ! ? 
Ser tuòo a tantos olhos o invisível, 
O vácuo òa insonõave! confusão ! ? 

Catharina Máxima òe Figueiredo Feio. A Ultima Estancia, 
Porto, pag. 17. 



COMPREHENDES? 

Sabes porque no valle os brancos lirios choram 
Quanôo o fogo õo sol lhes não bafeja a tez ? . . 
Vês a rola sentiòa, entre as selvas que enfloram, 
Gemer õo seu amor a longa viuvez ?. • . 

Busca em a natureza a õefinição recta 

Oos mysterios õa viõa ; o fim, a aspiração ; 

E se póões após õiz se n'alma õiscreta 

Entram õo seu segreõo a justa comprehensão ? „. 

Catharina Máxima õe Figueireõo Feio. A Ultima Estancia, 
Porto, pag. 52. 



^ 

4 



Poetisas Portuguesas 95 



D. FLORA CASTELLO BRANCO 

D. Flora Castello Branco é filha õe D. Anna Rosa Cor- 
rêa e ôo Visconòe ôe São Miguel õe Seiõe — Nuno Cas- 
tello Branco — falecido em 23-1-1896. • 
. Neta mais velha õe Camillo Castello Branco e Õe D. An- 
na Placiôo, D. Flora Castello Branco que resiõiu, Õurante 
muito tempo em São Miguel õe Seiõe, era irmã õe Camillo, 
Nuno Placiõo", Rachel, Simão, Manoel e Estella ôe São Mi- 
guel õe Seiõe Castello Branco, 

E' para lastima*r que os versos õesta Poetisa que chega- 
ram a ser compilaõos pelo õistincto e infatigável Camillia- 
nisía sr. Alberto Pimentel, não tenham siõo publicaôos em 
volume, até hoje. 

MEU VIVER 

Ai ! como é triste o viver 
De quem se sente captiva 
Como uma pomba feriõa 
Que na prisão vae morrer. 

D'antes eu ia contente 
Colher boninas õa aurora 
Por esses praõoá em fora 
Banhaõos Õo sol poente, 

Guiava- me a liberõaõe, 
BuscanÕo fructas e flores ; 
Não tinha meu peito amores, 
Desconhecia a Sauôaõe ! . . 



Erguia os olhos aos Céos, 
Enlevaõa, mas um õia 
Levou-me toõa a alegria 
Aquelle supremo Aõeus ! 



96 Poetisas Porcur/i^'-'"^ 

Ai ! como é triste o viver 
De quem se sente captiva 
Como uma pomba feriòa 
Que na prisão vae morrer ! . . . 

Flora Castello Branco. Occidente, n." 1006 õe 10-12-1906, 
pag. 267. 



M1NH'ALMA 

Chora, alma, que no pranto 
Da espr'ança meõra a flor ; 
Tem coragem, sae ovante 
D'esta mais que humana õor ! . 

Vejo alem òe amargos õias 
Aurora santa raiar ; 
Espera, alma, não chores. 
Que a ventura ha õe tornar ! 

Flora õe Castello Branco. Occidente, n." 1004 Õe 20-1 1 - 1< 
pag. 250. 



D. LEONOR DE FIGUEIREDO ABREU 
CASTELLO BRANCO 

D. Leonor õe Figueireõo Abreu Castello Branco, nasc€ 
em Guiães. 

Era filha õe D. Genoveva Moreira õe Azeveõo e õe ]os4 
Maria õe Figueireõo Abreu Castello Branco e irmã õe D. 
Catharina Máxima õe Abreu Castello Branco, poetisa a què; 
se refere esta Anthologia, e tia Õa õistincta poetisa e es* 
criptora õe quem também se occupa este trabalho, D. Ma-.: 
ria Feio (D. Maria Figueireõo Feio Rebello Castello Branco)/ 

Parte õas poesias Õesta Senhora que õescenõe õe pes* 



Poetisas Portuguesas 97 

soas illuslres, e que suponho ser aparentada com Camillo 
Castello Branco, quanòo mais não seja, por parte ôo Dr. 
Francisco Correia Botelho, conservador em Vila Real (con- 
clusão a que teria o maior empenho em chegar, se as mi- 
nhas inúmeras e opostas ocupações, me não deixassem uma 
parcela minima õe tempo, para tratar ò'assumptos literá- 
rios), foi publicado em diversos jornaes e almanachs, pos- 
suindo sua sobrinha o manuscripto com as melhores pro- 
ôucções poéticas, de D. Leonor de Figueiredo Abreu Cas- 
tello Branco, as quaes um dia o publico terá ocasião de 
aoreciar. 

LAURA 

Deitada á beira do abysmo 

Coitadinha, adormeceu. 

Por cama tinha uma pedra, 

Por docel o azul do ceu ; 

Somente por cabeceira : 
I' Uns cabellos annelados 

\ Côr da flor da canelleira, 

Quasi nua, n'uns trapinhos 
Parte do corpo envolvido, 
Banhado o rosto de cera 
Talvez do pranto vertido. 
Mas que farta cabeceira 
Eram seus bastos cabellos 
Côr da flor da canelleira. 

Pendido um braço no abysmo, 
O outro sobre um rochedo, 
Assim dormia serena 
A creancinha sem medo ; 
Só tendo por cabeceira 
Uns cabellos annelados 
Côr da flor da canelleira. 

eonor de Figueiredo Abreu Castello Branco. 



98 Poetisas Portuguesas 

D. MARIA FIGUEIREDO FEIO REBELLO 
CASTELLO BRANCO 

(d. MARIA feio) 

D. Maria Figueireòo Feio Rebello Castello Branco nasceu 
em Guiães, alôeia Irasmontana. 

E' filha õe D. Catharina Máxima Õe Figueiredo Abreu 
Castello Branco, poetisa õe talento, e ôe Sebastião Pereira 
Rebello Feio que era ôotaôo õe uma bonõaõe invulgar. 

Os primeiros versos õe D. Maria Feio õatam õos onze 
anos. Foram publicados no Ahnanach de Lembranças. 

Apesar õe tão precocemente ter principiaõo a revelar-si 
em D. Maria Feio a inclinação pelas letras, só muitos ano"^ 
Depois pouõe novamente entregar-se, á literatura e aos es- 
tuõos sociaes e humanitários, os quaes constituem hoí 
quasi o exclusivo fim^ôa sua viõa. 

Tenõo siõo bastante infeliz e havenõo soíriõo muito, 
Maria Feio resolveu õeõicar-se, ôe alma e coração, aos vaà 
les õe que enferma a socieõaõe, e em especial á causal 
ôignificação õa mulher, que aõvoga com são critério. 

São õe D. Maria Feio as seguintes palavras que 
ram a pag. Ill õo seu livro Alma de Mulher., publicaõo ai 
1915: 

«Que as nossas armas Õe combate sejam somente o sea 
timento que enternece, a õoçura que cativa, a graça qtt 
atrae, a bonõaõe que converte, que õomina e vence.» 

Não sei que mais aõmirar, no seu livro Calvário de Mu 
Iher, obra em que, a traços firmes, faz na parte õolorosa, 
sua autobiografia, se a linguagem imparcial õe que, sempr 
usa, se as granões conclusões que lira n'esse livro que,n 
õizer õe Magalhães Lima, é uma tese õe psicologia e Õ 
sociologia muito importante, para a obra õa civilisação. 

Tenõo liõo o Calvário de Mulher que é õeõicaõo a ]ea 
Finot e relacionatiõo iõeias, lembrei-me então õessa granZ 



Poetisas Portuguesas 99 



iveròaôe que Novicow òiz no seu livro Emancipação da Mu- 

«CaÕa talento ôe mulher que não chega ao seu pleno de- 
sabrochar é um passo a menos para a obra õa civilisação.> 

Como poòerão os talentos Desabrochar em Portugal, se 
o trabalho òas escriptoras é ainõa, em geral, peor remune- 
raõo que o õos escriptores ? ! 

D. Maria Fei escreve ha 8 anos, mas sem remuneração 
oficial ou particular ! 

Por este e outros factos, é que eu aòmiro a coragem 
ôalgumas õas nossas Intelectuaes que, sem incentivos, e 
atravez 5e mil òificuíòaões e inôiíerentismos, sulcam o re- 
volto mar õas letras. 

A obra ôesta Poetisa, poôe ser encarada, sobre diversos 
aspectos. 
Como escriptora, é auctora õe : 

Alma de Mulher, 1915, (notas Õe um õiario intimo õe re- 
; flexões; Calvário de Mulher, 1915; Ferííat/e5, (assumptos 
; sociaes e políticos) ; Corações Infantis ; Argumentos. Neste 
■ folheto, ha valiosas cartas escriptas por D. Carolina Michae- 
lis õe Vasconcellos, D. Virgínia Õe Castro e Almeiõa, Teó- 
filo Draga, Justino õe Montalvão e Sousa Costa, õirigiõas a 
esta Senhora. 
I Como jornalista, tem colaborado na Capital, Primeiro de 
Janeiro, Lucta, Comercio do Porto, Vanguarda, Novidades, 
etc, 

I Alem õe um belo livro õe versos em que trabalha e cujo 
titulo deve ser Sonho de Amor, tem para publicar as seguin- 
tes obras : 

Arte e Artistas, (apreciações sobre arte e artistas em Por- 
tugal) ; A Belesa da Mulher, (estudo sob o ponto Õe vista 
imoral); Contos Verdadeiros ; Vo^es do Coração, La':; aros 
ie Magdalenas, (estuõos sobre o efeito õa avariose). 
i Como conferencista, também é apreciável a obra õesta 
i, Senhora. 



100 Poetisas Portuguesas 

FÉ 
(inédito) 

Minha alma num anòor 5e sete estrelas, 
Subiu á torre iòeal Ôa sua Egreja. 
Talvez õa terra nenhuma alma a veja 
Mas ela vê do alto a toõas elas. 

De lá, num explenõor ôe Eucarestia, 
Como arco iris canõiôo õe abril 
Envia a chuva proõiga e subtil 
Do amor que fulge em nimbos õe poesia. 

E ás pobres almas que anõam lá na guerra 
Como anòorinhas loucas sem beiral 
Em vez òe peòir para a alma Ôa terra 

Quizera ouvir òizer em communhão 
Que lhe inspirasse a Fé no mesmo Iõeal. 
Bemõita seja a tua õevoção. 

Maria Feio. 



A CANÇÃO DO MAR 

(inédito) 

o verõe mar ôas esperanças 
O mar verõe õa sauõaôe ! 
Vai e vem e torna a vir 
Traz-me a onõa õa bonõaõe. 

Onõinas que sois o espelho 
Onõe se mira o sol-pôr 
Trazei-me Õe longes terras 
A Galera õo amor. 



Poetisas Portuguesas 101 

Galera ò'ouro e òe sonho 
Sempre a nascer e a morrer 
Como a luz õa lua cheia 
Que nasce para bem querer. 



Quem me dera no mar alto 
Anbar sempre a navegar 
Levanôo á proa os meus sonhos 
Sempre, sempre, a timonar. 

Iria aboròar õecerto 
Aquela ilha õe Amores 
Onõe a bqnõaõe poòesse 
Ser padroeira Ôe õores. 

Remae, remae, sonhos belos 
Timoneiro anòa õepressa 
Que bem poòe vir a morte 
Antes que o òia anoiteça. 

E emquanto sonhas no sonho 
De Amor e bem querer 
O mar se irá engalhanõo 
Em trovas òe aõormecer. 



Maria Feio. 



D. EMÍLIA AUGUSTA DE CASTILHO 

D. Emilia Augusta òe Castilho era filha òe Alexanòre Ma- 
gno òe Castilho, bacharel formaòo em matemática, e òe sua 
mulher senhora francesa que òesposou, quanòo emigraòo 
constitucional. 

D. Emilia Augusta òe Castilho nasceu em Lisboa, a 22 òe 
Setembro òe 1841. 



102 Poetisas Portuguesas 

Aòoraõa por seu talentoso pae, teve brilhante eòucação, 
e, ôesõe a meninice, tornou-se o encanto e aòmiração 5e 
sua familia e òos íntimos. 

Escreveu, por brincaõeira, alguns versos infantis que, por 
vezes, foram publicados no Almanach de Lembranças fun- 
Õaõo por seu pae em 1850. 

Era muito formosa, como mostra o belo retrato, a oleo, 
existente em casa õo eruòito investigador Sr. Visconde 5e 
Castilho, auctor õe varias obras ôe merecimento, entre as 
quaes mencionarei Lisboa Antiga, 8 volumes. 

D. Emilia õe Castilho foi casada com seu primo co-irmão, 
Alexandre Magno de Castilho, capitão-íenente, engenheiro 
hydrografo, sócio da Academia Real das Sciencias de Lis- 
boa, auctor de importantes obras scientificas, e filho do Dr. 
José Feliciano de Castilho Barreto de Noronha, do Conse- 
lho de Sua Magestade Fidelíssima, etc. 

Esta Senhora de cujo talento muito havia a esperar mor- 
reu na Figueira da Foz, a 20 de Maio de 1860, contando 
apenas 19 anos. Deixou uma filha que morreu sendo ainda 
criança. 

VISÃO 

Dormia ! O socego da noute reinava 

Em torno de mim ! . . . 
Somente ao Altíssimo o mar elevava 

Seu hymno sem fim I. . • 

E eu vi uma fada, tão branca, tão bela • . 

Ao leito chegar ; 
Na testa tão pura, cravada, uma estreita 

Lhe vi scintillar. . 

«f.evanta-te, disse com voz maviosa 

Levanta-te e vem ! • . » 
Ergui- me, seguí-a, sahio graciosa 

Sahi eu também. 



Poetisas Portuguesas 103 



Anòámos um pouco ; em frente a uma porta 

A faòa parou ; 
Com um volver ô'olhos que inflamma e transporta 

Que entrasse ordenou. 

Em misero leito, finava, gemia. 

Formosa mulher . . 
E não lhe acalmava mortal, agonia 

Um ente sequer ! . . 

Senti um thesouro surgir em meu peito, 

De õó e õe amor ! . ■ 
Senti svmpathia, tristeza, respeito 

Por tão viva òôr ! . - 

A faòa arrancou-me ôe scena tão triste ; 

E olhanõo p'ra mim, 
«Não é ainôa naõa o quaòro que visife, 

Ha muitos assim !» 

E fomos seguinòo mil ruas escuras 

Da lua ao alvor ; 
Mostrou-me em silencio cruéis Desventuras 

E abysmos ôe ôôr ! 

Mostrou-me choupanas, anõrajos, ôeshonra, 

Miséria, affiicção !. . - 
Velhinhos sem cama, mulheres sem honra. 

Crianças sem pão I 

Exhausta e aflicta, me afasto e pergunto 

Com trémula voz : 
<Quem sois, 5e tão raras bellezas conjuncto, 

Dizei, quem sois vós ? 

«Eu sou a Cariõaòe, me õiz ôôcemente ; 

E quiz-te mostrar 
Que inúmeras õôres, com mão provi&ente. 

Se poõem curar. 



f: 



104 Poetisas Portuguesas 

Agora que as viste, minora a sentença 

Lançaõa por Deus ! 
Do bem que fizeres terás recompensa, 

Na terra e nos ceus.> 



Sumio-se, e sosinha me achei, no meu leito ! 

Foi sonho ?. . . Oh ! que não. 
Tarefa tão santa gostosa te acceito, 

Brilhante visão ! 

Emilia Augusta ôe Castilho. Almanach das Senhoras, 1859, 
pag. 382 e 383. 



D. CACILDA PINTO COELHO DE CASTRO 

Desòe criança, D. Cacilõa ôe Castro revela gosto e pro- 
pensão pelo estuõo e pelas letras. 

Ainòa òe saias curtas — e na iôàõe em que o iôeal é 
brincar e o aprenòer uma maçada — já D. Cacilòa ôe Cas- 
tro lia e estudava, sem òescanso. 

Apesar òa sua grande aplicação ao estudo, e, talvez, por-^^ 
isso mesmo, poucos professores a satisfaziam. 

Preferia estudar sem auxilio, fa^endo-o com orientação 
própria. ,^ 

Tudo quanto sabe deve-o, pois, a si mesma e á sua inte- ,;|; 
ligencia. :í| 

Bem nova, contando apenas 15 anos de idade, publicou^ 
o seu primeiro livro Silhuetas, volume de contos que se^ 
acha exgotado e que a critica recebeu com louvores e jus- 
tiça. 

Sempre alheada da politica, D. Cacilda de Castro tem es- 
cripto e colaborado em quasi todos os jornaes, revistas e^ 
almanachs que se tem publicado em Porti^al, desde 09| 



Poetisas Portuguesas 105 

mais obscuros, até os mais conheciòos como o Portugal» 
jornal em que não colaboravam senhoras. 

Em Julho òe 1911, foi representada no Theat}^o da IS aí u- 
resa, na Estrella, com geral agraõo e sucesso, uma peça em 

I acto, Merlim e Viviana, que esta Senhora escreveu em 

II bias, a peòiõo õe Aõelina Abranches. 

Esta Ôelicaòa peça teve não só belo õesempenho, como 
luxuoso guaròa-roupa. 

Um ano Õepois, D. Cacilòa õe Castro escreveu uma outra 
peça teatral, Òe Grano Guignol, intitulada Esta Mascara 
que cedeu a Alexandre de Azevedo que a fez representar 
no Iheatro de Sá da Bandeira, do Porto, onde foi rece- 
bida com as mais carinhosas frases, pela critica portuen- 
se. 

Entre essas apreciações destacarei, a de Simões Coelho, 
o critico do jornal A Montanha. 

Nesse mesmo ano, isto é em 1912, a auctora de Merlim e 
Viviana, escreveu expressamente para a festa artística da 
actriz Aurora Abranches, uma outra mimosa peça, Manhã 
de Neve que, como as anteriores, obteve grande êxito. 

A' excepção de Esta Mascara, todas as peças citadas, es- 
tão publicadas. 

A D. Cacilda de Castro cabe a satisfação de ter sido quem 
primeiro fez ouvir e representar no teatro portuguez, o verso 
natural. 

Apesar do bom acolhimento que sempre tem sido dispen- 
sado aos trabalhos desta Senhora, D. Cacilda de Castro 
ainda se não animou a dar á publicidade novos lavores li- 
terários começados. 

NAS ruínas do convento DE ALMOSTER 

Pesado e firme o alpendre do convento 
Oppõe ao tempo, o vulto denegrido. 
Dentro do velho claustro somnolento 
Tem cada altar um écho dolorido. 



106 Poetisas Portuguesas 

Pela nave ôesòobra-se um lamento ; 
E na estante õo cravo carcomiõo 
Repousa ainòa, o ultimo fragmento 
De um cântico nas trevas õiluibo . • 

Rumoreja na cerca o arvoreôo, 
Esparsas orações quase em segreòo . 
E por toõo o mosteiro a Õesabar 

Passam noviças num passinho breve, 
Que òe ar contricto e ôe cabeça leve, 
As sombras hoje vem corporisar. 

Cacilõa õe Castro. Jornal da Mulher, Lisboa, I ano, n." II 
òe 5 ôe õezembro ôe 1910, pag. 93. 



O GAROTO DOS OLHOS AZUES 

E' vel-o sempre no Chiaòo 

Ôe perna ao léo, Ôe pé ôescalço, 

toôo contente e esfarrapaôo ! 

No nosso encalço 

peôinôo esmola, , 

com o ar feliz ôe quem a ôá • 

Coitaôito ! 

Vivo e saltitante, lembra um passarito 

fugiôo ôa gaiola ! 

Cinco annos terá . . . 

não mais ôecerto ; 

e assim pequeno e tão esperto, 

a gente tem 

ôe parar 

a olhal-o bem. 



Poetisas Portuguesas 107 



E vê-lhe na cara suja, a protestar 

immaculaôos : 

os linòos olhos azues, 

muito azues. . . e sombreaõos ! 

De um azul que me recorõa 
o azul ôos olhos teus 
quasi innocentes também 
quanôo se fixam nos meus. 

E contente, 

òou-lhe a esmola 

que elle espera impaciente - 

receanõo que eu lhe fuja ! 

— Porque te evoco a ti, 
na graça õ'aquellè olhar, 
e no contraste que ri 
n'aquella carita suja . • 

Cacilòa òe Castro. Novidades (jornal). 



SUPOSIÇÃO 

Porque as õuviôas me affligem 

e receio . . 

E não creio 

«o que os teus olhos me òizem 

Se o que õizes não consigo 

entender. . . 

e te òigo 

o que não quero òizer ; 

se estremeço 

quanòo te vejo chegar ! 

E entristeço 

por te não encontrar . 



108 Poetisas Portaauesas 



E também : 
— e isto é o peior — 
Porque te encontro, melhor 
que ninguém ! 

Porque eu gosto òe te ouvir 
se me falias . . 
E me fico a sorrir 
se te calas : 

Ninguém vês 

que em tão pouco veja amor ! 
Mas tu és capaz õe o supor. . 
e eu talvez. . . 

Cacilôa õe Castro. 



CÉLIA ROMA 

(D. ALICE LAURENCE ORAM) 

Célia Roma é o anagrama com que D. Alice Laurenc#i 
Oram, a talentosa jornalista e poetisa que nasceu em Lis-, 
boa, tem firmaòo as suas poesias e alguns òos seus tra- 
balhos literários. 

Aos òes anos õe iõaõe, f unõou no seu colégio Õe Campo- 
liõe, um jornalzinho no qual segunõo a própria expressão 
õesta Senhora, publicava verços erraõos e contos invero- 
simeis. 

A mociõaõe Õe D. Alice Oram foi passaõa num meio 
culto. Em sua casa, em Cintra, õurante os meses õe verão 
e por vezes nos õe inverno, reunia-se quasi tcõas as noi- 
tes um grupo õe escriptores e poetas ilustres ; e foi ouvin- 
õo-os e aõmiranõo-06 — <a um canto õa sala, silenciosa e 
esqueciõa» — que D. Alice Oram apreõeu a pensar e eõu- 
cou o seu espirito. 



Poetisas Portuguesas 109 



Entre muitos outros nomes Õe pessoas notáveis que se 
reunião em sua casa, citarei os õe Eça Ôe Queiroz, Rama- 
lho Ortigão, D. João ôa Camará, Silva Pinto, Latino Coe- 
lho, Thomaz ôe Carvalho, Alberto Braga e Bernardo Pin- 
ôela. 

Desses saudosos tempos õa sua infância, conserva ainòa 
D. Alice Oram, como preciosa relíquia, um òos seus cader- 
nos òe colegial, no qual existem uns chistosos bouts rimes, 
escriptos pelo punho Ôe Eça ôe Queiroz, Alberto Braga e 
ôe ]aime Batalha Reis, nosso Ministro na Rússia. 

E', principalmente, como jornalista que D. Alice Oram é 
conheciôa. 

Tem a seu cargo, actualmente, alem ôa informação tele- 
! gráfica e por carta, para quatro jornaes inglezes e a repre- 
, sentação em Portugal, ôo Associeted Press of America, a 
reportagem para o Dailly Mail, ôe LonÔres, que ôeviôo á 
• granôe activiôaôe e exforço ôe D. Alice Oram, foi o pri- 
■ meiro jornal estrangeiro que ôeu a noticia Ôe ter rebentaôo 
a Revolução 5 Ôe Outubro. 

O que se passou em Portugal, nesses ôias sangrentos ôe 
Outubro ôe 1910, noticiou-o em longas columnas, e telegra- 
mas, o citaôo jornal lonôrino que, reconheciôo — pela for- 
ma rigorosa ôas informações ôa sua corresponôente e pelo 
moôo corajoso como se portou, nesses Ôias ôe revolução, 
D. Alice Oram, que para colher entre a aluvião ôe boatos 
contraôictorios, fieis e históricos pormenores, não ôuviôou 
atravessar, entre fogo, os pontos e ruas sitiaôos, — en- 
viou-lhe, como premio, ôe seus bons serviços um cheque 
ôe 100 libras, acompanhaôo ôe honrosas referencias feitas 
á sua pessoa. 

Alem ôos referiôos jornaes, foi também corresponôente 
Ôo Echo de Paris e ôe La Vie Finandère de Paris, missão 
que ôeclinou, visto não lhe chegar o tempo para tantos tra- 
balhos. 

Como traôuctora, tem D. Alice Oram o seu nome ligaôo 
ás versões : 



110 PoetÍBas Portuguesas 



Oliver Twist, òe Dickens, varias õe William Dlack e Aca- 
ôon Hill e Contos õe Gabriel õ'Anunzio ; alem õas citaôas, 
traòuziu mais alguns tomos Ôa colecção òe literatura poli- 
cial, õe Conen Doyle que tanta voga obteve entre nós, no- 
velas que também tiveram por Iraõuctores Augusto Gil, Lo- 
pes õe Menõonça, Manoel õe Maceõo e Christovam Aires, 
(filho). 

No antigo teatro õe D. Amélia representou-se, em 1905, 
peça Clairière Õe Donnay e Descavel igualmente traõuzi? 
por D. Alice Oram. 

A varias outras emprezas teatraes estão entregues veí 
soes õe peças õe Pinero, Suõerman, e õe Jules RenarÕ, fei«J 
tas por Célia Roma. | 

Como poetisa e contista, a obra literária õesta Senhorá| 
anõa espalhaõa por varias revislas Õ'arte e jornaes. Uma| 
õe suas poesias publicaõa na Crónica mereceu õe Gomes^ 
Leal que não conhecia, a esse tempo, sua auctora, as maií 
calorosas apreciações, achanõo o auctor õas Claridades do} 
Sul, que quem tão bem fazia versos, não Õevia escrever^ 
prosa. 

NUVENS 

Do mar as nuvens leves vão subinòo 

Em renõilhaõo veu, 
Brancas teias õe aranha, revestinõo 

O ciaro azul õo ceu. 

Depois, impelle-as rapiõas o vento, 

Correm sem õescançar. 
Tão altas quasi como o pensamento 

De quem vive a sonhar. 

Alegres sonhos meus, haveis passaõo 

No ceu õa minha viõa. . . 
Assim as nuvens õo azul, em vôo ousaõo, 

Vão lambem õe fugiõa. 



Poetisas Portuguesas Hl 

Errantes peregrinas ôos espaços, 

A' luz òo fim òo õia, 
Pintam na tela azul, a largos traços, 

QuaÔros õe phantasia ; 

Castellos negros, rochas escarpadas, 

Sobre tranquillos mares, 
Com tintas õas auroras irisaõas 

Das regiões polares • . . 

E vejo n'essa vaga nebulosa, 

Um munôo povoaôo 
Peias òivinas sombras côr òe rosa 

Dos sonhos òo passaôo. 

No anceio òe alcançal-os, n'um momento 

De um munòo ao outro passo, 
Pela escaòa fugaz òo pensamento 

Subo atravez òo espaço. 

E minha alma inconstante e fugiòia, 

Veloz como Atalanta, 
Vae azul fora em busca òa alegria 

E a par òas nuvens canta. 

Sem ver que o corpo preso á terra chora, 

E geme e òesfallece, 
Nem que a raòiante luz ò'aquella aurora 

Breve òesapparece. 



Célia Roma. 



112 Poetisas Portuguesas 



D. LAURA DA FONSECA CHAVES 

D. Laura õa Fonseca Chaves nasceu em Lisboa. E' filha] 
òo Dr. João Henrique Dias Chaves, já falecido, e ôe D. Pa-| 
trocinia ôa Fonseca Chaves. 

D. Laura Chaves que é auctora õe primorosos versos q\ 
encantam pela sua naturaliôaõe, graça e sentimento, como^' 
se verá pelas poesias que transcrevo, fa-los sem pretenção, . 
por mero passatempo. Só muito instaòa, aceôeu a sererari 
publicaòos no Brasil e '^Portugal, Almanach das Senhoras^ 
e no Jornal da Mulher onõe as suas proòuções poeticasj 
teem siôo muito bem acolhidas. <| 

Alem õessas poesias e õe muitas outras que estão ine^^l 
õitas, esta Senhora é auctora òe òiversas peças teatraes»^ 
em prosa e verso, que foram representadas por amado-;?,' 
res. / 

Nas suas poesias que abordam assumptos muito diferen-, 
tes e nos seus restantes trabalhos literários, predomina a| 
nota satírica, nota que esta Poetisa tem cultivado com exito.| 

D. Laura Chaves que pertence ao grupo das jovens Poe- 
tisas Portugue;?as que figuram nesta Antologia, é, pelos 
seus merecimentos e talento, uma das mais lídimas espe- 
ranças da Literatura Portuguesa. 

raciocínio de criança 

A' Helena 

— O' mãesinha, ouve lá, explica-me isto, sim? 
Dizem que tudo morre, e custa-me a entender. 
Pois o paesinho e tu um dia hão de morrer 
E tudo quanto existe ha de acabar assim ? — 

— Dizem que os mortos vão — e eu acho isto esquisito, 
Mettidos em caixões. Que lindos caixõesinhos 
Devem levar p'rá terra as flor's e os passarinhos ! 
Quando eu morrer também irei assim bonito ? — 



Poetisas Portuguesas 113 



- Que patetinha és, sempre tens caôa iõeia ! 

A morte naõa poupa, é má, é muito feia ! 

Lhe respondeu a mãe n'um tom grave e profundo. 

O pequeno ficou apreensivo, muõo, 

Depois õisse a sorrir : — Se morre tuôo, tuõo. 

Mas que granòe caixão ha õe levar o munôo ! 

Laura Chaves. Jornal da Mulher, n.° 103 õe 30-11-1915, 
|5.* ano, pag. 1553. 



SONETO 

\o sair òa taberna, aos borõos pela rua 

■/ae caminhando incerto o pobre borrachão. 
; N"uma voz avinhada embirra com a lua 
1^^'or pôr sombras na terra e confundir-Ihe o chão, 

I Jisto tropeça e cae : p'rali fica deitado 
^) corpo n'um novelo — um horror que faz dó ! 
|'!ão consintas ó Deus, que um ser por ti creado 
|ienha por leito a rua^ e por coberta o põ ! 

I ão vês que o infeliz não tem pão para dar 
|os filhos e á mulher ! Se bebe é p'ra olvidar 

I fome que os tortura e os vae ceifando a eito ! 

I I que pregaste, Deus, na terra a egualdade 
^,\ como o rico cumpre essa tua vontade ! 
l3ísfaz o mundo, vá ! que está muito mal feito ! 

? 'Laura Chaves. Jornal da Mulher, 6." ano, n.° 115. Lisboa, 
íí 11-1916, pag. 1818. 



114 Poetisas Portuguesas 



^ 



À 



O AMOR E O TEMPO 

Voava pelo espaço o Amor alegremente 
Pensanõo em fazer mal á pobre humaniôaòe, 
Quatiòo a tolher-Ihe o vôo, apar'ceu ôe repente 
O tempo, que a sorrir o olhava com bonõaõe. 

Ao ver-se preso assim, Cupiòo Descontente 
Murmurou n'um òesõem replecto õe malbaõe 
<Afasta-te Ò'aqui, velho tonto e ôemente 
E òeixa-me passar que eu quero a liberõaòe !» 

«Ah, não me tens respeito» exclamou o tempo iraòo 

«Pois eu para evitar que sejas malcreaôo 

Hei òe seguir-te sempre onôe quer que tu vás I 

E õesõe então o Amor não anõa satisfeito, 
Não leva naôa ao fim, naôa lhe sae com geito, 
Porque o tempo õestroe tuôo quanto elle faz I 

Laura Chaves. Jornal da SMulher, n." 110 ôe 30- 6-916,! 
ano. pag. 1710. 



:t 



A TEMPO 

O baile ia acabar. A orquestra executava 
N'um murmúrio òe sonho uma valsa onòolante 
Eu, triste no seu hombro a cabeça pousava 
Deixanõo-me levar semi-morta, anelante. 

N'isto ele, aproveitando esse meu òevaneio, 
Chegou-me muito a si ôizenõo com aròôr : 
«Deixa o teu coração palpitar sem receio 
«Porque eu ha muito sei que tu me tens amor !» 



Poetisas Portuguesas 115 

Ao ver que me arrancava o meu segreõo assim 

Tive um meòo cruel òe não ter mão em mim, 

Mas não qu'ren()o mostrar-lhe o meu granòe embaraço 

Sustentei sem temer o seu olhar arõente 
E õisse-lhe a sorrir, muito serenamente : 
<Não fale mais, senão perõemos o compasso! 

Laura Chaves. Jornal da Mulher, 5° ano, n." 102, Lisboa. 
30-10-1915. 



D. BRANCA DE GONTA COLAÇO 

D. Branca òe Gonta Colaço, a inspirada e conheciôissima 
Poetisa Portuguesa, nasceu em Lisboa. Filha õo granòe 
poeta Thomaz Ribeiro, D. Branca õe Gonta Colaço que é 
casada com o notável artista ]orge Colaço, tem sabiõo 
continuar nobremente as gloriosas tradições literárias òe 
seu pae. 
Esta Poetisa é auctora òos seguintes livros : 
Matinas, 1907, (exgotaòo) ; Canções do meio dia, 19Í2 ; 
.Poetas d' Honrem, 1915. 

Como conferencista, a obra Òe D. Branca òe Gonta Co- 
flaço é também muito apreciada. 

Poetas d'Eonteni, assim se intitula uma òe suas confe- 

Cfencias, que por duas vezes fez nas elegantes salas da 

lUga Naval Portuguesa, òe Lisboa, ante uma selecta assis- 

(lencia. 

Dessa conferencia, diz no Jornal da Mulher (n." 84 de 

5 de ]unho de 1914), o sr. António Batalha Reis, o dis- 

; inctissimo oenologo e escriptor que tão considerado é 

)ela sua competência e saber : 

«Tornar saliente a religiosa unção, com que ouvimos a 

onferente recitar algumas producções dos Poetas d'Hon- 

;m — entre as quaes sobresahiu, com inconfundível bri- 

10, a Borboleta de Thomaz Ribeiro, é ainda uma veròaòe 



116 Poetisas Portuguesas 



bem veròaôeira. Mas tuõo isto, que quer aparentar alguma 
couza, — não é naòa, por fim òe contas ! E não é naòa 
porque, em tuõo que se poòesse òizer, — rezultaria sem^ 
pre a irremediável falta õe sublime enlevo que imprimit 
naturalmente, nos ouvintes, — a suave, carinhosa e insi* 
nuante voz òe Branca òe Gonla que chega aos nossos ou- 
viòos como um canto celestial, — que nos ôelicia, — en- 
canta, — prenòe e nos conòuz, branòamente, a um veròa- 
òeiro extasis, completamente òivino e único!» 

Esta apreciaòa conferencia foi mais taròe publicaòa ent' 
volume, eòição feita a peòiòo e a expensas òo ilustre Câ» 
monianista e Acaòemico Dr. Carvalho Monteiro. 

Deòicaòo a uma obra òe cariòaòe, a eòição òos Poet0 
d Hontem que consta òe 5^5 exemplares numerados^ e quê 
não chegou a entrar no mercaòo, exgotou-se em poucos 
Òias. 

Em 1916, realisou esta insigne Poetisa, na mesma Liga 
Naval òe Lisboa, agremiação onòe se teem feito ouvir, ein 
belas conferencias, entre outros, Fernanòo òe Sousa, Cu- 
nha e Costa, Anselmo Vieira, Alfreòo Pimenta, Pereira ôe 
Matos, Gomes Mota, Freitas Branco, Hipólito Raposo, An- 
tónio SarÒinha, etc, etc. — nova e brilhante conferencia que 
mais taròe repetiu no Porto e em Coimbra e cujo titulo erai; 
o amor da Pátria na obra de Thoma^ Ribeiro. 

O ultimo trabalho literário òe D. Branca òe Gonta C0* 
laço foi publicaõo em 1917. Destinaòo a socorrer uma fa- 
mília necessitaòa, intitula-se : A' margem das Chronicas. 

NIHIL! 

Morrer! 

Oh, quem nos òéra ! 

Achar, na morte, 
a paz, que sobre a terra em vão buscamos ! 
Chegar òepressa ao porto, onòe esperamos 
esquecer os balòões Òa nossa sorte ' 



I-oetisas Portuguesas 117 

Morrer i 

Mas, — ao morrer, para onòe vamos ? 
(Ha lá ninguém que a Ôuviba supporte !) 
Na viõa, ao menos, qualquer sonho é norte. - 
— e ha sempre uma illusão que nós amámos ! 

Pobre Õo nosso peito exhausto, enfermo, 
que sangra até por ver chegáõo o termo 
ôa pena que na terra tem cumpriòo ! 

Valera talvez mais não ter esperanças ! 
Viver, na inconsciência Òas crianças ... 

Valera talvez mais não ter nasciòo ! . ■ 

Branca õe Gonta Colaço. Matinas, Lisboa, 1907, pag. 59 

e 60. 



PRELUDIO 

Passei, olhou. . . - não succeõeu mais naòa. 
Taròe ao serão, no familiar cantinho, 
pensei ôe novo, um pouco interessada, 
n'aquelle olhar, seguinòo o meu caminho ! 

Ao outro òia, eu estava ôebruçaõa 
a ver o azul õo már sereno e liso- • 

— passou ! — Olhei- • . não succeõeu mais naõa 

— mas õe então, na minh'alma alvoraçaõa, 
porque anõa o choro a batalhar com o riso ? ! 

Branca õe Gonta Colaço. Matinas, pag. 84. 



118 Poetisas Portuguesas 



MEU AMOR ! 

II 

Negar-te um beijo a ti, é significativo 
Õ'uma affoiteza enorme, ou õ'um mortal receio ? ! 
E* fingir que õesprezo aquillo porque anceio ! ■ 
E' quasi recusar- me aquillo porque vivo ! 

Não é coragem, não ! — Afflige-me este enleio 
que sinto ao pé òe ti, não sei porque motivo 
Quero òizer-te sim — o õôce lenitivo, 
e sempre vem o não metter-se ôe permeio ! 

Longe, faço a mim mesma uma promessa aròente 
õe unir a minha bôcca á tua, brandamente, 
n'um beijo que afinal não é crime nenhum! 

Mas vejo-te, e não sei que tenho, mal te vejo ! 

Nem sei se é valentia o recusar-te um beijo 

se um granõe mêòo, amor de não te õar só um . . 

Branca òe Gonta Colaço. Matinas, pag. 51 e 52. 



HISTORIA SILENCIOSA 

Do tempo pelo rio crystalino, 

na barquinha veloz òo seu ôestino 

elle ia a ôeslisar. 
Viu-a na margem ao passar, e ao vê-la 
ambicionou a companhia ò'ella. • 

que não se fez rogar ! 

E proseguiram juntos a ôesciòa 
òa placiõa corrente õ'uma viôa 
ôe mutuo bem querer ; 



Poetisas Portuguesas 119 

sorrinôo alegres aos clarões õa aurora 
entristecenõo levemente, á hora 
triste, ôo entaròecer . . 

Mal falaram. As almas que se aôoram, 
é ô'olhar para olhar que se namoram 

n'um extasis sem fim ! 
Um ôesejo reflecte outro õesejo, 
ôepois os lábios unem-se n'um beijo . 

e vão sonhanõo assim ! • • 

Quando o fim ôa viagem alcançaram, 
á mesma sombra a repousar ficaram 

na mesma primavera • . 
E entraram a sorrir no Esquecimento ; 
que é o Qranõe Sahará ôo firmamento 

onòe o silencio espera . 

Branca ôe Gonta Colaço. Canções do Meio dia, Lisboa, 
1912, pag. 65 a 68. 



PEDINDO ESMOLA 

Uma, Esmolinha, sim ? 

Eu sei que vos consola 
õar pão e lume a um lar onôe a miséria entrou ! 
Por isso vim confiaôa a vós, peòir esmola, 
E alinhavei sorrinôo a ephemera sacola 
ô'uns versos que choranôo o coração ôictou. 

Branca ôe Gonta Colaço. A' Margem das Chronicas, 
Lisboa, 1917, pag. 3. 



120 Poetisas Portuguesas 



D. LIA DE MAGALHÃES COLLAÇO 

D, Lia õe Magalhães Collaço nasceu em Lisboa. E' filha 
òe Jerónimo õe Magalhães Collaço, filho òos Conôes ôe Cò- 
õeixa. 

Esta Senhora que é mãe òa poetisa D. Anna Achaioli, ca- 
sou muito nova, tenõo feito, em solteira, versos cheios òe 
simpliciõaôe e sentimento. 

Depois Òe casaõa, porem, fizeram-lhe os extremos ma- 
ternaes cortar as azas õa sua granõe imaginação, trocanôo 
as suas inspirações poéticas pelos òeveres ôe mãe cari- 
nhosa. 

Seu pai, bacharel em õireito pela Universiôaôe ôe Coim- 
bra resiôiu çi maior parte ôa sua viôa em Pariz onõe con- 
quistou uma posição ô'elite no munôo aristocrático. 

Dotaôo ôe um espirito vivo, subtil e acentuaôamente sar- 
cástico, foi um ôos mais aprimoraôos rajffinés ôa elegância 
parisiense, e poôe òizer-se sem perigo ô'errar que foi tão 
aôoraôo pelas mulheres como temiõo pelos homens. 

Teve sete Ôuelos em que ficou venceôor e a sua atituôe 
cavalheiresca fez com que figurasse com elogio no livroí 
Les hommes d'épée. I 

A Jerónimo Collaço também se referiu Ramalho Ortigão,! 
nas Farpas. V. 

Sua filha D. Lia heròou ôele por completo a figura e al| 
aguôeza õe espirito, substituinôo apenas a cáustica irónica ^ 
paterna por um charme especial que faz ôesta Senhora uma 
ôama ôe trato muito interessante. 

OS TEUS OLHOS 
(inédito) 

N'esses teus olhos, Maria, 
Oceanos ôe luz pura, 
Eu vejo tanta canõura 
Tanta luz, que a luz ôo ôia. 



Poetisas Portuguesas 121 

Não tem aquella magia, 
Não tem aquella òoçura. 
Não tem o amor, a branòura, 
D'esses teus olhos Maria. 

Lia Magalhães Collaço. 

« 

SEM TITULO 

(inédito) 

No álbum de António Teixeira Carneiro 

Não julgues que m'importa que o avarento 
Tenha a seu laõo mil outeiros õ'oiro, 
Não penses que eu espero outro thesoiro, 
Sem ser o mergulhado em crú tormento. 

Não julgues que a beleza me fascina, 
Não creias que m'importa a fiòalguia ! 
Aòmiro Joanna ò'Arc, essa heroina, 
De patriotismo e nobre galhardia. 

Não aprecio o Rei pelo seu veto, 
Enternece-me a luz õo meu affecto : 
Inebria-me um granõe sentimento, 

-ftlegra-me òo campo a soliòão, 

E assim seguinõo sempre o coração, 

Maravilham-me as chammas õo talento ! 

Lia Magalhães Collaço. 



122 Poetisas Portuguesas 



D. MARIA DA CONCEIÇÃO PEREIRA 

DA CUNHA j 

D. Maria Õa Conceição Pereira ôa Cunha nasceu em Lis- 
boa em 15 õe Março ôe 1893, e faleceu contanòo apenas 
17 anos, em 5 òe Maio ôe 1910, õeixanòo imersos na maior 
ôôr — seus pães D, Maria José õe Pina Manique Pereira 
Ôa Cunha, trineta õo celebre Intendente Pina Manique, e 
o sr. Peõro ]osé õa Cunha, oficial Õe Engenharia e Reitor' 
ôa Universiõaôe Õe Lisboa. ? 

D. Maria ôa Conceição Pereira ôa Cunha que era neta òo i^ 
antigo õirector Õo Portugal Velho e ôa Nação, o jornalista Au- 
gusto Porfírio õe Carvalho Pereira, começou por instincto, 
visto nunca ter tiôo professor ôe poética, a fazer versos ões- 
õe os 10 anos, como mostra o volume õe suas poesias pu- 
blicaõo postumamente pelas suas amigas D. Laura Chaves 
e D. Maria Canôiõa Parreira, Poetisas a que igualmente se 
refere este livro. 

Alem õesses versos, D. Maria õa Conceição Pereira õa 
Cunha fez muitos outros, que rasgava õepois ôe os haver 
recitaôo em familia. Outro tanto suceõeu com relação a al- 
gumas ôas varias comeôias que escreveu e que foram re# 
presentaôas em teatros particulares. f 

Dotaõa ôe granõe habiliõaôe para o teatro, qualiõaõe esta 
que revelou, õesôe bem nova, no Colégio de São l.ui^, on- 
õe foi eôucaõa e se familiarisou com a lingua franceza, o 
que lhe permitia versejar n'essa lingua com granõe facili- 
Ôaõe, como se constata ôe algumas õe suas proõuções poé- 
ticas, ~ foi D. Maria õa Conceição Pereira õa Cunha uma 
ingénua ôe qualiôaões raríssimas como õemonstrou, na 
peça õe ]ulio Dantas — Rosas de todo o ano, e noutras pe- 
quenas comeôias que representou no mencionaôo Colégio, 
e fora ôele. 



Poetisas Portuguesas 123 



A MORTE DA MICAS 

A morte entrara aii ! No quarto a luz õo ôia 
Brilhava frouxamente ! Ella, que agonisava 
N'um sesto convulsivo a roupa arrepanhava 
Como a querer reter a viõa que fugia . . 

Depois p*ra nós volveu o amorteciòo olhar ! 

A custo Descerrou a bocca õesmaiaôa 

E òisse n'uma voz já um pouco velaòa : 

«Que mal fiz eu a Deus para assim me abanôonar?» 

Mas a Virgem que é mãe, ouvinòo este lamento 

Confragiôa ôe õôr, á terra então òesceu 

A trazer-lhe na morte o alivio ao seu tormento ! 

Mais tarõe houve quem visse illuminar-se o espaço 
Era Nossa Senhora a subir para o céo 
Levanõo a alma õ'ella occulta no regaço. . 

Laura Chaves. 



QUADRAS 

Mal sabes tu a razão 
Porque é que a estrella caõente 
Apenas surge no ceu 
Se some tão òe repente 

E' que eu pergunto-lhe sempre 
Se anõo no teu coração ? ! 
E ella então foge depressa 
Com ôó õe õizer que não ! - 

Ave-Marias õão Õores 
Paòre- Nossos alegrias 
Que extranho rosário o meu 
Só feito õ'Aves-Marias. . 

Maria ôa Conceição Pereira òa Cunha. 



124 Poetisas Portuguesas 



DES VERS FAITS A MON CCEUR! 

Mon coeur était petit comme les jeunes roses 
Un peu timiôe et tenõre ainsi que les violletes 
II repliait en lui ões tenòresses secrètes 
Sans les òire, mon coeur, savalt òe õouces choses. 

Alors, il a senti le chaste et òoux besoin 

De verser sa tenòresse au fonò õ'un autre coeur ; 

Et friieuK et tremblant ò'éspérance et õe peur 

Mon cceur alia frapper à la porte õu tien. 

11 le sentit três bon, aròent et généreux 

Mais une voix brutale a retenti souõain : = 

«)e ne veux pas Õe vous, partez, mon cceur est plein !» 

Et mon cceur répartit, òéçu et malheureux. 

Mais aujourò'hui mon coeur frappera õe nouveau 
Et si tu me reõis, «mon coeur est plein, partez», 
Au lieu Ôe revenir enõolori, blessé, 
Mon coeur prenòra le tien ôans un suprême assaut !> 

II entrera surnois comme font les voieurs 
Et saura lui chanter õe si pressantes choses 
Versera tant õ*amour, Ò'éspérance et ôe roses 

Qu' un jour il será seul à vivre õans tou cceur ! 
Maria õa Conceição Pereira õa Cunha. Janeiro õe 1910. 



Poetisas Portuguesas 125 



D. MARIA DA CUNHA 

D. Maria õa Cunha era portuguesa, não obstante ser fi- 
lha òe uma senhora brazileira e õe Francisco Zorro, ôe na- 
cionaliõaòe hespanhola. 

Desôe muito nova, esta Senhora que nunca ligou impor- 
tância ás suas poesias, versejava. 

Tenõo siôo um Ôia entregues, por um seu tio, ao Dr. Can- 
ôiõo õe Figueireõo, (Viõe Diário de Noticias õe 25 õe Ja- 
neiro Õe 1917), as suas composições poéticas, as quaes o 
notável mestre õa língua portuguesa mostrou e õeu a apre- 
ciar ao Conõe Õe Monsaraz e ao Dr. }ulio Dantas, resultou 
Ôesse facto a publicação õo primeiro livro õe versos õe D. 
"íaria õa Cunha. 

Trindades se chama essa encantaõora e valiosa obra que 
conta 2 eõições. Alem õe soberbas poesias, regista os mais 
calorosos elogios feitos pelo auctor õa Musa Aíemtejana e 

{ Ceia dos Cardeaes, como se verá õa transcripção que 

iSSO a fazer. No citaõo Diário de Noticias, õiz o õr. Can- 

5o õe Figueireõo. 

«Quanõo porem tive lazeres para a leitura õaqueles 
versos, a minha surpreza foi enorme : estava ali inõiscuti- 
velmente um altíssimo talento feminino, realçaõo por vasta 
cultura literária e possuiõor õa mais perfeita técnica õo 
verso ; e, com receio õe que a auctora tomasse o meu con- 
ceito na conta õas amabiliõaões vulgares, que aos homens 
òevem as mulheres formosas e õe talento como ela, õei 
conta õa minha surpreza a õuas auctoriõaòes literárias, que 
não conheciam a poetisa, e que absolutamente confirmaram 
elevaõo conceito que os versos me sugeriam : ]ulio Dan- 
3 e o Conõe õe Monsaraz.» 

«Os õois laureaõos poetas õeram-me por escripto o seu 
.recer, com que se prefaciou o livro Trindades » 
«Monsaraz achou brilhantíssima a estreia, pela mais com- 



126 Poetisas Portuguesas 

pleta correcção métrica, ampla fantasia, rica Õe côr e so| 
noriôaôe, traço firme e tintas preciosas > 

«Júlio Dantas escreveu que as Trindades revelaram um 
talento poético õe primeira oròem, pois tuòo ha nelas : es- 
pontanieõaôe, sentimento musical, plástica òo verso, técnica 
perfeita, conhecimento ôe língua, movimento, cor. . » 

«Ha até sonetos, — õiz Júlio Dantas, — que poõem até 
consiõerar-se obras primas. > 

Quanto havia ainòa a esperar òo talento ôe D. Maria ôa 
Cunha, se a morte a não houvesse arrebatado, em plena 
mociôaòe, õo numero õos vivos ! Longe ôa sua pátria, ôa 
qual ôesalentos, ôesgostos, e talvez, até, injustiças, a afas- 
taram, D. Maria ôa Lunha, faleceu repentinamente em S. 
Paulo (onôe lhe tinha siôo garantiôa, por varias pessoas 
importantes, uma colocação vantajosíssima no magistério), 
a 10 ôe Janeiro ôe 1917. 

Com a sua morte fica ineôito e incompleto, segunôo 
penso, O Livro da Noite, cujo prefacio em belos alexanôri-" 
nos fez successo no Brazil, onôe seus versos são igual- .„ 
mente muito apreciaôos. * 

Na Época, ôo Rio ôe Janeiro, um ôos principaes jornaes 
brazileiros, ôo qual é corresponôentee enviaôo especial 
em Lisboa a ôistincta escriptora e jornalista D. Virgínia 
Quaresma que também faz parte ôa reôacção ôe A Capitaly 
Ôe Lisboa, publicou D. Maria ôa Cunha algumas ôe suas 
aprecíaôissimas poesias, que não figuram nas IrindadeSyí^ 
taes como : -^ 

(l4 Fiandeira (muito elogiaôa pelos críticos), e Salomé, ^ 
3 sonetos feitos e inspíraôos pela musica Ôe Strauss. ' 

Não é só como poetisa que é notável a obra õe D. Maria 
ôa Cunha. 

Como jornalista, escreveu, a peôiõo õe vários reôactores 
ôe jornaes brazileiros, algumas crónicas. 

Foi, ainôa, uma conferencista brilhante, como atestam 
as suas conferencias feitas no Rio Ôe Janeiro : ^i 



Poetisas Portuguesas 127 



Como cantam os velhos povos da Europa sentados á som- 
bra das Lendas e A Itália Artística, que Alberto ôe Oliveira 
classificou das mais lindas e das mais bem feitas de quan- 
tas, portugueses teem feito no Brai^iL 

PROÉMIO 

Ao meu livro singelo e òesprenòiõo, 
Cheio õe aspirações e õe sauõaões, 
Livro õe quem viveu sem ter vivido, 
Diz-lhe bem este nome õe <Trinõaões>. 

Branõo cahir Õa noite, hora õe mágoas! 
Penumbras que se estenõem lentamente. 
Vozes tristes õas plantas e õas aguas. 
Sonhos õispersos pelo ar Õormente, 

Aves cansaõas procuranõo o õono, 
Ovelhas loiras quasi ao abanõono. 
Visões õe paz, õe amor que não existe, 

Lucilações õa estreita vespertina, 
Rumorejar õe ninhos em surõina. . . 
Eis o meu livro, simples, vago e triste, 

Maria õa Cunha. Trindades, Lisboa, 1909, pag. 9 e 10. 



CROMO 

Passa na rua, õonairosa e esperta, 
Varinazinha, posta a mão na anca ; 
Como ha calor, a camisinha aberta 
Deixa entrever a pele fina e branca. 

Cabelos loiros, presos sob o lenço, 
Saia roõaõa pelo calcanhar, 
Dou-lhe õez anos, quanõo muito, e penso 
Que uma avezinha lhe ensinou o anòar. 



128 Poetisas Portuguesas 



Oh ! que gentil, esbelta figurinha ! 

Uns olhos granões, côr õe agua marinha, 

Sorriso alegre como o sol õe v'rão ! 

Deixá-la ir! Se lhe òizeis que é linòa, 

Desfaz-se o encanto : peròe esse ar que a alinôa, 

Pragueja e insulta como um carrejão. 

Maria ôa Cunha. Trindades, pag. 43 e 44 



O INFANTE DE SAGRES 
(quadro de malhôa) 

No concavo õa rocha o Infante cisma, e crava 
Ao longe, no horisonte, o olhar perscrutador ; 
O largo oceano em volta amansa a fúria brava, 
Como um leão õomaòo aos pés õo õomaõor. 

Embebe-se num sonho altivo e refulgente : 
Surge õo Mar òa Noite o Atlântico õa luz, . -. 
As quinas tremulanõo ao vivo sol Õo Oriente. ■ 
Em terra õe infiéis a reõentora cruz . 

Hão õe partir em breve ousaõas caravelas ; 
Ha Õe guiar seu leme, e enfunar- lhes as velas. 
Da sua funôa crença o sopro genial !. . ■ 

E' nisto que êle cisma, e nem sequer õuviõa 
Que a frota há-õe voltar . . A gente é ÕestemiÕa, 
Granões almas õe heróis, filhes õe Portugal ! 

Maria õa Cunha. Trindades, pag. 41 e 42. 



Poetisas Portuguesas 129 



MEIO DIA 

O sol subiu. Agora é quasi a prumo : 
Hora Ôa sesta abençoaôa e santa ! 
Sai òos casais, prometedor, o fumo, 
Os gaôos õormem, a cigarra canta. 

A' luz òo sol, a rosa brava Õeita 
Um cheiro forte que entontece a gente ; 
Nos milharais, a cotovia espreita, 
A arvéioa salta na agua transparente. 

E no silencio que se fez, profundo, 
Ouvem-se as folhas cahir no chão, 
E o palpitar ôo insecto moribundo. 

Dormita á sombra o lavrador aldeão. 
Em quanto o sol, progenitor do mundo, 
Aloira os trigos e amadura o pão. 

Maria da Cunha. T7'indades, pag. 103 e 104. 



VIRTUDES TEOLOGAIS 

;; Eu creio em ti, Senhor, quando, ás tardes contemplo 

;; O campanário tosco e simples de uma aldeia, 

l E as casinhas em volta ao pequenino templo, 

1 A' sombra da tua cruz, ó Mártyr da Judeia. 

: Espero, espero em ti, quando a estrelinha de alva 

} Vem espiando no céu o despertar dos ninhos; 

f Astro núncio do dia, a quantos ela salva ! 

1 Olhar da madrugada, irmã da flor dos linhos !. . . 



130 Poetisas Portuguesas 

Mas, quanòo escuto rir um banòo òe crianças, 
Quanôo beijo na face um õ'êsses pequeninos, 
Fazem bem á minha alma os risos cristalinos ; 

Da infância õescuiôosa avivam-se as lembranças, 
E eu amo-te, Senhor, que bás á orfanòaõe 
Esse Ôom Òe viver ôo passado — a Sauòaôe. 

Maria òa Cunha. Trindades, pag. 79 e 80. 



CLAUDIA 

N'aquelle tempo, junto ao pórtico sagrabo 
Do rei magnificente e sábio, Salomão, 
Jesus anunciava ao povo beslumbraòo 
As glorias ba humilbaòe e o luar bo Perbão. 

Falava bevagar . bizeres tão suaves 
Como o rumorejar ba verbe Galileia : 
Amava a canbibez bos lírios e bas aves, 
Ensinava a sua alma á velha raça hebreia. 

O' boce «Dôa-Nova> ! Em quanto Ele pregava 
E o sol batia em. cheio os cebros bo Hebron, 
No alto ba torre Antónia, imóvel, cogitava 

Cláubia, mulher be Pôncio, a romana bevassa ! 
Turbara-a estranhamente o rabi casto e bom, 
Que a chamava, talvez á luz ba sua graça ! 

Maria ba Cunha. Trindades, pag. 34 e 35. 



foetisQs Portuguesas 131 



SOROR DOLORES 

(d. MARIA FELICIDADE DO COUTO BROWN) 

D, Maria Feliciòaõe òo Couto Drown que usou os pseu- 
?)onimos õe Soror Dolores e A coruja trovadora nasceu no 
Porto, em 10 òe ]aneiro Õe 1890. 

Foi casada com o negociante Manoel õe Clamouse Brown. 

Os seus primeiros versos foram publicaõos em eõição 
particular, (sem local õe impressão e õata), apenas õesti- 
naõa a brinòes. 

Foram firmaõos com o pseuõonimo õe A coruja trova- 
dora. (Viõe Capitulo VI, pag. 163 õo livro õo senhor Alberto 
Pimentel — Os Amores de Camillo^. 

Na época em que Soror Dolores versejava, ainõa era feio 
€ notaõo senhoras õeõicarem-se á literatura. 

A única Diversão elegante õo Porto antigo era nesse 
tempo, em que as õamas iam á missa embiocaõas na man- 
tilha õe lapim, o Jardim de S. Lazaro. A elle se refere 
numa poesia Soror Dolores. 

Penso, ser ta. preconceito, que levava esta Poetisa a es- 
crever nas obras que oferecia : 

Para não passar a outra mão. 

Segunõo õiz D. António õa Costa, em 1850, esta Senhora 
iPUblicou um livro intitulaõo Soror Dolores. 

Em 1854, eõitava um outro, ]'iraçóes da Madrugada (3.» 
íôição refunõiòa Õe suas poesias), que também não chegou 
» entrar no mercaõo. 

A' SENHORA MARIETTA GRESTI 

O rouxinol entre as flores, 
Gorgeanõo seus amores, 
Não tem voz mais argentina 
Nem respira mais ternura. 
Nem meloõia mais pura. 
Do que tu, Gresti õivina. 



132 Poetisas Portuguesas 

Uma aura perfumaôa, 
Lá ôo Oriente sopraôa, 
Onòe linõa faõa mora. 
CultivanÔo seus rosais, 
Não murmura meiga os ais 
Como a tua voz sonora. 

Quanòo a harpa òe Sião, 
De sublime inspiração, 
Solemnes cantos vibrava, 
Mais que tu não commovia, 
Nem a compaixão movia, 
Nem o remorso acordava. 

O aõeus que á pátria ôiz 
O proscripto, que infeliz 
Para sempre a vai ôeixar, 
E' um grito penetrante, 
Tem um echo, é semelhante 
Ao pungir òo teu cantar ! 

Deve assim no espaço ethéreo 
Ser um anjo õe mysterio 
Moòelanòo hymnos õ'amor ; 
Deve assim vibrar sonoro 
N'esse eterno, angusto coro, 
Quanõo louva o Creaòor. 

E*s o génio ôa harmonia, 
Que puòeste, por magia, 
Essa voz ao ceu roubar ; 
A mulher não poõe tanto ; 
Não tem o conõão ò'encanto 
De toõos arrebatar ! 

Soror Dolores. Âlmanach de Lembranças Luso Brasileiro 
para 1856, pag. 242. 



Poethas Portuguesas 133 



D. EMÍLIA EDUARDA 

D. Emilia EõuarÒa nasceu em Lisboa em 1 òe Janeiro 
ôe 1845. 

Representou, pela primeira vez, no Theatro Therpsicore, 
na rua ôa Conceição, á Praça õas Flores, onôe no õizer òe 
Sousa Bastos, agraòou extraorõinariamente nas três co- 
nieòias õe papeis muito òiferentes que teve a seu cargo. 
nessa noite. 

Depois òe enviuvar, entrou para o Theatro Òo Gymnasio. 
Ahi fez a sua estreia, representando a comeòia em um acto 

A esposa deve acompanhar seu marido^ traòução òe ]ulio 
César Machaòo, peça em que também alcançou veròaòeiro 
sucesso. (Viòe Carteira do Artista, por Sousa Bastos). 

Como actriz, fez Emilia Eòuaròa, que era inteligentíssima, 
parte òas companhias organisaòas pelas emprezas ]osé 
Ricaròo, Taveira, Rente, e Garraio. 

Em 1895, pertencenòo á Companhia Taveira, foi ao Rio 
òe Janeiro, onòe alcançou sucesso. 

Em Lisboa, trabalhou nos teatros õo Gymnasio, Varie- 
òaòes e Príncipe Real. 

Em 1898, fazia parte òo elenco òa companhia òo Theatro 
I Carlos Alberto òo Porto, ciòaòe onÒe viveu muito tempo. 
I A primeira poesia que o actor António Peòro recitou foi 
I feita por D. Emilia Eòuaròa. 

No Almanach dos Palcos e Salas, òe que é proprietário 
o sr. Arnalòo Boròallo que teve a amabiliòaòe òe me pres- 
tar alguns esclarecimentos sobre assumptos theatraes, es- 
creveu D. Emilia Eòuaròa alguns contos e poesias. 

Em 1895, publicou esta Senhora, no Porto, um livro inti- 
ulaòo Contos Simples, que D. João òa Camará prefaciou. 

N'UM ÁLBUM 

Um formoso bouquet òe flores mimosas 
— Lirios òo vai e pétalas òe rosas — 
Eu venho aqui òepôr. 



134 Poetisas Portuguesas 

Fui roubal-as, ó õoce primavera, 
Ao teu casto seio, onôe Flora gera 
O seu primeiro amor ! 

;■ Inibria o perfume que rescenôe 

— A flor õo campo, que 5e côr esplenôe, 

Delicaba e gentil ; 
Os jasmins brancos a pura neve 
Graciosos penòem a haste branõa e leve 

A sauòarem abril. 

E sobre a flor òe fina transparência 

— Flor etherea, sacrário 0'innocencia 

Que até o sol ôescora, — 
VinÔa òo céu, tremente e crystalina, 
Vi cair uma pérola õivina 

Do áureo manto ôe aurora. 

Emilia Eõuaròa. Almanach dos Palcos e Salas, para 1895jj 
(7.0 anno), pag. 31. 



D. JÚLIA EUGENIA SILVA DE PEREIRA 
LÚCIO ESCORCIO 

D. Júlia Eugenia Silva õe Pereira Lúcio Escorcio nasci 
em Lisboa. 

E' filha õe D. Maria òel Rosário Matilae Lazara Francisca 
ôa Silva Montãno Castãneôa y Domingues òe Pereira e õe 
Zacharias }osé Pereira. 

Esta ilustre Poetisa que é casaõa com o importante in- 
õustrial sr. João Nicolau Lúcio Escorcio, publicou, em 1913, 
o seu primeiro livro — Suspiros, obra em prosa e verso, es- 
cripta em 4 línguas (português, hespanhol, francez e in- 
glez). Foi prefaciaõo pelo escriptor Aõriano Anthero. 

Em 1917, publicou esta Senhora, um novo livro — O 



Poetisas Portuguesas 135 

Protector de Inglaterra, — õrama em 3 actos, õe Don José 
Maria ôe Ortiga Marejon, que aõaptou para português, em 
verso elexanòrino. 

Alem Òesta peça que foi entregue, no Theatro Nacional, 
para ser representada, D. Júlia Eugenia Silva õe Pereira 
Lúcio Escorcio traòuziu o õrama em 3 actos — Campo de 
Arminho, Õe D. Jacinto Benavente, original, que õeve ser 
representaõo no Theatro Republica. 

Esta Escriptora tem colaboraõo na Illustração ^Portugue- 
sa, Heraldo da Madeira, Jornal da Madeira e no Jon aí 
da Mulher. 

O NOSSO AMOR 

Não sei como este amor teve começo, 
Nem qual Õe nós, primeiro o inspirou. 
Tu ou eu ? eis o segreõo. . . e õesconheço. 
Qual õe nós õois, primeiro o outro amou. 

Por mais longe que eu olhe no passaõo 
Vejo-te sempre preso á minha viõa. 
Tu foste õesõe sempre o meu cuiõaõo, 
E õesõe sempre foste a minha liõa. 

Olhaste-me e eu olhei-te e foi bastante. 
Não precisa õe mais o coração. 
Para saber que fica n'um instante, 
A* mercê õ'essa eterna conõição. 

Lembro-me só que n'um brilhante outomno, 
Sereno e calmo como os há por cá, 
Eu comecei a ter noites sem somno, 
E õias sem cantar. . . amava já ! 

Júlia Eugenia Silva õe Pereira. Suspiros, Lisboa, 1913, 
pag. 12. 



136 Poetisas Portaauesas 



A UM CRUCIFIXO 



Foi olhanòo-te um õia, absorta e triste, 
O' òoce imagem, minha companheira. 
Que eu me volvi á crença veròaòeira, 
Aquella em que na infância tu me viste. 

Chorava ao contemplar-te. . tu sorriste, 
Ao veres-me tornar á fé primeira ; 
E ao teu sorriso, a alma toôa inteira. 
Ficará presa, emquanto ella existe. 

No teu olhar Òe amor e òe peròão, 
]esus ! eu vi a minha reõempção, 
Qual uma estrella, a rebrilhar nos céus ! 

Mentiu, Petrarcha ! o teu saber profundo. 
Não só a Dor — existe n'este munõo. 
Existe a Fé ! a òoce Esperança . e Deus ! 

Júlia Eugenia Silva Òe Pereira. Suspifos, pag. 58, 



PECCADORA 

Oh ! n'ini)uUei Jamais, one fomme qui tombe ; 

Qui liait Bou* quel fardeau, la pauvre âms succombe ! 

Quanòo te vi, mulher, peròiòa, rastejanòo, 
De anòrajos vis, teu corpo esqualiõo coberto ; 
Os cabellos ao vento e sujos, òescompostos, 
Cavaòa a face, o olhar amorteciòo e incerto. 

Quanòo te vi, chegaòa ao extremo òa miséria, 
Sem pão, sem honra, enferma e rota e sem abrigo, 
Lembrei-me que ]esus, remiu a Magòalena • 
Dastava-te a òesgraça e a òôr, por teu castigo! 

Júlia Eugenia Silva òe Pereira. Suspwos, pag. 92. 



Poetisas Portuguesas 137 



D. IZABEL FERREIRA 

D. Izabel Ferreira nasceu em Lisboa. E' filha òe D. Emí- 
lia Maria Pereira (Dama Drazileira), e òe António Bernar- 
ôino Ferreira. 

Desôe criança, revela esta Senhora granòe inclinação 
pelo estuõo õas letras e musica. 

Os seus versos anòam Òispersos por vários jornaes e 
almanachs. 

No Mundo Elegante, publicou osta Poetisa alguns con- 
tos em prosa. 

MÃE 

Ter mãe, é ter carinho, é ter amor 
maõrugaõa Õ'abril, sorriso e flor ; 
aòormecer nas pétalas õ'um sonho, 
para acoròar n'um existir risonho. 

Ter mãe, é ter arrimo e protecção 
Um estro que nos guia — aòoração ; — 
é receber n'um beijo seu a esp'rança, 
aureola òivinal, luz õe bonança ! 



Não ter mãe, é viver na escuriòão ! 
A noite õe invernia, a soliõão ! 
é o ruõe calvário õe uma cruz, 
sem um sorriso, um raio Ôe luz ! 

Não ter mãe, assistir-lhe á agonia, 
é uma cruòelissima elegia. . . 
é morrer òe tortura e ôe afflicção, 
sentinõo esphacelar-se o coração ! 

Izabel Ferreira. Almanach das Sí-nhoras, 1906, pag. 339 



138 Poetisas Portuguesas 



O PODREZITO 

]esus ao encontrar meigo, sorrinôo, 
um pequenito nu, esfarrapado, 
interrogou n'um õoce tom magoado : 
não sentes filho, o frio qu'está cahihõo ? ! 

A creancinha erguendo a fronte loira, 
olhar cheio õe azul, e crença e luz, 
madrugada serena, encantadora, 
respondeu a sorrir ao bom Jesus : 

— Não canta o passarito, o bosque, a flor ? 
a planta, a luz, o dia que se esvae ! 
também tu canto e rio, ó bom senhor, 
sou feli^, tenho mãe e lenho pae ! 

Izabel Ferreira. Almanach das Senhoras, 1901, pag. 255^ 



D. LUIZA FERREIRA 

D. Luiza Ferreira é filha de D. Emiiia Maria Pereira f 
Ôe António Bernardino Ferreira. | 

Irmã da Poetisa D. Izabel Ferreira, as suas produçõe^ 
que também são mimosas, teem sido publicadas em vario^ 
jornaes e, em especial, no Almanach das Senhoras, onôe 
assiduamente tem colaborado. > 

19 D'AGOSTO -^ 

A primavera é como a mocidade, 
Manhã cheia de sol, toda florida ; 
Depois o outono vem .. tarde da vida! 
E da manhã gentil, resta a saudade ! 

Luiza Ferreira. A'manach das Senhoras, para 1909, pag. 
230. 



Poetisas Portuguesas 139 

» 

3 DE MARÇO 

O ôeslisar ô'esta viòa 
não é, não, feito ôe rosas, 
cnõe vão poisar subtis 
as borboletas formosas. 

E' um caminho ô'agruras, 
toôo gemiòos e Ôores, 
Onòe òesmaiam esp'ranças, 
onDe vão morrer as flores . 

Ha mais espinhos que aromas, 
mais tristezas que alegrias 
sauõaões que choram R'alma, 
as mais cruéis agonias ! 

Luiza Ferreira. Almanach de Lembranças, Ôe 1904, pag. 
199, 



í A CREANÇA E A VELHINHA 

\ 

l No meu cantar ôe creança 

\ Não ha sombras ôe amargura ! 

ÍEu chego, e trago a esperança 
Da mais risonha ventura. 
í_ 

£ — E eu que parto ôentro em breve, 

i Levo comigo a sauôaôe 

f Dos sonhos ôa mociôaôe, 

i Que o tempo ôesfez em neve ! 

Luiza Ferreira. Almanach das Senhoras, 1907, pag. 210. 



140 



Poetisas Portuguesas 



D. MARIA IZABEL GAMITO 



D. Maria Izabel Gamito nasceu na Ilha ôa Maòeira. 
filha õe D. ]ulia Gamito (já faleciòa), e õe Salvaòor Gamito.i 

Aos onze anos õe iôaôe, numa inspiração simples ôeí 
criança, compunha esta Senhora os seu primeiros versos.! 

As suas poesias, que não se encontram ainôa reuniõas 
em volume, teem siôo publicaõas no Diário de Noticias, òi, 
Maòeira ; Noticias d' Évora , 'Diarin dos Açores ; O Conini' 
bricense ; Primeiro de Janeiro^ òo Porto ; Diário Illustrado ; 
Correio da Noite ; Echos d' Avenida ; Mala da Europa ; A^ 
Chronica, 5e Lisboa ; e La Temporada, ôe Maôriõ. D. {sa<| 
bel Gamito que é uma ôelicaòa poetisa, colaborou tamber 
em vários almanachs, entre os quaes citarei o Almanach dai^ 
Senhoras. 

PALAVRA SANTA 

Esp'rança é canto õos astros 
Que ouvimos p'la viòa fora, 
E' palavra que sorri 
A' nossa alma que chora, 

O veu branco onòe se prenõem 
Toõos os sonhos òa gente 
Esp'rança é o õivino anceio 
D'aquelle que vive e sente. 



Palpitam risos vermelhos. 
Fogem tristezas ao vento 
Esp'rança é átomo ò'oiro 
Cahinôo no Soffrimento ! 



■fe- 



Maria Izabel Gamito. Lisboa, 1915. 



Pnetisas Portuguesas 141 



INVERNO 

Cáe neve. Canta o vento nos caminhos 
A gelaõa canção õa Invernia ; 
A folhagem õespeôe-se õas arvores 
N'um convulsivo choro òe agonia. 

Cáe neve e chuva. Esforcem-se os açuões 
No espumante arquejar õas suas aguas ; 
Flores e aves abraçam-se morrenòo 
No sombrio estortôr õas granões Maguas ! 



Cáe neve. Canta o lume na lareira 
A õoiraòa canção õas suas brazas. 
Ha rocas õ'onÕe o linho se õesprenõe 
N'um alegre agitar õe brancas azas. . . 

E a avó, que tem as neves õa velhice, 
Conta ás netas — sua viõa e seu calor 
Aquella historia já contaôa e linõa 
D'uma Princeza que morreu õ'amôr . 

Maria Izabel Gamito. Lisboa, 1912. 



VELHOS . 

Ser novo, sim é ser a Luz e a Viõa, 
E' ter rosas na alma õeslumbraõa, 
E' ser feliz ! Que a õôr é para os novos, 
Lagrima que não chega a ser choraõa. 

Risos õe sol, bemõito meio õia 
Que Deus nos pôz nas almas a sorrir ; 
Ser novo é ser a synthese Õa Viõa, 
Razão õo Amor e razão õo Existir ! 



142 Poethas Portuguesas 



Ser velho é ter sauõaões ôe si mesmo 
De rastos nas escarpas òa Ancieòaòe. 
— Os velhos são menòigos ôo Passaòo 
I A menõigar o pão õa Mociòaòe! — 

Maria Izabel Gamito. Lisboa, 1914. 



GIESTA 

(d. branca da sílveira e silva) 

D. Branca òa Silveira e Silva que usa o pseudónimo 
Giesta, nasceu em Lisboa. 

E' filha òe D Maria Henriqueta òa Silveira e ôo general 
António Maria òa Silva. 

Em 1911 e 1912, foram publicaôas no Diário Illustrado e 
nas Novidades, as suas primeiras poesias ainòa com um ; 
certo cunho òe infantiliôaõe. | 

Em 1913, iniciou-se no Jornal O Dia, um interessantissimol 
torneio poético travaòo entre Giesta e Abê (pseuòonimo - 
então usaòo por um òos nossos mais mimosos poetas — 
D. Alberto Bramão), òebate que pela suspensão òo jornal 
referiòo, foi continuado no Diário de Noticias. 

Entre os òois campeões, que tiveram a rara fortuna òe 
constatar que nenhum fora venciôo, trocaram-se 25 sonetos 
acompanhados òe alguma prosa. 

Este original torneio foi encerraòo com uma oòe òe Abê 
publicada no n." 11. de Outubro de 1914, da revista Vida 
Mundana, de que foi redactor e proprietário Luiz Trigueiros. 

Em 4 de Março de 1915, foi levado á scena no Theatro, 
do Gymnasio, a peça em um acto, em verso. Amor de Ma-- 
rinheiro, original desta ilustre Poetisa e que obteve da im- 
prensa justificados aplausos. 



Poetisas Portuguesas 143 

A um òos nossos primeiros theatros foi entregue uma 
ova peça òesta Senhora, em 3 actos, e em alexandrinos, -v, 

- Sangue A^ul, — género regional. " ' 
Em preparação tem D. Branca ôa Silveira e Silva, entre 

utros trabalhos, uma peça histórica. Frei Gtl de Santarém, 
juaimente escripta em alexandrinos. Esta òistincta Es- 
riptora e Poetisa tem colaborado no Diário de Noticias, 
xhos da Avenida, Dia e Nação onõe publicou um artigo 
ititulaõo : A' memoria da Rainha Senhora D. Maria Pia. 

SAUDADE 

(inédito) 

auòaôe !. . . Quanta vez o teu nome sagrado, 

- sem nome, que traduz a mais lenta tortura — 

;m ser comprehendido é por nós murmurado, ^ 

pmo inconscientemente a criança o murmura !. . . 

'uantas vezes Saudade, és tu banalisada 

;las almas que nunca ao teu pungir se abriram, 

le em qualquer recordar te imaginam gravada, 

;ie julgam conhecer-te e nunca te sentiram !. . . 

L 

íi)de viver em nós a suave lembrança 

f alguém que nos deixou mas voltaria um dia; 

saudade côr de rosa, ou verde como a esperança, 

ce recordação que embala e acaricia. 

Mas tu, a eterna dòr por um eterno ausente, 
liaudade fatal, a saudade que mata, 
firtirio que trucida a alma lentamente 
hm noites de vigília em prantos se desata, 

"és triste como a cruz que vela um condemnado 
luz que em negro templo alumia um sacrário ; 
éroxa como a flor que recorda o teu fado 
€ veste que Jesus levou para o Calvário. 



144 



Poetisas Portugansas 



A verõaôeira és tu, SauÔaòe roxa e triste : 
não merece o teu nome a sauòaòe que espera 
SauÔaòe. . ., é a õor fatal que no peito onõe existe, 

veste Ôe luto a viõa, a esmaga e dilacera. 
Sauòaõe, é isto, — só — : Mar imenso e profunõo 
aonôe a alma se afunda e morre para o Munòo. 

Giesta. 1916. 



DIA DE ANNOS 



Annos são rosas que murcham, 
astros cadentes que correm ; 
annos são prantos que nascem, 
annos são risos que morrem. 

São o despertar das horas 
que passamos a sonhar ; 
são illusões que nos fogem 
com saudades a voar. 

São folhas secas, esparsas, 
porque os vendavaes as partem ; 
são corvos negros que chegam, 
são andorinhas que partem. 

Annos são ondas revoltas 
CHie, depois de encapelar, 
se desfazem num rochedo 
para nunca mais voltar. 

Giesta. Ahnanach das Senhoras^ de 1915, pag. 15. 



Poetisas Portuguesas 



145 



ESTRELA DO NORTE 

íiNEono) 

(N'um álbum) 

Ha tantas, tantas estrellas, 
pelo céu, a scintillar . ■ 
E no munõo, ha tantos olhos 
onôe poisa o nosso olhar. . 

Caminheiro vagabunòo 
que, õe noite se peròeu, 
para encontrar o caminho, 
perscruta os astros ôo ceu 

As almas tristes, errantes, 
que anôam no munõo sem par, 
nos olhos 0'alguem procuram 
a sua estrella polar. . 

Mas quanto tempo se passa 
buscando o fanal òa sorte ? ! 
— Se ha tantos milhões õe estrellas, 
Mas — uma só — é õo Norte ! . . 



l Giesta. 1914. 



D. JÚLIA DE GUSMÃO 

D. Júlia õe Gusmão, a inteligente, simpática e instruiôa 
'í 2nhora ôe que neste momento se.occupa esta Antologia, 
f- isceu em Lisboa, a 21 ôe Outubro õe 1835. 
í Apesar õisso, a sua letra é õe tal maneira firme e o seu 
•« zer tão elegante e apropriaõo, que ninguém Õirá partirem 
l 10 



146 Poetisas Portuguesas 

esses escriptos òe quem já conta 81 anos ôe iòaòe, muitas 
vezes perturbaòos por granòes desgostos, como foi o b; 
perõa ôe sua queri^a mãe. 

Foram seus pães D. Maria José ôe Mello e Joaquiir 
Victor Õa Silva Teixeira ôe Gusmão, 1." Oficial Ôo Ministe 
rio ôa Justiça. 

Aos 10 ou 11 anos, começou D. Júlia ôe Gusmão a es 
crever linhas rimaôas, ôas quaes só tinham conhecimentc 
sua mãe e seu pae que se comprazia em emenôar-lhe o? 
erros Ôe metrificação. 

Quanôo essas linhas começaram a merecer o nome ôt 
versos, alguns foram publicaôos em varias revistas, a pe 
ôiôo Ôe amigos ôe seu pae, que com ôesvanecimento, lhe 
havia mostraôo as proôuções poéticas ôe sua filha. 

Passaôos anos, um ôia, encontrou-se esta Poetisa num 
sala com Thomaz Ribeiro, que tenôo-lhe ouviôo recita 
algumas' ôe suas poesias, peôiu licença para as publicai 
Apareceram na Revolução de Setembro, acompanhaôas ô' 
uma elogiosa carta Ôo auctor ôos Sons que Passam, ôirigiò 
a Matheus Ôe Magalhães, encarreganôo-o ôe apresentara 
poesias ôe D. Júlia ôe Gusmão no jornal ôe que ele er, 
então folhetinista. 

Mais tarôe, em 1867, esta Senhora publicou um livro! 
versos — Flores Singelas — prefaciaôo por Pinheiro Cha 
gas, que a pag. 10, ôiz: 

«Eu tenho a firme convicção ôe que este volume ha 
obter successo porque tem a granôe qualiôaôe que falt 
maior parte ôos livros ôe poesia contemporânea, é verôí 
Ôeiro, é espontâneo, é o ôesborôar ingénuo ôe uma aitn 
que não quer represar as suas sensações e que as ôeix 
ôesabrochar e fulgir ao sol ôa poesia, como as flores «n 
valhaôas pela aurora, e surprehenôiôas pelo astro explen 
ôiôo». 

Em 1900, foi-lhe confiaôa a ôirecção ôo Q^lmanachéí 



Poetisas Portuguesas 147 

Senhoras onõe õeixou muitos escriptos seus, em prosa e 
verso. 

Em 1911, por falta òe sauôe, õeixou esse cargo, que 
exerceu sempre com a maior meticulosiõaòe e õeõicação. 

Entre muitos jornaes e revistas em que colaborou D, 
Júlia òe Gusmão, poõerei citar : Almanach das Senhoras e 
òe Lembranças, Diário de Noticias, Archivo Lisbonense, 
Boudoir, õMundo Elegante e Brapl e Portugal. 

Nesta ultima revista, escreveu um artigo acerca õa morte 
ôa sua granõe amiga D. Amélia ]anny, o qual ôepois publi- 
cou em folheto. 

Alem òoutras traõuções, fez a ôe Le Disparu ôe A. Dau- 
ôet. 

ALÉM 

Nos raios òo luar, no brilho òe uma estrella, 
no perfume subtil òo jasmineiro em flor, 
no branco ciciar òa brisa que á noitinha 
perpassa junto a mim n'um sopro acar'ciaòor, 

Eu julgo presentir o frémito ò'uns lábios, 
um som meigo e sauõoso, um echo, a voz ò' Alguém 
que Deus chamou a si, que além, no ceu existe, 
sorrinòo para mim òo mysfrioso Além ! 

E a voz que eu julgo ouvir no lume Òas estrellas, 

nos raios òo luar, na emanação òa flor, 

no ciciar òa brisa, o som que me inebria, 

eu creio • • vem òo Além fallar ò'um santo amor. 

Além ,! ponto òe esp'rança ! irraòiação òivina ! 
orvalho matinal nas anciãs òe soffrer ! 
pharol a illuminar na senòa òa existência 
o pouco que me resta ainõa a percorrer I 

]ulia òe Gusmão. Almanach das Senhoras, Lisboa, 1909, 
39." anno), pag. 376. 



148 Poetisas Portuguesas 



N'UM JAZIGO 

Ha sauôaôes õe sauòaôes, 
e são as mais lancinantes ! 
Quem me õera ter agora 
sauôaôes que eu tinha ô'antes ! 

Ajoelhaôa em teu jazigo, 
Oranôo, pensanôo em ti, 
eu sinto enorme sauôaôe 
ôe sauôaôes que soffri. 



]ulia ôe Gusmão. Almanach das Senhoras, 1901, pag. 338. 



IVALDA 

(d. ALICE MONTEIRO LEITE) 

D. Alice Monteiro Leite nasceu na ciôaôe ôo Porto. 

E' filha ôe D. Emilia C. G. Monteiro e Ôe EôuarÕo F. Leite, 

Seu avô António Luiz Monteiro, natural ôe Coimbra ser- 
viu como voluntário õa Rainha e foi um dos mil e qui- 
nhentos bravos que desembarcaram no Mindello e entraram 
no Porto com D. Peôro IV. 

Pelos seus feitos militares, foi-lhe conferiôo pelo aluôiôo 
monarca, o grau ôe Cavalleiro da Torre e Espada, senôo a 
primeira pessoa agraciaôa com tal Ôistinção, na Invicta Ci- 
dade, onôe morreu (exercenôo o cargo ôe tabelião), e está 
sepultaôo. 

Sobre o seu tumulo, ha as seguintes palavras que foram 
escriptas a seu peôiôo : 

«Esta viôa Ôeixo contente: servi a minhaPatria, ameia 
minha gente». 



Poetisas Portuguesas 149 

Desõe criança, que D. Alice Monteiro Leite sente pro- 
pensão pelas letras. 

Tenòo feito os seus primeiros estuõos nos melhores co- 
légios Õo Porto, não pouõe por falta òe sauõe matricular-se 
num curso superior, como era seu òesejo. 

Por outro laõo, seu pae citava-lhe, sempre, o exemplo 
ôe escriptores morrerem õe fome, em Portugal, e que ver- 
bos só Junqueiros os beviam fazer. 

Apesar Òe tão juôiciosos conselhos, Ivalda (tal é o pseu- 
dónimo que esta Senhora escolheu para firmar algumas òe 
suas poesias e escriptos em prosa, publicaòos em jornaes 
portugueses e brazileiros), não òesanimou em absoluto : 

«Calaòa e òesconsolaòa, mais procurava então viver a 
sós comsigo mesma, estuòanòo as obras òo granòe poeta 
<Guerra Junqueiro), relenõo-as, òecoranòo-as, procuranòo 
òecifrar-lhe os mais Íntimos segreòos, as mais alaòas ins- 
pirações òo genio>. 

Assim, òeu principio a um poema, que tem quasi con- 
cluiôo e que se intitula : A Terra. 

Provanòo que Ivalda aproveitou com a leitura òo auctor 
òos Simples e òa Morte Òe D. João, òi-lo o seu trabalho 
literário a que me refiro. 

Por ser granòe o trecho que òesse poema li, não posso, 
como queria, òar òele um specimen. Porém, nas poesias 
Semente pequenina e Quero sonhar..., os leitores encon- 
trarão certa compensação á falta que aponto. 

A actual guerra, nas suas variaòissimas manifestações, 
em que o cumulo òa barbariõaòe, òo sofrimento e òa he- 
roiciòaòe a caòa passo se chocam, forneceu a esta ilustre 
Poetisa e Escriptora tema para uns curiosos e bem feitos 
artigos, que tem publicaòo com o pseuòonimo que usa, em 
vários números Òo Commercio do Porto. 



150 Poetisas Portuguesas 



SEMENTE PEQUENINA 

Eu vi uma semente pequenina 
Que sonhou ser na fria escuriôão, 
A Flôr gentil — a Forma peregrina 
Da sua concepção. 

Nasceu a folha. O Sonho òa semente 
Foi crescenôo como ella . . Então pensava 
Não era só a flôr somente, 
Aquillo a que aspirava . . 

Mais tarôe a flôr, encerrando, esconòiôa. 
A pura essência õ'essa aspiração, 
Fez-se Perfume — foi, n'uma outra viôa, 
A luz ò'um sonho, a voz õ'um coração ! 

Ivalõa. Lisboa, 17 Òe Setembro Ôe 1915. 



QUERO SONHAR. . 

Quero sonhar um sonho tão suave 

Como um beijo õe flôr : 
Sonho, em que o pensamento seja ave ; 

Beijo, que seja amor ! 

As aves também sonham quanõo cantam 

A' tarôe, ao pôr õo sol. . 
Ha trinados õ'amor, que nos encantam. 

Na voz õo rouxinol ! 

E eu oiço dentro em mim também um canto 

Que sempre me enamora ; 
Que me õiz o que ri e sente e chora 

Sem eu ver riso ou pranto ! 



Poetisas Portuguesas 151 



Que me conta os segreôos òos vallaòos, 

Os segreôos ò'amor. • . 
Diz-me se a ave, voanòo sobre os praôos, 

Inveja alguma f!ôr. . . 

Se, ainòa rasteira e humilõe, a hera aspira 

A erguer-se para os céus, 
E Õepois, ao mirar-se, se suspira 

D'amor nos sonhos seus . . . 

Se o lyrio ao ver a abelha ancioso. 

Tonto òe meõo e ôôr, 
Venòo-a roubar-Ihe o néctar precioso 

— Alma gentil õa flor ! 

Se tuòo que na terra existe e vive, 

Do loôo á creatura 
Anceia, sonha, morre e, emfim, revive 

Na própria sepultura. . 

Diz-me os segreôos que a natura esconòe 

E só quem soffre vê. • - 
Que palpitam na flor, na ave, e mesmo aonõe 

Ninguém, ninguém os crê ! 



Quero sonhar a viõa que presinto 

Em torno a mim, 
E quero ouvir o palpitar, que eu sinto. 

Em tuôo, emfim ! 

A viôa tem encantos reservaôos 

Que eu quero ter 
Com os meus olhos ô'alma, enamoraôos 

De tanto vêr ! 



Ivalõa. 



152 Poetisas Portuguesas 



D. AMÉLIA JANNV 

(a poetisa do MONDEGO) 

D. Amélia Janny, era natural òe Coimbra, ciôaõe onõé^ 
faleceu a 19 Ôe março õe 1914, contanòo 73 anos õe iòaôe. 

Desta Poetisa ôiz o senhor Pedro Eurico (Pinto Osório), 
no seu livro Figuras do Passado, Lisboa 1915, pag. 210: 

«A senhora D. Amélia Janny provém ôe uma família que 
tem os mais ilustres pergaminhos literários, ôe que poõe 
orgulhar-se esta vila ! ' De uma família, em que os ôotes 
privilígiaôos õa intiligencia e õo talento foram património 
comum ôe toôos, cujos nomes aínôa anôam na memoria 
ôos vivos !» 

«O Sábio D. Francisco ôe S. Luiz — Carôeal Saraiva; 
António Correia Calôeira, eloquente parlamentar e ôistin- 
tíssimo homem publico ; o poeta Luiz Correia Calôeira, têm 
os seus nomes inscriptos nas folhas ôe ouro ôa historia, ôa 
literatura e ôa politica ôo nosso paiz !> 

«Frei Luiz Saraiva irmão ôo Carôeal, foi lambera homem 
muito inteligente e instruiôo ! 

E num artigo acerca ôa morte õe D. Amélia ]anny ôiz O 
Dia Ôe 8-7-1914: 

«Ella fazia versos pelo menos, ha 58 annos, pois que aos 
14 ôa sua eõaôe como poetisa fora apresentaôa a António 
Feliciano ôe Castilho em 1856, ficanôo ôesôe então consa- 
graôa, e senôo Xavier Corôeiro o paôrinho ôa apresenta- 
ção. > 

«E foi uma poetisa de verdade, no sentiôo ôe se restrin- 
gir ao sentimento, pois que hoje mais ôo que nunca, se torna 
mister ôifferençar entre poetas ôe sentimento e poetas õe 



1 PoQte de Lioia. 



Poetisafi Portuguesas 153 

arie ; e se aquelles vão passando, ô'estes muitos temos hoje, 
perfeitíssimos na forma, talentosos na concepção, que en- 
tusiasmam e recebem incensos õa critica, e mais ainõa õo 
noticiário, embora noticiário e critica por vezes sejam sus- 
peitas pelas camaraderies òas clientelas. > 

D. Amélia Janny tomou parte no celebre sarau realisaõo 
no Teatro Académico, em maio ôe 1862, festa em que esti- 
veram alem òa Acaòemia, Castilho e Teófilo Braga, que re- 
citaram versos ; Guerra Junqueiro que pela primeira vez 
aparecia ante a Acaòemia, e que também recitou, e Anthero 
õo Quental que leu alguns õos seus versos, que òepois in- 
cluiu nas Odes Modernas. 

Das Figuras do Passado (pag. 215), transcrevo o que Òisse 
Castilho, òe D. Amélia Janny, quanõo òessa festa, õaõo que 
o auctor ôesse livro extratou òa Conservação Preambular 
do D. Jaytne, l.a eòição, 1862: 

«Como que simbolisanòo a Musa òo Monôego, uma gen- 
til poetisa, veio, nova Sapho, merecer n'este certamem co- 
roa òe louros e murtha.> 

«Ditosa filha òe Coimbra ! com os teus òonosos vinte anos 
em flor ; com a tua voz suave e timiòa, como o aroma exa- 
laòo òa tua alma 1» 

«Amélia Janny 1 peròoa-me, se hoje òiante òo maior pu- 
blico, te renovo os meus aplausos.> 

Os primeiros versos òe D. Amélia Janny foram publica- 
ôos no n." 11 òo Cysne do Mondego. Publicou poesias nos 
Prelúdios Liiterarios ; Estreia Literária; Portugal Pitto- 
resco ; Panorama Photographico de Portugal (jornaes lite- 
rários òe Coimbra) ; Almanachs das Senhoras, Luso Brasi- 
leiro, òo Commercw do Lima, eíc, etc. 

D. Amélia Janny nunca reuniu em volume as suas poe- 
sias. 

Ultimamente estava òisposta a faze-lo, ajuòaòa pela ilus- 
tre escriptora e poetisa, a Senhora Marqueza òe Pomares, 
òesignio a que a morte poz termo. 

No Brasil e Portugal (essa bela revista que infelizmente 



154 Poetisas Portuguesas 

òeixou õe se publicar), 5e 1-4-1914, escreveu D. Júlia õe 
Gusmão um artigo comemoranòo o passamento õe sua 
granòe amiga — A Poetisa do Mondego. 

AOS ANNOS DE MINHA MÃE 

A ti, que òebruçaòa no meu berço, -^ 
Por noites Õe amargura e Õe agonia. 
Velaste, coração em ôôr submerso, 
Abrazaòa na febre em que eu arôia ; 

A ti, que me ensinaste entre mil beijos, 
A louvar o Senhor em caôa aurora, 
Que encerraste as esperanças e os òesejos 
Em vêr-me alegre e forte õ'hora em hora ; 

A ti, que òa affeição fazenõo escuõo, 
Affrontaste o rigor õe atros õestino. 
Que ao õeixares, por mim, família e tuõo 
O teu seio õe mãe soltava um hymno ; 

A ti, ó minha Mãe 1 martyr obscura. 
Que percorreste a via Õolorosa, 
Forte õo teu amor, com mão segura, 
A amparar-me, a sorrir-me carinhosa ; 

A ti, que eu vejo sempre, se a õoença 
Me entristece, me abate e curva a fronte, 
}unto õe mim, qual brilha em noite õensa. 
Uma estrella surginõo no horisonte ; 

Livro em cujas paginas eu leio 

Um poema õe amor e õe ternura, 

Voz — como outra não ha — , seguro esteio, 

Reprehensão que sorri ; perõão que Oura ; 



Poetisas Portuguesas 155 



Olhar em que se espelha o affecto immenso, 
Onõe vão reflectir-se as minhas òôres ; 
Abrigo sem igual, luz Ôo que eu penso, 
Mystica urna ôe immurchaveis flores, 

A ti, no Òia ôos teus annos, òera 
A alegria, que em prantos consumiste, 
Os folgueòos õa tua primavera. 
Em vez Õa tua viôa amarga e triste ! 



Amélia Janny. Fiouras do Passado, por Peõro Eurico-, 
Lisboa, 1915, pag. 217 e 218, 



CAMARÁ ARDENTE 

No luxuoso salão õe purpura forraòo, 
Avista-se uma urna em peòestal ôoiraôo. 

Sobre ella onòeia e treme a chamma òe mil lumes ; 
Respiram-se no ar suavíssimos perfumes ; 

E sobre o pavimento, em profusão Òe cores. 
Alastram-se festões Õe peregrinas flores. 

Em õesalinho, solta a farta e longa trança, 
Suspira ajoelhaõa e muribunõa a Esperança ; 

E Õefronte, gentil e bello como a aurora. 
Na urna õebruçaõo, o Amor soluça e chora, 

E quanõo esmorecia o som õa résa. 
Trahiõa a meia voz Õos lábios õa Tristcijfa. 

E se iam apaganõo os últimos clarões 
Dos cirios funeraes e õas mortas illusões ; 



156 Poetisas Portuguesas 

Então, com mão febril, fechei o athauõe 
Onõe ficava morta a minha Juventude ! 

Amélia Janny. Figuras do Passado, por Peõro Eurico, 
pag. 206 e 207. 



SONETO 

O sino repicara alegremente 
Chamanòo á festa a gente òo povoaòo ; 
Para ouvir um oraòor muito afamaòo, 
íuõo ia ligeiro e impaciente, 

Vivera ali, creança e aòolescente, 
Pelos montes errante, a guaròar gaòc : 
Orôenára-se á custa õo morgaõo. 
Homem pieòoso, bemíazejo e crente. 

Ficara bom : nunca esquecera aquella, 

Que ao peito seu, tão pobre e amanôo-o tanto, 

Tanta vez o levara a essa capella ! 

Sobe ao púlpito, emfim, sob esse encanto ; 
Mas na turba só vê a imagem õ'Ella, 
E desce, sem fallar, banhaõo em pranto 1 

Amélia Janny. Almanach das Senhoras, 1908, 38.° ano, 
Lisboa, 1907, pag. 218. 



Poetisas Portuguesas 157 



D. GERTRUDES FERREIRA LIMA 

(humilde camponeza) 

D. Gertruões Ferreira Lima era natural ôe Santo Antão, 
uma õas ilhas que no archipelago õe Cabo-Verôe formam 
o grupo de Barlavento, ao qual pertence também a ilha Òe 
S. Vicente, notável pela sua magnifica situação geográfica, 
importantes ôepositos ôe carvão e amplíssimo, seguro e 
belo porto. 

Falar Òe D, Gertruões Ferreira Lima que foi uma se- 
nhora muito inteligente e instruiõa, eôucaòa no extincto 
colégio õas Urselinas, em Coimbra, é recorõar os primeiros 
anos Õa infância passaõos na minha terra natal, nessa al- 
cantilada e muito pictoresca Suissa Caboverdiana- 

Falar õa ilha Õe Santo Antão, é trazer á memoria a bra- 
veza celebre e inõomita õo seu mar, que por vezes, vem 
beijar as primeiras casas õa Villa D. Maria Pia e as lan- 
chas que, para fugirem á fúria õa suas vagas, são arrasta- 
õas até á rua principal Õa povoação. 

Falar õo seu mar, é ainõa lembrar essas gigantescas 
onõas que, galganõo o granõe pareõão õo cães, se õesfa- 
2em, em altas colunas õa mais branca espuma. 

Falar õas suas tempestaões, é avivar a lembrança õesses 
ôestemiõos marinheiros, tão familiarisaõos com os perigos 
õa sua profissão. 

Falar õas suas interessantes, e quasi sempre formosas 
ribeiras, é recorõar esses singulares e perigosos caminhos, 
talhaõos nos montes, montanhas e rocheõos, mais aõquaõos 
a passagem Ôe animaes, que Õe gente, assim como as pri- 
mitivas e simples povoações e logares, que no seu percurso- 
se encontram. Lembrar esses caminhos, é rememorar ver- 
õaõeiros abysmos em que a vista se perturba, e aos nossos 
ouviõos chega o sussurro longínquo e lúgubre õo mar Ões- 
fazenõo-se õe encontro ás peneõias ! 

Falar õa Ilha õe Santo Antão õe Cabo-Verõe é evocar 



158 Poetisas Portuguesas 

as historias ingénuas õe jitecéras e gongons, (feiticeiras e 
ôuenòes), por mim ouviôas quanòo criança. 

Falar õa Ilha òe Santo Antão é registar alguns nomes 
ilustres õe seus filhos, como Roberto Duarte Silva, chimico, | 
notável, que foi professor em Paris, onòe era muito consi- 
òeraõo ; os õistinctos meõiccs Drs. Bernaròo ]o£é òe Oli- 
veira, Joaquim Esmeralôo Nobre, ]oão Gualberto Pinto e 
Oliveira Teixeira ; o engenheiro Lima ; e os oficiaes ò'ar- 
tilharia Viriato Gomes õa Fonseca e Luiz Nobre õe Mello ; 
o mais jovem õos professores õa Universiõaõe õe Lisboa, 
Dr. Martinho Nobre òe Mello, logar que alcançou em bri- 
lhante concurso publico ; o poeta Januário Leite, etc, etc, 
não õevenôo também ôeixar õe mencionar os nomes õ'ou- 
íros não menos ilustres Caboverõianos, como o Dr. Fran- 
cisco Freõerico Hopffer, coronel meõico, e ilustre homem 
òe sciencias, Acaõemico e publicista ; }osé Maria õe Sousa 
Monteiro, òistinctissimo Acaõemico e escriptor, auctor õe 
Sonetos, ^Poemas Mysiuos, O uuto dos Esquecidos, etc. ; o 
Marquez õe Fontes (Dr. António Maria õe Fontes Pereira 
òe Mello Ganhaõo) ; os Drs. João Augusto Martins ilustre 
meõico e escriptor, auctor õo livro Cabo- Verde, Madeira e 
Guine ; Dr. Freitas e Cosia, Dr. Jorge Portella e Praõo. 
Dr. Júlio José Dias, Dr. João òe Sousa Machaõo e Dr. 
Henrique õe Vasconcellos, poeta, prosaõor e Õeputaõo por 
Cabo-Verõe ; os oficiaes õ'Armaòa Christianos José òe 
Senna Borcellos, Acaõemico e auctor õos Subsídios para a 
Historia de Cabo- Verde e Guine e Borja õ'Araujo ; os ge- 
neraes Sérvulo õe Paula Meõina e Henrique õ'Almeiõa 
Leite ; José Barbosa, leaõer õo partiõo Unionista e Vera 
Cruz, 1." senaõor por Cabo-Verõe ; Simplício João Roõri- 
gues õe Brito consiõeraòo primeiro pintor òa Corte õo Bra- 
zil ; Simão Manoel Alves Juliano, cujo ousto figura na pra- 
ça òo Comercio õo Rio õe Janeiro, como um õos benemé- 
ritos òa navegação, etc, etc. 

Como poetas citarei os nomes õe Meõina e Vasconcellos ; 
Eugénio Tavares; José Lopes; Guilherme Dantas; José 



Poetisas Portuguesas 159 

BernarÕo Alfama, etc. e tantas outras inõiviòualiòaôes que 
nos vários conhecimentos humanos se teem òistinguiôo. 

A titulo õe curiosiôaõe õou o nome õe alguns nacionaes 
e estrangeiros que se teem ocupaòo õe Cabo-Verõe : 

João ôa Silva Feijó ; Félix António õe Brito Capello ; 
Lopes õe Lima, António AlfreÕo Barjona õe Freitas — que 
foi õistincto governaõor õe Cabo-Verõe; o general Au- 
gusto Fructuoso Figueireõo õe Barros, antigo e muito ilus- 
tre secretario Geral õe Cabo-Verõe, a quem essa provin- 
da muito õeve ; João Carõoso Júnior, sócio õas Acaõemias 
ôas Sciencias õe Lisboa e õe Portugal, auctor õos Subsídios 
para a Matéria Medica e Terapêutica das Possessões Ultra- 
marinas Portuguesas, e õas Cryptog arnicas das Ilhas de 
CaboVerde, etc. ; Ernesto õe Vasconcellos ; AlfreÕo õa Costa 
Anòraõe ; Chelmiki ; Francisco A. õe Varnhagen ; Dr. Bru- 
ner ; Darwin ; Dr. SchmiÕt ; Dampier ; Eveleight ; Melikon ; 
Saint Claire õe Ville ; Stubel, Frieõlaenõer, etc, etc. 

D. GertruÕes Ferreira Lima foi uma õas cclaboraõoras 
5o Almanach Luso- Africano para 1895; também publicou 
ji/arias poesias no Almanach de Lembranças. 

SAUDAÇÃO 

Eu vos sauõo magestosas serras, 
Montes e valles, verõejantes plagas ! 
õoce mysterio que na gruta encerras, 
perfumes õa tarõe, harmonias vagas ! 

Eu vos sauõo laranjaes floriõos 
ribeiro manso que o luar pratea ? 
celestes lumes õa ampliõão cahiõos 
fronõente ramo que p'ra Deus s'altea ! 

Eu vos sauõo murmurosas aguas, 
que meigas falias segreõaes ás flores, 
õo peito triste minoranõo as aguas 
e o curtimento õe profunõas õôres ! 



160 Poetisas Portuguesas 

Eu vos sauòo, toòos vós, n'est'ancia, 
e, hoje, a mente n'esta augusta hora : 
relembra mais a minha, òôce infância, 
prazer suave que minh'alma aôora. 

Ah ! que sauòaõe n'este peito enfermo 
òa pobre mãe que foi gentil e meiga ! . . . 
amor õivino que enflora o ermo, 
matiz rizonho que tapiza a veiga ! 

Oh ! como sinto um turbilhão ò'iòeias 
aqui sosinha contemplanòo os montes, 
Virentes cumes, crystalinas veias, 
ouvinôo meigo o sussurrar õas fontes ! 

E* que hoje lembro com tristeza infinòa 
riôentes plainos, outro campo bello, 
affectos puros, como a aurora linòa, 
ou como òas aves o cantar singelo. 

E vós, perfumes òe manhã festiva, 
fulgente estrella òe pallôr formoso, 
quebrae-me as peias porque sou captiva 
levae-me áquelle Portugal formoso. 

Humilde Camponeza (Gertruões Ferreira Lima). Ahtiú 
nach de Lembranças^ para 1893. pag. 214. 



ALBERTINA DE LUCENA 

(d. MARIA DE MONTAURY DO NASCIMENTO) 

D. Maria Albertina õe Montaury òo Nascimento nasceu e 
Lisboa a 6 òe julho òe 1879, senòo a mais nova òos filhí 
Peòro Augusto õo Nascimento, já faleciòo e Òe D. Mar 
Leopolòina òe Oliveira Òe Montaury. Por sua mãe, é âç 



Poetisas Portuguesas 161 



ôe Marco António õe Azeveõo Coutinho Ramos õe Mon- 
taury, senhor ôo morgaòo õe Chorozeira, na freguesia õe 
Alõeiagavinha, concelho Ôe Alemquer, Fibalgo õa casa 5e 
El-Rei Dom João V7I. e õe sua esposa D. Antónia Canòiôa 
Ò'01iveira, irmã ôo Senaòor õo Império, òiplomata e mi- 
nistro ôo Estaõo brazileiro — o granôe matemático Canôiôo 
Baptista ôe Oliveira ; bisneta ôe Marco António ô'AzeveÔo 
Coutinho, moço ôa Camará ôe D. Maria I, em cuja quali- 
ôaòe acompanhou a Família Real ao Brazil, Fiôalgo Caval- 
leiro ôa Casa Real e ôe D. Catharina Ramos Ôa Silva ô'Eça, 
senhora ôo citaôo Morgaôo Ôe Chorozeira ; terceira neta ôe 
João Baptista ô'Azeveôo Coutinho ôe Montaury, governa- 
ôor ôo Ceará Granôe, Tenente General e Governaôor ôas 
Armas ôa Corte ôo Rio ôe Janeiro, etc; quarta neta ôe Mar- 
co Antoiio ôe Azeveôo Coutinho ôe Montaury, general e 
governaôor ôo Rio ôe Serra ; quinta neta ôe Marco Antó- 
nio ô'Azeveôo Coutinho, Enviaôo Extraorôinario e Ministro 
plenipotenciário nas Cortes ôe Paris e Lonôres, Fiôalgo Ôa 
Casa Real, Secretario ôos Negócios Estrangeiros e ôa 
Suerra, (o 1." que houve nestas Repartições), e ôe Nicole 
: lulie ôu Poeta, Conôessa ôe Thiange e Marqueza ôe Mon- 
f aury (origem ôos Montaury em Portugal) ; sexta neta ôe 
jíBartholomeu ô'Azeveôo Coutinho Governaôor ôa Provin- 
da ôa Beira e Fiôalgo ôa Casa Real; sétima neta ôe Jorge 
ie Azeveôo Coutinho ôe Mesquita ; oitava neta ôe Sebas- 
ião ôe Lucena ôa Azeveôo Coutinho, Alcaiôe Mór ôe Portel, 
I Guarôa Mór ôe Lisboa no tempo ôa peste ; nona neta Ôe 
^'asco Fernanôes Ôe Lucena, Alcaiôe Mór ôe Pernambuco. 
Em homenagem á varonia ôa casa ôe sua mãe, que é 
ucena, é que D. Maria Albertina ôe Montaury ôo Nasci- 
lento usa o pseuôonimo ôe Albertina de Lucena. Pela casa 
li Chorozeira esta Senhora entre outros antepassaôos 
;;istres, conta a Mathias Ayres Ramos ôa Silva ô'Eça, que na 
ia qualiôaôe ôe Familiar ôo Santo Oficio, protegeu muito 
infeliz António José ôa Silva, o judeu, poeta satírico no- 
vel e a ultima victima ôa inquisição em Portugal. 

11 



162 Poetisas Portuguesas 



D. Albertina de Lucena tem colaboraôo na Nação, òe qi 
é muito ilustre Director o apreciado Jornalista Sr. Joãií 
Franco Monteiro, que teve a amabiliôaòe òe me íornecg 
estes elementos, nos Echos da Avenida, na Semana lllui 
irada, e no Almanach de Lembranças. 

Durante õois anos, D. Albertina de Lucena teve um jo» 
nalsinho que era unicamente escripto por ela : a principie 
feito á mão, òepois em copiografo. O Vigilante se intitU' 
lava esse curioso semanário. 

Os seus primeiros versos õatam òos òesasete anos. 

^ ]Á TARDE 

Encontraram-se um òia n'uma estraõa 
Dois pobres que se haviam conhecido 
Em tempos õe ventura ; hoje sem naòa 
Choravam tobo o bem que era perõiõo. 

Passa o Destino, e olhanòo-os òesòenhoso 
Ergue a voz, com solemne magestaòe 
Dizenòo-lhes : — «Sou eu o Poderoso 
Que esmaga a mais indómita vontade. 

«Eu fiz de vós, quem éreis, e quem sois ; 
De felizes, tornei-vos desditosos ; . » 
Os velhinhos olharam-no, e os dois 
Apertaram-se as mãos silenciosos 

«Eu sei que fui cruel, despiedado; 
Dizei hoje, uma vez, o que é que quereis ; 
Sou clemente, farei que o vosso fado 
Inda possa mudar, pedi, vereis !> 

Mas os pobres, serenos, alheiados. 
Apenas levaram, cheios d'espanto. 
Os olhos para o Céu ; tristes, pezados 
Uns olhos todos magua, todos pranto. 



Poetisas Portuguesas 163 

E o Destino insistiu : — «Então, peõi ! 
Serei o vosso pai, bem tarôe, embora». 
Elles então òisseram : — Pai, parte 
E tarõe já ; ôeixai chorar quem chora !> 

Albertina õe Lucena. Novo Almanach de Lembranças, 
para 1917, pag. 148. 



BERTHA LUPI 

Apesar òe não ter obtiòo a tempo, os elementos òe que 
carecia para poõer fazer mais õetalhaõamente a biografia 
besta illusíre Poetisa, não quiz õeixar õe incluir o seu nome 
sntre os ôas Senhoras que cito. 

1 D. Dertha Lupi é uma ôas Damas que tem escripto na 
^agina Feminina que o iJiar.o Nacional publica ás 5." 
eiras. 

í; Entre muitas outras Senhoras, teem colaboraòo em prosa 

í' verso, nessa interessante pagina literária e artística, õe que 

[í ôirector o Dr. Annibal Soares : D. Domitilla õe Carvalho, 

5). Branca õe Gonta Colaço, D, Maria õe Carvalho, D. 

\ecia Mousinho õe Albuquerque, D. Maria Leonor Reis, 

;>. Alice Monteiro Leite, D. Albertina Paraizo, D. Canõiõa 

yres õe Magalhães, D. Elisa Baptista õe Sousa Peõroso, 

'. Maria Magõalena Trigueiros õe Martel, Marqueza õe 

io Maior, D. Isabel õ'Ornellas, Conõessa õe Vinho e Al- 

■ eòina, D. Maria Emília Telles õa Silva, D. Maria Õe Len- 

istre (Alcáçovas), e D. Maria õe Sampaio Forjaz õe Tri- 

ueiros. 

DISTRAHIDA 

Oiço ás vezes Õizeres agastaõo 
Que sou, sem ter emenõa, Õistraiõa ; 
Que vivo em munõo á parte e ignoraõo 
Em terra que te é õesconheciõa. 



i 



164 Poetisas Portuguesas 

Que tenho sempre o espirito afastado 
De tuòo o que me cerca, aborreciòa, 
Com o pensamento em mim só concentraõo. 
Distante, alheia ás coisas ò'esta viõa. 

Talvez tenhas razão, talvez a õôr 
De ver tanta malòaõe sem remeõio — 
Me traga ao coração este amargor. 

Talvez eu queira então no meu torpor. 
Fugir Õo munòo que me causa teõio 
E viver só meu sonho toòo amor. . . 

Dertha Lupi. Pagina Feminina, 5o Diário Nacional, }k 
2-2-1917. 



-I 



1 



AO ESPELHO CRUEL 

Por ti, ó espelho, eu tinha antigamente 
Uma paixão pueril e orgulhosa, 
Queõava-me esqueciõa em tua frente 
Horas sem fim a contemplar- te, ociosa. 

Acreditava então òe boa mente 
Que eras sincero e a sorrir venturosa, 
Só a ti aõorava ingénua e crente 
Como enlevaòo quer a artista á rosa. 

E agora, agora. . Como foi não sei. 
Que se acabou a minha fé em ti 
Que ò'antes eras meu prazer e lei ! 

Muôa|ste tu, ou fui eu que muõei ? 
Se eií nunca em minha viõa te menti 
Porque mentias no que acreditei ? 

Dertha Lupi. Pagina Feminina, Òo Diário Nacional, 
15-3-1917. 



Poetisas Portuguesas 165 



D. CLORINDA MÁXIMA DE MACEDO 

Senòo os dicionários portugueses ò'um granõe laconismo 
10 tocante a biografias ôe Senhoras Portuguezas, falta que 
)rincipalmente se nota acerca Òas que viveram num pe- 
ioôo relativamente moòerno (não quero já falar òas bio- 
jrafias õe muitas Senhoras contemporâneas òistinctas, so- 
)re as quaes naõa òizem), tem-se me tornaõo, por vezes, 
)astante arõua a tarefa Ô'obter elementos, que me permi- 
am escrever algumas linhas referentes a õeterminaõas 
'oetisas òe que trata este livro. 

Assim, òe D. Clorinòa Máxima òe Maceõo, sei apenas, 
ue õatava bo Porto muitas Òas suas proòuções que foram 
ublicaòas em vários aimanachs e jornaes, taes como : O 
^erilampo, etc. e que em 1878 publicou um volume òe ver- 
3S intitulaòo Sombras, prefaciaòo por Gomes Leal. 
! Do valor òesses versos avaliarão os leitores pela poesia 
Ue apresento. 

UM QUADRO 

Quanòo o sol vae a sumir-se 
alem Ò'aquelle pinhal. . . 
e o rouxinol vae carpir-se 
nos ramos ôo salgueiral ; 

quanòo alta vaga espumosa 
vem junto á rocha quebrar 
e que escuta a voz sauòosa 
ôo bronze chamanòo a orar 

quanòo a estrella vespertina 
fulgura no céu. . • além • 
e por Òe traz òa coUina 
se eleva a lua também . 



166 Poetisas Portuguesas 

eu sinto elevar-me a mente 
ao seio õo creaòor, 
ante esse quaòro imponente 
ôe poesia, paz e amor ! 

Prostrada, então curvo a fronte 
aos pés õ'esse immenso altar, 
que tem por tecto — o horisonte ; 
por órgão — a voz õo mar ; 

a luz Òa lua — por cvrios ; 
o puro céo — por missal 
e o branòo aroma ôos lyrios 
— por incenso perennal ! 

E assim — minha alma esqueciòa 
òo peso òa negra cruz, 
ascenòe ôe novo á viõa . . . 
tem esperanças, crença e luz ! 

Clorinõa Máxima òe MaceÔo. Sojnbras, Porto, 1878, pa 
123 a 125. 



D. ALDA GUERREIRO MACHADO 

D. AlÒa Guerreiro MachaÒo nasceu em S. Thiago ôe C 
cem, onôe resiôe actualmente. 

E' filha ôe D. Catharina Maria F. Guerreiro e ôe Mam 
Ôo Espirito Santo Guerreiro, que foi um entusiasta pe 
artes. Cultivou como verôaôeiro artista a pintura ôe 
ôeixou certo numero ôe boas telas. 

Tenôo D. Alôa Guerreiro Machaôo siôo eôucaôa 
seus pães na veneração ôas granôes obras ôe toôo! 
géneros, foi ôesse moôo que se lhe ôespertou o g( 
pela poesia, a que ôe preferencia se fem ôeôicaôo. 



Poetisas Portuguesas 167 

A causa ôa instrução popular merece lambem especial 
atenção a esta Poetisa, que por meio õe artigos e òo ensino 
tem tentaôo combater o analfabetismo. 

As poesias Õ'esta Senhora acham-se õispersas em varias 
revistas, em jornaes 5a província e na Encyclopedia das 
Famílias, curioso mensario que já conta 31 anos ôe exis- 
tência e òe que é proprietário o sr. Manuel Lucas Tor- 
res. 
D. Alôa Guerreiro Machaôo é auctora õuma bela serie 
,; Õe sonetos sobre Fiouras Históricas Portuguesas, proòu- 
%■ ções que estão íneõitas, 

1^ Por esse motivo e por constituirem um género ôe poesia 
"t pouco cultivaõo em Portugal, é tanto maior a minha satis- 
fação em poòer publicar nesta Antologia quatro ôessas mi- 
mosas composições poéticas. 

Ao contrario Ôo que tem feito esta Senhora, que se ocu- 
pa exclusivamente ôe Figuras d'Outrora, D. Mecia Mousi- 
nho ôe Albuquerque, D. Emilia Maia e D. Branca ôe 
Gonta Colaço, teem tomaôo, por vezes, para tema Ôe al- 
gumas ôe suas poesias, Individualidades históricas d'aciuali- 
dade. 

A publicação ôesses sonetos, em volume, será uma iôeia 
feliz, que fará reviver muitos nomes ilustres Ôa Nossa His- 
toria Pátria. 

SAUDADE 

Sauôaôe, paixão ô'alma amarga e triste 
Complemento ôo amor nasce ôa ausência. 
Floresce, vive, cresce e fina essência 
Exala ; acre e subtil só na alma existe. 

E' ôôr que tem ôoçura ; ela consiste 
N'um afecto que abrange uma existência. 
Se um coração prenôeu com violência 
Ao soffrer Ôesse mal ninguém resiste. 



168 Poetisas Portuguesas 

Quem não soífreu um õia essa amargura 
Que òa recorôação sempre se evola ? 
Ninguém busca fugir-lhe era loucura. 

Sauôaòe é flor mimosa, e na corola 
O gérmen se encerrou õa desventura 
E' uma õôr que mata e nos consola ? 

Alõa Guerreiro Machaõo, 



D. HENRIQUE 

(l.-tEDlTO» 

Era um sábio o infante ! lõéias arrojaòas ! 
Um sábio e um heroe ! A fronte pensativa 
Austera, nobre e grave, alevantava altiva 
Na sombria altivez ôas almas inspiraòas. 

Quinhentos annos ha ! Nas rochas escarpadas 
De Sagres, julgo ver- lhe a sombra fugitiva! 
— Deu nome a Portugal ! Foi sua iniciativa 
Sondar a vastidão das aguas aniladas. 

A sua vista d'aguia, o sol do seu olhar, 
O mundo illuminou ; rompeu os nevoeiros 
Que envolviam então as terras d'alem-mar. 

Navegador audaz, primeiro entre os primeiros 
Trabalhou e venceu e poude triumphar, 
N'este pais de heroes, Nação de Marinheiros ! 

Alda Guerreiro Machado. 



Poetisas Portuguesas 169 



NUNO ALVARES 

(inédito) 

Cheio ôe misticismo em meio ôo acampamento, 
Alevantanôo o olhar, Nuno Alvares fitava 
O sèu'stanõarte branco a balouçar ao vento ! 
De súbito, porem, com altivez braõava : 

Por S. ]orge ! E cinginõo á cinta o armamento, 
No anceio õe combater, o pendão que alvejava 
Revia enterneciõo inõa por um momento, 
Partinõo após, correnõo, á guerra que o tentava. 

)eu exemplo Òe arrojo ás hostes lusitanas, 
lonseguinòo vencer as tropas castelhanas ! 
:m campanhas viveu ! Guerreiro infatigável ! 

las um õia òeixou a espaòa, o elmo, a cota, 
^estiu-se òe burel, o heroe õ'Aljubarrota 
foi morrer n'um claustro, o Santo Conòestavel 1 

)a Guerreiro MachaÕo. 



DUARTE D'ALMEIDA 

(inédito) 

Na batalha õe Toro a gente portugueza 
Cairá berrotaòa. O alferes-mor então 
N'um rasgo òe inergia e não vulgar braveza, 
N'um esforço supremo, ergueu o pavilhão. 

l Uma lança contraria apanha- o ôe surpresa, 
ií , Certeira vem ò'um golpe e arrebatou-lhe a mão. 
Mas não caiu em terra á mingua ôe ôefêsa 
O penôão nacional ; em meio ôa confusão. 



170 Poetisas Portuguesas 

Inôiferente á ôôr, levanta-a novamente, 

Na mão esqueròa, firme, esse heróico solòaòo, 

Um novo golpe a corta, e a resistir, ardente, 

Entre a gente que o fere, então arrebatado. 

Nos Dentes a prenòeu, cainõo finalmente ! 

E á pátria veiu morrer õe fome . . <o õecepaõo !» 

AlÕa Guerreiro Machaôo. 

• 

EGAS MONIZ 
(inédito) 

Do Portugal antigo um nobre cavaleiro 
De nome Egas Moniz, um vulto glorioso, 
Simbolo õe honradez, fiel e generoso. 
Rebrilha ainôa hoje e impôe-se ao munôo inteiro. 

Cercado o nosso rei em sitio traiçoeiro 
Pelo rei de Leão - um homem valoroso. 
Vassalo dedicado, altivo e corajoso 
Escravo do dever, leal e verdadeiro. 

Tinha a Affonso VII a palavra empenhada 

Por Affonso primeiro ; e ao vê-la assim quebrada 

Por decisão d'el-rei, que julga humilhação 

A clausula que impôz o reino de Leão, 
Com filhos e mulher, partiu de animo forte. 
Caminho de Toledo, a oferecer-se á morte ! 

Alda Guerreiro Machado. 



D. EMÍLIA ADELAIDE MONIZ DA MAIA 

D. Emilia Adelaide Moniz da Maia nasceu no Rio de Ja- 
neiro em 1848, sendo portuguesa pelo facto de ter casado 
em Portugal, com José Rufino Moniz da Maia que falecei 
em 1899, no posto de general. 



Poetisas Portuguesas 171 

Contanõo esta Senhora apenas quinze anos ôe iôaòe, 
apareceu publicada na Revista Popular, ôo Rio õe Janeiro 
(pag. 251), uma poesia sua, intitulaòa Supplica, que mereceu 
òos poetas brazileiros òessa época, e òe Carlos José õo Ro- 
sário, escriptor e proprietário ôa citaõa revista, as mais hon- 
rosas referencias. 

D. Emilia Maia é não só uma poetisa ôistincta como ainòa 
uma Senhora muito caritativa. 

Não posso esquivar-me ao prazer ôe citar alguns factos 
por onòe se poôe aquilatar Ôos seus botes ôe coração e es- 
pirito. 

Assim, em 26 Ôe março ôe caôa ano, comemoranôo a ôata 
em que nasceu seu mariôo, ôá lím boôo a 12 viuvas po- 
bres ; no mesmo Ôia costumava também manôar ôistribuir 
no quartel õe caçaôores 2, onôe seu esposo começou a car- 
reira militar, como aspirante, um premio ôe 12 mil reis, Ôes- 
tinaôo ao solôaôo melhor comportaôo, recompensa que, 
pela extincção Ôesse regimento, é actualmente ôaôa no ôe 
Infantaria 2. 

Esta Poetisa é auctora Ôos seguintes trabalhos literários: 
Fleurs, obra em francez publicaôa em 1878 ; .4.* sete pala- 
vras de Nosso Senhor Jesus Christo, 1916, folheto ôestinaôo 
a um fim ôe cariôaôe, bem como Angelus. livro ôe poesias 
ineôitas que tem no prelo ; Trenas, volume ôe versos apare- 
ciôo em 1912, (ao qual se referiram em termos muito elogio- 
sos, A Nação, ôe 27-4-1913; O 'Bia, Ôe 19 e 23-8-1913 e 
os Echos da Avenida, ôe 6-4-913) ; parte ôa eôição Oeste li- 
vro ofereceu- a sua auctora ás pessoas ôas suas relações, 
tenôo siôo a outra parte venôiôa no Brazil ; com o proôucto, 
comprou D. Emilia Maia um enxoval que ofereceu a uma 
órfã nasciôa e batisaôa na sua freguesia natal, Candelária. 

D. Emilia Maia foi uma ôas Senhoras que escreveu no 
semanário A Voj Feminina, funôaôo em 1868, e que teve 
por colaboraôoras D. Marianna Angélica ô'Anôraôe, D 
Guiomar Torrezão, etc. 

No Almanach das Senhoras, ha muitas proôucções poe- 



172 Poetisas Portuguesas t|i 

ticas òesta ilustre Dama, mãe õo actor Fernanòo Maia, ge- 
rente Ôo teatro õe D. Maria, e que faleceu bem novo, quanòo 
tuõo lhe fazia prever um futuro glorioso. 

A' muita amabiliòaòe besta ilustre Poetisa òevo a ce- 
dência õo precioso autografo õo granõe poeta brazileiro 
Gonçalves Dias, o qual com o maior õesvanecimento torno 
conheciõo. 

E' bem singela a narração õo facto que õeu origem a 
que este Poeta, quanõo õa sua estaôa em Lisboa, tivesse 
enviaõo ao pae õe D. Emilia Maia, a carta que reproõuzo. 

Senõo esta Senhora, uma fervorosa aõmiraõora õo auctor 
õos Primeiros Cantos e Õos Segundos Cantos (vem aqui a 
propósito õizer que na primeira õas obras citaõas, se en- 
contra a conheciõa poesia Minha terra tem palmeira ., com- 
posta em Coimbra em 1843, e que tão celebre se tornou 
em Portugal e no Brazil), escreveu uma poesia intitulaõa 
Americana que õeõicou a Gonçalves Dias, que responõeu 
com a carta referiõa e com uma poesia, Emilia, que poõe 
ler- se a pag. 430 õas Obras Posthumas Õe Gançalves Dias, 
compilaõas por António Henrique Leal (São Luiz õo Ma- 
ranhão 1868). 

D. Emilia Maia, é igualmente uma traõuctora õistincta, 
como os leitores verão pelo soneto Santa There^a de Jesus. 

Ao evocar o nome õo granõe lirico Gonçalves Dias, tão 
precocemente faleciõo, vem-me naturalmente á memoria 
os nomes õessa pleiaôe brilhantíssima õe poetas, juris- 
consultos, romancistas, historiaõores e críticos que o Bra- 
zil possue, taes como : Casimiro õ'Abreu, Alberto õe Oli- 
veira, Olavo Bilac, Raymunõo Corrêa, Machaôo Õe Assis, 
Fagunões Varella, Junqueira Freire, Alvares õ'AzeveÕo, 
Mário Artagão, Luiz Guimarães, Fontoura Xaxier, Riiy Bar- 
bosa, ]osé õe Alencar, Bernarõo Guimarães, Aluizio õe 
Azeveõo, Affonso Celso, D. Júlia Lopes õe Almeiõa, D. 
Aõelina Lopes Vieira, Ccelho Netto, Lúcio õe Menõonça, 
Graça Aranha, Sylvio Romero, Tobias Barreto, José Veris- 
simo, Clóvis Bevilacqua, EucliÕes õa Cunha, etc, etc. 



Poetisas Portuguesas 



173 







V_ 



174 Poetisas Portuguesas 



DOR SUPREMA 

Na estraòa solitária o arvoreòo 
enlaça as ramas como verõe manto. 
Entre as folhas occulta, triste canto 
gorgeia a tutinegra quasi a mêõo. 

O ceu nublaòo õe um aspecto treõo 
vae orvalhanòo a terra com seu pranto : 
em carreira veloz passa entretanto 
carro que leva sepulchral segreòo . . 

Bem uniòas na ôôr, n'um só gemiòo, 
òuas mulheres vão n'aquelle Horto 
guarôanõo o seu thesouro enternecibo : 

Uma ò'elias em funõo òesconforto 
como a Mãe ôe Jesus : em pranto ungido, 
leva nos braços o seu filho morto ! 

Emília Maia. Penas, Lisboa, 1912, pag. 70. 



O AMOR DE DEUS 

<TRAnUCÇÃO DE UM SONSTO DS S.ta thEREíA DE JESiS; 

Eu não vos amo meu Deus, por esperar 
O goso que me tenôes promettiòo. 
Não me move o inferno tão terniõo. 
Para que eu õeixe por isso Òe pecar, 

Mas move-me tão somente o contemplar, 
Pregaõo n'uma cruz, escarnecido, 
O teu corpo õesnuòo e tão feriôo, 
E a angustia mortal òo teu olhar ! 



r^ 



Poetisas Portuguesas 175 



Move-me emfim, teu amor õe tal maneira 
Que sem mesmo haver Ceu eu te aõorara 
E sem haver inferno eu te temera ; 

Que pelo teu amor tuôo perõera, 
E se o goso que espero não sonhara, 
Com o mesmo afan minh'alma te quisera. 

Emilia Maia. 



MEU DEUS, MEU DEUS, PORQUE 
ME ABANDONASTE? 

IV 

No Ociòente o sol já se esconôia 
E Christo sobre a Cruz abanòonaôo, 
Divagava o olhar angustiaòo, 
Pela turba que o escarnecia. 

A formosa cabeça lhe penôia 
Sobre o peito ôe chagas consteiraôo, 
E òe ôôres cruéis atormentaõo, 
N'uma angustia mortal, estremecia. 

Ergue-se o peito nas vascas òa aíflicçãO' 
E fica-se em õolorosa contracção 
Como um lyrio penòiòo sobre a haste. 

E n'essa soliôão perõenòo a vi&a, 

Ao Pae invoca em voz amorteciõa : 

«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste ? !» 

Emilia Maia. Ás Sete palavras de Nosso Senhor Jesus 
iristo no Calvário, Lisboa, 1916. 



176 Poetisas Portuguesas 



D. CÂNDIDA AVRES DE MAGALHÃES 

D. Canòiõa Ayres 5e Magalhães é filha ôe D. Maria £)• 
Carmo Vaz ôe Carvalho e òo coronel õe Cavalaria, socii 
õa Acaòemia õas Sciencias õe Lisboa e ilustre poeta e pro 
saòor Christovam Ayres õe Magalhães Sepúlveda, o notí 
vel auctor õa Historia do Exercito Português (14 volumet 
e õe muitas outras obras õe real valor, õe que tratare 
quanòo noutro tomo, continuação õesta Antologia, me oo) 
par Õos Poetas Consagrados. 

D. Canõiõa Ayres õe Magalhães que é sobrinha Õa muft 
notável escriptora Sr.^ D. Maria Amália Vaz õe Carvall» 
publicou os seus primeiros versos em 1906, na Illustraçi 
Portuguesa, onõe também escreveu umas curiosas poes| 
sobre õitas infantis. 

Tem ainõa colaboraõo na Revista Transmontana, Jon 
da mulher, e Diário Nacional, e sobretuõo, na Águia, 
gão literário õa Renascença Portuguesa. Nessa bela revijf 
portuense, publicou esta ilustre Poetisa alguns capitu|| 
õ'um trabalho (por concluir), e que pelo seu lirismo e 
lesa õe forma, lembram bastante as poesias õe Uma 
mavera de Mulher, e õas Vo^es do Ermo. 

Figura também no livro In õMemoriam, em que escrevi 
ram õistinctas escriptoras e escriptores, e que foi õeõica? 
pelo sr. Christovam Ayres, a seu filho José Vaz õe Caní 
lho, o soneto Risopara os outros, que incluo nesta colec^ 

D. Canõiõa Ayres õe Magalhães faz versos, õesõe p' 
quena. 

No 'Brasil e Portugal Õe 1914, n'um artigo escripto p( 
D. Maria 0'Neill acerca õo auctor Õa Historia da CavalU 
ria 'Portuguesa, achei O seguinte curioso pormenor reí» 
rente a sua filha D. Canõiõa : 

No colégio õas Francesinhas õe São Luiz, onõe a aucto: 
õos Nimbos, conheceu aos nove anos D. Canõiõa Ayn 
õe Magalhães, via-a sempre, com os bolsos õo bibe chei( 
ôe versos. 



Poetisas Portuguesas 177 



RÍSO PARA OS OUTROS 

Puòe entrar n'esse quarto onõe morrias 
amanòo a Viòa ! • O teu olhar buscava 
lêr, em quem Ôo teu leito se abeirava, 
que não era õe morte o que sentias. . . 

E quanôo, ainôa a fallar, já não sorrias, 
porque essa luz na Morte se apagava. . 
eu puòe rir. . n'um riso que emballava 
A illusão em que tu aòormecias . 

E rio ainòa. . . e já te vi morrer ! 
E' que na viõa o riso é um òever : 
(causar tristeza aos outros faz remorso. . .) 

Depois. . . choro baixinho e ás escuras, 
a Òescançar õo riso em que me esforço 
por esconôer tão funõas maguas ! 

Canôiôa Ayres Ôe Magalhães. Almanach Illustrado (õa 
'arceria Pereira), para 1912, pag. 64. 



MOCIDADE... 

Não ter amor, esperança ou fé que alente 
Não ter sequer um bem que nos sorria, 
nem consolo, nem paz. . . e não ter guia 
na viõa que promette e assim nos mente ; 

Sentir ôentro õe nós, sempre gemente, 
o coração faminto õa alegria, 
como um cego que pela luz ôo ôia 
viva a chorar na sua noite ingente ; 

Braõar, erguenõo os braços para a Morte : — 

<— Em ti conhecerei quem me conforte, 

«Oh ! leva quem não Õeixa uma sauõaõe. . > 

12 



178 Poetisas Portuguesas 

E volver-nos ôe longe a Morte : < - E' ceõo !» 
«E's moço, ainõa cumpre o teu õegreòo !» 
Para quantos é isto a Mociòaõe. . • 

Canõiòa Ayres òe Magalhães. Pagina Feminina, ôo Z)í| 
rio Nacional, ôe 18-1-1917. 



LAGRIMAS 
(EPiCRAPHE DO LIVRO Lagrimos) 

«In Memoriam» de meu irmão o Dr José Vjf de Carvalh 
Ayres de Magalhães 

I 
Não ha na terra lagrimas mais santas, 
nem mais abençoaòas, 
õo que essas tristes lagrimas pieòosas 
que choravam por nós olhos amigos. • . 
Por isso é que os Antigos 
— almas videntes, almas religiosas 
que por òivino instincto se guiavam, 
depunham com fervor e com ternura 
òentro òa sepultura, 
que ia esconder aos sofíregos olhares 
esse alguém que partia, 
um vaso Òe crystal que recolhia 
as lagrimas em fio 
õos que ficavam na desolação. ■ • 
E a doce fé deixava-lhes suppor 
que essas lagrimas, symbolo e expressão 
da saudade e do amor, 
iam servir de eterna companhia 
na eterna solidão. . . 

Cândida Ayres de Magalhães. 



Poetisas Portuguesas 179 



SAUDADE 

A sauõaôe começa no momento 

em que a gente já sabe que não oura 

o bem que nos seòuz ; 

e í>a própria sauòaôe sae a luz 

que embelleza essa hora fugiõia, 

e ôá encanto a tuõo em que tocar, 

como a belleza triste òo luar 

como a sauòosa luz òo fim ôo Ôia . 

Canôiõa Ayres òe Magalhães. Pagina Feminina, òo Dia- 
o Nacional, òe 1-3-1917. 



D. MARIANNA ANTÓNIA PIMENTEL 
MALDONADO 

D. Marianna Antónia Pimentel Malòonaòo nasceu em 
Lisboa em 1772 ou 1774 e faleceu em 1855. 

Esta Senhora era irmã òe 3oão Vicente Pimentel Malòo- 
naòo, notável poeta òa Escola Arcaciica e auctor òos Apo- 
logos, coleção òe cem fabulas que a Garrett mereceram as 
mais encomiásticas referencias. 

Esta Poetisa colaborou com 3 sonetos publicaòos sob o 
pseuòonimo òe Uma Senhora, no Jornal Poético ou collec- 
ção das melhores composições em todo o género, dos mais in- 
signes poetas portugueses, tanto impressas como inéditas of- 
ferecidas aos amantes da Nação, por Desiòerio Marques 
Leão, publicação feita, com licença, em Lisboa, em 1812, e 
|10 Portugue^ Constitucional, òe Pato Moniz. Nos versos Òe 
I. M. òa Costa e Silva vem uma poesia òesta Poetisa, que 
|;screveu numerosas poesias que estão ineòitas. ' 

D. Marianna Antónia Pimentel Malòonaòo publicou: 



180 Poetisas Portuguesas 

Ode ao triste anniversario da trafica morte de Gomes 
Freire de Andrade, publicação apareciòa sem o nome õa 
auctora. 

A GRÃ BRETANHA 
(soneto) 

Não tanto hum òia Roma libertaõa 
Do jugo òe tyrannos oppressores, 
Mais graças Òava, õava mais louvores 
Do granõe Bruto á vingaõora espaòa ; 

Quanto, ó nossa benéfica Alliaõa, 
Graças õevemos òar-te ainôa maiores : 
Teu braço nos vingou òe vis traiòores, 
Nos trouxe a liberõaõe òesejaòa. 

Bem que ò'Elisa já no seio aròia 

O fogo òe justíssima vingança 

As chammas lhe abafava mão impia : 

Em ti os olhos fita, em ti òescança ; 
Tu arrancaste o sceptro á tyrania, 
Quebraste os ferros, que nos punha França. 

Por huma Senhora. Jornal Poético, por Desiõerio Mar- 
ques Leão, Lisboa, 1812, pag. 278. 



D. ZULMIRA DE MELLO 

(n ZULMIRA DA COSTA l.E FERRKÍRA FRKIRE DE ANDRADE) 

D. Zulmira òa Costa òe Ferreira Freire òe Anòraòe nas- 
ceu na pictDresca e bela província Òo Minho, na alòeia ôe 
Ajuòe, òe Povoa òe Lanhoso. 

E' filha òe José Augusto Pereira õa Costa e òe D. Erme- 



Poetisas Portugueêas 181 



linôa JuIia õe Ferreira õe Mello Freire òe Anõraõe, òa 
Casa ôas Agras. 

Seu avô materno, José Joaquim òe Ferreira õe Mello 
Freire õe Anõraõe que manteve relações literárias com 
Camillo Castello Branco, era muito Õaõo a assumptos õ'arte, 
senõo â sua livraria no Solar õas Agras, uma õas primeiras 
õa província. 

Foi, sem òuviõa alguma, esse ambiente õ'arte e as lei- 
turas que D. Zulmira õe Mello (nome com que tem assi- 
gnaõo as suas proõuções poéticas), fez na livraria òe seu 
avô, que tão ceòo lhe õespertaram a granõe inclinação pe- 
las letras e pela poesia, que com tanto gosto, carinho e fe- 
ieciõaõe tem cultivaõo òesòe bem nova. 

Esta Poetisa, não tenòo aõormeciòo á sombra õos lou- 
ros colhiõos e õesejanòo aperfeiçoar- se, não hesitou em 
peõir a João Penha (poeta septagenario que á similhança 
í>e Gomes Leal e Camões chega á velhice, pobre òe òi- 
nheiro e confortos), ensinamentos e conselhos, ao que elle, 
benevolamente aceõeu, tenòo no jornal A Chronica, ao 
apresentar a sua õiscipula, frases bem justas e elogiosas 
para D, Zulmira òe Mello, que õurante bastante tempo co- 
laborou nessa publicação, onòe figuram muitos nomes ilus- 
tres. 

A maioria òas poesias ôesta Senhora nunca foi publicaõa. 
I Darão um belo livro, que sua auctora pensa intitular J''lo 
\res de Sonhv, ou Rosas de todo o anno. 

A ascenòencia Òe D. Zulmira òe Mello, como escreveu o 
|sr. Conòe õe Valenças, é õas mais nobres e antigas. 

D. Soeiro Raymundo, rico homem e um õos fiòalgos mais 
|y;alorosos õa corte õe D. Sancho I — acompanhanõo Ri- 
haròo I, Coração òe Leão, Rei òe Inglaterra, e Freòerico 
parbara Roxa, Imperaõor òa Allemanha e Philippe Augusto 
[el õe França, na cruzaõa que estes reis emprehenõeram 
[>ara a conquista õa lerra Santa, -~ õeu taes provas òe va- 
'que mereceu o titulo õe Bravo dos Bravos 
'or ter õaòo um assalto á porta òo muro òa torre cha- 



182 Poetisas Portuguesas 

maôa Mello, õe que fala o velho Testamento no Paralipo- 
mon LIIl Cap. XXXII e em que hasteou na torre a banòeira 
ôas cruzaòas Coração Ôe Leão, abraçanòo D. Soeiro Rav- 
munòo, lhe ôeu aquele epíteto, aòquirinòo o apeliòo Mello. 

Em 1204, D. Soeiro Raymunòo povoou a quinta a que poz 
o nome òe Mello, povoação elevaõa a vila por D. Affonso V, 

Foi ahi que ôepois se estabeleceu o solar õos Mellos, ôe 
quem ôescenôem os Caôavais, os Sabugosas, os Conões 
ôe Vila Real e outras famílias ilustres. 

Pelos Freire õe Anõraõe, provem õos ConÕes òe Trans- 
tâmara e õe Trava. 

SOMNAMBULA 

N'um castello sombrio como a õor 

Em que gemia, perpassanõo, o vento, 

Dias ôe choro, noites õe tormento 

Triste eu passava, immersa em funõo horror. 

Junto á porta, um Õragão, sempre em furor, 
Olhos em braza, me guarõava attento ; 
De súbito, resôa, estranho evento ! 
D'entre o arvoreõo uma canção õ'amor. 

Aõormece o Õragão, feroz, meõonho, 
D'aquelia harpa ao som mavioso e linõo, 
E eu venõo tuõo azul, o ceu risonho, 

Atraz Õo novo orpheu, sempre fuginõo, 
Pelos meanõros Õo paiz Õo sonho, 
Somnambula õ'amor o fui seguinõo 

Zulmira õe Mello. 



Poetisas Portuguesas 183 



I 



PHANTASIA 

Oh ôoce e branòa lua, quem me òera 
Possuir um alcaçar, fulgurante 
D'esmeralõas, opalas e Òiamante 
Em teus reinos õe luz e ôe chimera ! 

Levaòa em bergantins ôe folhas ô'hera, 
Ir eu quizera á região Òistante, 
Onõe és a soberana triumphante, 
OnÔe a Poesia, o eterno ^onho, impera ! 

N'um paço õefenõiòo por Õragões, 
Guarôar eu òesejava as mariposas, 
Brancas, brancas, õas minhas illusões ; 

Desfolhar lirios e jasmins e rosas, 
E ao som vago õe murmuras canções 
Vestir õe azul imagens vaporosas . 



Zulmira õe Mello. 



 DEIRA-MAR 

I Vão passanõo as gaivotas, embalaôas 

I Nas salsas onõas õ'esse mar õe rosas ; 

I Brancos flocos õe espumas vaporosas 

I Lhes tremulam nas azas orvalhaõas ; 

l 

f, E õa praia as conchinhas variegaõas 

Alvejam pelas Õunas arenosas, 

Quaes fragmentos õe peõras preciosas 

Dispersos pelas onõas praleaõas. 



184 Poetisas loriuuueíius 



Ao pôr òo sol, já quanòo o ceu e o mar 
Se confunòem, minha alma õe viòente 
Embebia-se em funõo meõitar : 

Reminiscências, que evocava a mente, 
Das vagas ao constante murmurar 
Nas brumas se esvaiam lentamente . 



Zulmira òe Mello. 



D. MARIA JOSÉ FURTADO DE MENDONÇA 

D. Maria José Furtado õe Menòonça resiòiu outr'ora em 
Celorico õa Beira. 

Colaborou, escrevenòo folhetins em verso, no jornal O 
T>istricto da Guarda. 

Nos almanachs antigos, é vulgar aparecer o nome ôesta 
Senhora (que foi sogra õo falecido aòvogaôo Dr. Aureliano 
õe Mattos), firmanõo poesias e charaõas. 

Em 1898, publicou um livro õe versos, Piores de Inverno^, 
que foi prefaciaôo pelo Dr. Canõiõo õe FigueireÕo. 

Esta Senhora também é auctora Õo Q.4uto da Vida de S. 
Sebastião, eõitaõo no Porto em 1862. 

O REI DE THULE 

(VERSÃO UVBE) 

Outr'ora em Thule reinou 
Um bom rei, tão extremoso, 
Que até morrer foi cioso 
Da mulher que õesposou. 
Quanõo esta o munõo ôeixou. 
Entre õores cruciantes. 



Poetisas Portuguesas 185 

Chamou por alguns instantes 
O Rei, e ôeu-lhe um legaõo, 
Áureo vaso, cravejaõo 
De rubins e õe Òiamantes. 

Quanòo o bom rei viu perõiõo 
Dos seus amores o objecto, 
Desõe logo o seu affecto 
Concentrou no vaso q'riòo. 
Tinha por elle bebiòo, 
Dos verões annos na flor, 
O òoce néctar Òo arr^or 
Que õocemente o embriagou. . . 
Por isso, jamais òeixou 
O precioso penhor. 

Se uma sauòaôe o pungia, 
Mirava o vaso aòoraõo : 
Tinha-o na mesa a seu laõo, 
Só por elle é que bebia. 
Apesar õ'isío, sentia 
Que as forças lhe iam faltanõo ; 
Repartiu seus bens ; mas quanòo 
Pensou no vaso queriòo. 
Rompeu em pranto sentiòo, 
Largo tempo soluçando. 

E logo em tom resoluto 
Os seus cortezãos chamou, 

— E nenhum ò'elles notou 
Seu pranto, já agora enxuto ! -- 
«Antes òos õias õe luto, 

- Diz-lhes com voz commoviõa, 
«Quero a corte reuniõa 

«No castello junto ao mar, 
«Para ahi vos offertar 
«Um festim ôe òespeõiõa. 



186 Poetisas Porlagaesa^ 

Dito e feito : a fiõalguia 
]á cercava a lauta mesa ; 
Mal òisfarçaõa tristeza 
Nos semblantes transluzia 
Notavam que o rei bebia . . 
Bebia. . e sempre seõento ; 
Similhante ao avarento 
Que a alma tem no thesouro, 
Libava no vaso ô'ouro 
O seu ôerraõeiro alento. 

Não pôòe mais resistir ! 

Atirou o copo ao mar, 

Via-o nas onòas boiar. . . « 

Fugia . tornava a vir . . \ 

Emfim, ao vel-o afunõar 

Ergueu a tremula mão 

N'um <aõeus» e a commoção 

InÔa prantos lhe arrancou ; 

Depois, seus olhos cerrou, 

Cahiu sem viôa no chão. 



Maria José FurtaÒo õe Menõonça. Flores de Inverno, LiSh 
boa. 1898, pag. 133 a 136. 



D. ARSENIA BETTENCOURT MIRANDA 

D. Arsenia Bettencourt Miranòa é natural òa Ilha Ôa| 
Maõeira. 

As suas composições poéticas acham-se ôispersas ej 
òifferentes jornaes õa sua terra natal. 

No Álbum Madeirense,, compilado por Francisco VietóiiJ 
também foram publicados alguns versos õ'esta Poetisa. 



Poetisas Portuguesas 187 



ANHELOS 
(fragmento) 

Minha alma, que peões, que queres ? 
Que Òesejas que anhelos são os teus ? 
E' ôebalõe que imploras a Deus 
Uma hora, um lampejo õe luz ; 
Densas trevas fenvolvem, te cercam, 
E, por ellas a custo seguinõo, 
Vaes terríveis angustias sentindo, 
Dôr acerba que a voz não traòuz. 

Doces sonhos me v'em por momentos 
Esta viòa alegrar, colorir, 
Cuiòo então nessas horas fugir. 
Triste munòo, p'ra longe ôe ti ! 
Esquecendo òa viòa os pezares, 
Vou transpondo a sorrir o espaço, 
Não sentindo a fadiga, o cansaço. 
Que me prostram, me matam aqui ! 

Alta noite no ceu vejo a lua 
A mirar a cidade dormente, 
Prateando a ligeira corrente 
Indo ao longe embalar-se no mar ! 
E eu escuto ness'hora encantada, 
Uns sons vagos de grata harmonia, 
De saudades, d'amor, de poesia, 
Que me v'em docemente inspirar ! 

Arsenia Bettencourt Miranda. Álbum Madeirense. 



188 PoelUas Portuguesas 



D. ALICE MODERNO 

D. Alice Moõerno nasceu em Paris em 11 õe Agosto ôe 
1867. 

E' fillia ôe D. Celina Pereira òe Mello Maulaz Moòerno| 
€ õe João Roòrigues Moòerno. i 

Descenbe esta ilustre Escriptora e Poetisa ôo celebre j 
liberal António Januário Moõerno, õa Ilha ôa Maòeira, aoj 
qual se refere o Tomo V, pag. 244, 325 e 478 õos Docu-^^ 
mentos para a Historia das Cortes Geraes da nação poriu-.i 
guesa. ''\ 

Tenòo vinôo para Portugal em 1875, D. Alice Moõerno ; 
foi a primeira senhora que cursou o Liceu ôe Ponta Del-j;j 
gaõa, onõe vive e funõou um jornal litei»rio, A Folha, no^ 
qual tem colaboraõo inõiviõualiõaões ilustres nas Letras l 
Portuguesas, 

Esta Senhora é auctora òos seguintes trabalhos Htera^J 
rios : ^ 

Verso: Aspirações, Trillos, Os Martyres do Amor, AsylA^ 
de ãAlendicidade, No Adro (obras exgotaõas), e Versos á^íf 
mocidade. '^ 

Prosa: Pessoas e coisas, O Dr. Lun^ Sandovaí, Açores i 
(õescripção õo archipelago), Recreio das Salas (revista lite- - 
raria), etc, etc. 

Pertence ao Instituto Ôe Coimbra, e International Wo-^ 
men Union, õe Lonõres. 

Muitos õos seus versos foram traõuziõos em alemão, 
sueco, francez, inglez, hespanhol e italiano. 

Em 1907, a Alma Feminina ôe que foi ôirectora D. Vir- 
gínia Quaresma, abriu um concurso, em que eram premia- 
õos os poetas portugueses, que melhor formassem um so- 
neto com õuas quaôras que lhes eram õaôas. 

Entre os 40 concorrentes, foram apenas premiaôos nesse 
certamem, D. Alice Moõerno, D. Domitilla õe Carvalho e D. 
Branca õe Gonta Colaço. 



Poetisas Pof^tuguesas 189 

Ha pouco, num outro concurso poético realisaòo pelo 
Jornal da Mulher, coube a utn soneto ô'esta Poetisa o pri- 
neiro premio. 

MINIATURA 

Só òuas cousas õiviso 
Que sejam inõa mais bellas 
Do que o brilho õas estrellas, 
Do que a harmonia òo mar : 
— E' o imam òo teu sorriso 
E* a luz õo teu olhar ! 

Alice Mo!)erno. Aspirações. — Primeiros versos - Pont>j 
Delgada, 1886, pag. 69 e 70. 



LAGRIMAS 

Eu quizera poõer guaròar n'um cofre 
Talhabo em ôiamante ou rubi, 
; As transparentes lagrimas õe aljofre 

Que hei ôerramaôo, meu amor, por ti 

•' Alice Moderno. Aspirações, pag. 213 



CREANÇAS 

N'utrta festa escolar 

Eu quero muito ás creanças. 
Essas alminhas òe luz, 
Esses ramos òe esperanças 
Esses irmãos òe ]esus. 



190 Poetisas Portuguesas 

Dentro em sua alma impoUuta 
Esplenôe e brilha o canôor, 
Como, ao funòo ôe uma gruta, 
A's vezes, nasce uma flor. 

Sempre que as vejo, suaves, 
Irrequietas, buliçosas, 
Mais travessas òo que as aves, 
Mais fragrantes õo que as rosas, 

Digo : Senhor I Não as tisne 
Do vicio o labéu fatal ! 
Deixa-las ser como um cysne 
No seu lago õe crystal ! 

Deixa-las ser sempre puras, 
Deixa-las ser sempre bellas, 
Como são, lá nas alturas, 
As lucilantes estrelias! 

Alice Moòerno. Versos da Mocidade, Ponta Delgaôa, 191 Ij 
pag. 13-14. 



VISCONDESSA DAS NOGUEIRAS 

(d. mathilde izabel de sant'anna e vasconcellos 
MONIZ de Bettencourt) 

A Visconòessa òas Nogueiras (D. Mathilõe Izabel òe 
SanfAnna e Vasconcellos Moniz õe Bettencourt), nasceu 
na Ilha õa Maõeira a 14 òe Março õe 1806 e faleceu em 
23 õe õezembro õe 1888. 

Esta Senhora que pertencia a uma antiga e nobre famí- 
lia maõeirense, era filha Õe D. Francisca Emilia Teixeira 
òe Menezes e õe }osé Joaquim õe Vasconcellos. 

Foi casaõa com o Visconõe õas Nogueiras Qacintho òe 



Poetisas Portuguesas 191 



infAnna e Vasconcellos), escrivão ôa Mesa Granôe õa 
fanõega õo Funchal, e á qual se refere a pag. 8 Õo livro 
Hestado genealógico õe João Carlos Feio. 
Poetisa e Dama muito õistincta, òela trata o Dicciona- 
ôe Innocencio òa Silva, e Bulhão Pato, a pag. 279 Ôo 
Dlume 2.0 õas suas Memorias. 

Mãe Ôo Visconòe òas Nogueiras, representante ôe Por- 
gal nos Estaôos Uniòos õa America (auctor ôo volume 
i versos, Amor e Pátria)^ D. Mathilôe õe Sanfanna e 
asconcellos escreveu com as iniciaes M. S. A. V. os se- 
lintes livros : 

O cura de S. Lourenço, 1855, romance ; O Soldado de Al- 
barrota, 1857, romance histórico ; Dia'ogo entre uma avó 
sua neta, para uso. õas crianças õe cinco a Ôez anos, 
)rovaõo peio conselho superior Ôe instrucção publica, 
!62. 

TraÔuziu : As Casíellãs de Rossilon ; e Genoveva ; verteu 
jra francês, Eurico o Presbítero, õe Herculano. 
Os versos ô'esta ilustre Poetisa nunca foram compilaôos 
n volume. 
Colaborou em muitos jornaes e no Álbum Madeirense. 



UMA NOITE DE LUAR 
(fragmento) 

Já ôe estreitas recamaõo 
A noite estenõeu o veo, 
Fulguram astros brilhantes 
No panorama õo ceu ; 
E sobre a praia arenosa 
Rola a vaga preguiçosa. 

Nuvem não ha que escureça 
O azul Ôo firmamento. 
Roçam apenas nas folhas 



192 Poetisas Portuguesas 

As leves azas ôo vento ; 
Canta em loureiro visinho 
O rouxinol num raminho . 

E o fugitivo planeta 

Que o ceu Ôeixára apressaòo, 

Quanòo alli viu girar 

Do sol o carro òouraôo, 

Agora, vagando errante, 

Nos mostra a face radiante : 

Tem já metaòe cruzaôo 
Das celestes regiões, 
Onõe formam as estrellas 
Formosas constellações, 
Que variam na figura 
Por sua forma e altura : 

O frouxo pallor que esparge 
Sobre o lago prateado 
Deixa na face õas ondas 
Um novo ceu retratado, 
Onde se mira vaidosa 
Da noite a princeza airosa. 

Viscondessa das Nogueiras. Álbum Madeirenst 



ONDINA 



Tal é o pseudónimo usado pela auctora do volume ò* 
versos. Pombas Feridas, impresso em Paris, em 1906. 

De Onditia que nasceu numa das ilhas do Archipelaff 
Açoreano, diz o Brajil e Portugal : 

<Ondina não é, pois, só ilustre e fidalga pelos seus sen 
timentos e merecimentos ; é nobre e ilustre também pel 



Poetisas Portuguesas 193 



ua ascenôencia e pelo seu casamento. Pois apesar õ'isso, 
andina é tão moôesta que, poõenõo usar brazões ilustres 
! assignar os seus escriptos com um titulo nobilissimo, é 
>e uma simpliciòaõe aõmiravel, e assigna verõaòeiras ma- 
aviihas com um moõesto e simples pseuDonimo». 

«Bem õotaõa pelo nascimento, pela intellectualiôaôe, 
)elo talento, pela poesia, pelo coração, não o é menos 
>elas graças». 

«Vénus, se a visse, õespeõiria òecerto uma õas três 
^ymphas que a acompanham sempre, e aòmitiria em seu 
ogar a graciosa e gentil Ondina. Ou se não tivesse coração 
jara õespeôir uma õas trez Graças, ella ficaria Decerto 
íenòo a quarta e passaria a ser a Graça do sorriso». O seu 
iorriso não tem rival. E' simplesmente ôelicioso, estontea- 
i»or, macio — , como uma musica, um affago, uma aza • . » 

l Ignoro se esta Poetisa chegou a publicar um livro em 
|Ue trabalhava e cujo titulo era : Espumas. 

POMBAS FERIDAS 

Vão, ás vezes, as pombas pelo espaço, 
pelo espaço azulino a palpitar. . . 
aos bandos, aos cardumes, foragiôas, 

as azas estenòiõas, 
por sobre torreões, jarõins, o mar. 

Vão em õemanòa òos paizes quentes, 

fabricar outros ninhos mais além 

Vão fuginòo aos nevões, ao inverno, á cheia. 

buscar Roma ou }uõea, 
jaròins ò'Asia, talvez Jerusalém. 

Ruflanôo as azas, vão, com mil arrulhos, 
beijos õanõo com os roséos biquinhos . 
e as nuvens côr õe prata atravessando 

n'um doce enlevo brando, 
— ao ar, á luz, ao sol. pelos caminhos. 

13 



194 Poetisas Portuguesas 

Mas, ás vezes, nos bosques sussurantes, 
um caçaõor, nas sombras ôa espessura, 
Òispára contra as pobres emigrantes • 

Das azas palpitantes 
gotas sanguíneas chovem lá õa altura ! 

Feriòas vão • . e comtuòo vão voanôo 

as peregrinas, tristes, a arrulhar. . • 

e as que passam nas peõras õas estraõas 

plumas ensanguentaòas 
vêem ás vezes recortando ar. 

Leitor, — também nas folhas oeste livro ~ 
que eu compuz, como ao vento uma canção, 
muitas plumas sangrentas vão cainòo. 

Parecem cair, rinòo. . . 
— mas tombaram choranòo o coração. 

Onòina. Pombas Feridas, Paris, 1916, pag. 15 e 16. 



D. MARIA 0'NEILL 

(d. MARIA DA CONCEIÇÃO INFANTE DE LA CERDA 
PEREIRA d'eÇA CUSTANCE o'NEILL) 

D. Maria 0'NeiII (nome com que assigna os seus trab; 
lhos literários), nasceu em. Lisboa. 

E' filha ôe D. Maria Carlota Infante Òe Lacerõa Perei 
õ'Eça e Ôe Carlos Torlaôes 0'Neill, ha pouco faleciôo. 

Esta õistincta e ilustre Poetisa e Escriptora que õesceni 
ôe famílias nobres, é sobrinha òo Visconõe õe Santa M 
nica, auctor õo In Metnoriavi e õo Fabulario^ e neta 
general José António Pereira Ò'Eça (sobrinho ôo Con 
òas Antas), comandante õo Asilo òe Invaliõos Militares, € 
Ruma, õe quem era amicíssima e pela memoria õo qi 
tem a maior veneração. 



lottisas Poríagueauè 195 

Sào õo seu livro ôe contos —Vida Real, — as enterneci- 
ôãs palavras que passo a transcrever : 

íQuem lhe visse a estatura aprumada e marcial, a ruga 
que, perpenõicular, lhe sulcava a testa, os olhos verões e 
penetrantes como gumes toleòanos, tinha a consciência òe 
€star õeante õe um forte, mas não poòia suppôr que sob 
aquelle peito, arcaõo e amplo, òe velho caçaòor se abri- 
gava um coração ò'imensa e quasi feminil sensibiliõaôe. 
. Nas Cartas da Guerra (colecção õe sonetos inspirados 
'por um sonho), òiz ainòa ôe seu avô, esta Senhora : 

Foi Ião iageuuo, sliivo e puro ser, 
Que, atravessando largamente a vidr., 
A terminou sem bem a conhecer. 
Foi cheio de bondade e de tslento, 
Comaigo austero, mas co'ob outros nâ . 
Olhando sempre o azul do Firmamento 
Passou na terra tem fitar o chão. 

Se percorrermos as restantes obras òesta Escriptora, 
i nelas sempre acharemos uma palavra ôe sauôaôe para o 
í seu «melhor e mais ôeôicaôo ami20>. 

Tenôo siôo apresenlaõo a D. Maria 0'Neill, uma ôas 
nossas intelectuaes que maior numero ôe lavores literários 
tem proôuziôo, puôe ôe perto apreciar a serie ôe variaôos 
conhecimentos que possue, o que lhe permite aborôar os 
géneros literários mais opostos, como facilmente verifiquei 
ouvinòoa, e lenôo a sua vasta obra literária. 

Não é unicamente como escriptora que ôeve ser enca- 
rada a personaliôaôe ôesta conhecida e apreciaôa Poetisa. 

Quem tenha tiôo o prazer ôe falar e ôe conviver com D . 
Maria 0'NeiIl, notará logo que, á sua extrema simpliciôads 
í despretenção, se alia um profundo amor pelo trabalho e 
pelo próximo. 

Humanitária e sempre disposta a sacrificar-se, é ôuma 
||ranôe deôicação para com toôos que ôo seu auxilio ca- 
ecem. * 



196 Poetisas Portuguesas 



Como jornalista, escreveu em vários jornaes muitos < 
interessantes artigos sobre assumptos sociaes, literários í 
artísticos. 

Citarei apenas : No Intransigente, jornal funôaòo por Ma 
chaòo Ôos Santos — uma entrevista com o Ministro õa: 
Colónias; no 'Braijiii e 'Portugal, òe 1914, sob o titulo õ< 
Os nossos Artistas, uma colecção òe curiosos escriptos 
com os quaes tenciona formar um volume. 

Aos òez anos òe iòaòe escreveu O Morgado do Juncal 

Em 1908, apareceu o seu primeiro livro òe versos 
Nimbos. obra que foi prefaciaòa pelos ilustres AcaÒemicoí 
José òe Sousa Monteiro, seu mestre e granòe amigo, e Du 
Ihão Pato que, a pag. Xi e XIV ôo prefacio, òiz : 

«Maria 0'Neill, nas suas composições prima mantenòt 
sempre a simpliciòaòe e correcção pouco vulgar». «A su; 
linguagem nas locuções flexíveis e graciosas, é corrente 
elegante e moòerna». 

«Termino, sauòanòo a auctora òos Nimi-us pelo seu ele 
vaòo talento e felecitanòo-a peia sua primorosa estreia». 

Sousa Monteiro finõa oeste moòo a sua carta acerca òo 
Nimbo s : 

«Do muito, òo muitíssimo que tinha para n'este grat 
assumpto òizer, òirei apenas isto» : 

«Expliquei já o porquê òesta abstenção custosa. No 
mestres, como nos pães a gloria òe seus filhos, se reflect 
a gloria òos òiscipulos». 

Directora òo Almanach das Senhoras e òo Almanach l 
lustrado (òa Parceria Pereira), tem colaboraòo nos jornae 
e revistas : Jornal da õMulher, Zig-Zag, Correio da Europt 
Bem Publico, Sátira, Serões (outra bela revista cuja publ 
cação é para lamentar ter finôaòo), Illustraçáo Português* 
etc, etc. 

D. Maria 0'Neill é auctora òos seguintes trabalhos, ei 
verso : Nnnbos, Tudo Perdido (poema), Carias da Guern 
Fora as Congregações., Aos Políticos, e São João nas rua 



Poetisas Portuguesas 197 

E em prosa : 

llliisão desfeita, Psalmos de Amor, 1910 ; Cma satisfação 
â Ea'.'^" Senhora D. Alaria Amália Vaif de Carvalho, 1911 ; 
*Vvi drama de ciiimes, Lucta de Sentimentos, A Marquesa de 
Vale Negro, 1914, (romances); Vida l^eal^ 1915; para a 
Biblioteca da Infância, escreveu : Horas de Folga, Recrea- 
res Infantis, Para ler nas férias, Por bom caminho, Para 
divertir, Alegrias, Historias famosas, bem como 7 folhetos 
para a colecção Um imitador de Sherlock Holmes. 

Alem ò'estes trabalhos, tem traôuziõo vários livros, como 
Lea, Dama das Camélias, etc. 

Apesar õ'outras ocupações lhe tirarem tempo e socego, 
D. Maria 0'Nei!l, que fez a sua estreia literária em 1907, 
trabalha actualmente nas seguintes obras : 

Claudia, Psycologia de uma americana^ Milagres de 

Santo António, A TJibora, romances ; Mulheres e reticencias. 

contos ; Folhas mortas, versos e Contos da Mamã. 

í Tem também promptos vários ôramas e peças teatraes 

i:ujos títulos são : Amor serôdio — comeòia òo tempo Òo 

[Vlarquez õe Pombal ; Scenas da Revolução — òrama em 3 

chs ; Sombra do Passado, iõem, iôem ; Scenas do Campo, 

^...i, iòem ; Um primo do ISrasil, e Xeque Mate, comedias. 

j Esta ultima é uma aòptação em verso. Do seu livro, Um 

rama de ciúmes, õiz o Dr. Canõiõo õe Figueireôo na Chro- 

ica literária, õo Diário de Noticias: «]á vimos muito tarõe 

ara falar Oeste romance firmaôo por um òos nomes mais 

ustres e mais simpáticos òa actual pleiaõe õe escriptoras 

ortuguesas». 



«A acção õe Um drama de ciúme, não poõe ser, como se 
:, mais impressiva e impolgante.» 
<Ha quaõros traçaõos com enexceõivel maestria.» 
í . Acerca õo mesmo livro e õa Lucta de sentimentos, expri- 
le-se oeste moõo Fernanões Costa, auctor õo Eterno Fe- 
nino e õoutros belos livros, numa notável carta aberta 
blicaõa no Dia õe 31-7-913: 



198 PoptiRúfi Portiiaup.^ns 



«Encontrei nas Õuas obras qualiõaòes ingenitas que mij 
impressionaram vivamente. A leitura õe muitos ôos seus ca 
pitulos não se poòe fazer sem commoviôo interesse, sem ur 
forte prazer literário, sem se estar reconhecendo, ôe cont 
nuo, a imperativa aptiòão artística e a innegualavel vocaçã 
romântica òa escriptora engenhosa que os ôelineou e 
creveu. Movem-se os seus personagens com õeliberaõa n; 
turaliòaõe, com impressionante faciliôaõe õe gente viv 
surprehenòiõa pela intelligente e sagacíssima observaõor 
em animaõos instantâneos ôa existência real e veròaôeir 

«A ôialogação é espirituosa, é saltitante, é fértil, éprofu 
õa, é cómica ou õramatica, conforme as circunstancias a 
clamam, na absoluta e completa proprieõaõe com os caso? 

«Estes são preòicaõos salientes òos seus trabalhos 
campo ôa literatura imaginosa, onõe V. Ex.^ marcanbo o s 
logar com afirmações ôe talento e òe graciosa e energi 
espontaneiòaòe, que ninguém imparcialmente, lhe póõe cc 
testar. E muito mais alto subiriam as Demonstrações ôo s 
gran^ôe merecimento artístico, se V. Ex.^ cultivasse as 
peciaiiõaôes literárias, em que já é òistincta, n'um meio i 
outra forma propicio ao òesenvolvimento progressivo ôel 

A obra literária õe D. Maria 0'Neill tem siõo õevi^ 
mente apreciaõa, como tive ocasião õe verificar por u 
bela e elogiosa coleção õe autógrafos que possue, firr 
õos pelos nomes mais em eviõencia na Literatura Por 
guesa. 

O ineõito que publico, faz parte õos versos õe que| 
compõe o seu livro a publicar — Folhas Mortas. 

Por esta poesia poõerão facilmente os leitores iulgar| 
beleza õas restantes proõuções õas Folhas Mortas. 



Poetisas Portuguesas 199 

FLIRT 

(INEDIIO) 

Quer que lhe ôiga o que é? Um jogo õe malôaôe 
Que arrasta muita vez mais longe a vontaõe : 

E', sabenõo-se isenta, avassallar alguém 
E sugeita-lo após com risos e õesôem : 

Nc.o ter em conta alguma o coração alheio, 
Mas õar granõe valor a um Oito, um galanteio : 

Trazer sempre após si uns ocos tagarellas 
Que pasmam alta noite em frente ôas janellas. 

Fechadas, já se vê, que a mulher troça- os rinôo, 
E õiz depois que o rol õos parvos é, infindo ! 

Eu nunca o quiz fazer. E' vil dissipação. 

Um sacrário respeita-se : — O que é o coração ? 

laria O' Neill. 



O QUE SÓ TERMINA COM A MORTE 

Perdidas illusões que tanto amei, 
Fulgente enxame ao seio acarinhado. 
Vós me fallaes ainda do passado 
E me fazeis sorrir do que chorei. 

Curou-me o tempo o coração lanhado, 
Mas deixou-me a lembrança do que errei 
Porque não peque, no que já pequei 
Crendo ser ouro o que só é dourado. 

Se olho as antigas crenças com piedade 
Um ecco do que fui me vibra n'alma 
Ao folgar juncto a mim a mocidade. 



200 Poetisas Portuguesas 

Mas commove-me vê-la em tanta calma 
Correr ôespreveniõa á realiõaôe 
Que finõa tuòo menos a sauòaòe. 

Maria ò'Eça 0'NeiU. Nimbos, Lisboa, 1908, pag. 200. 



UM SONHO 

Sonhei que me mataste e tive pena 
Da ôôr que õe fazê-lo sentirias • . 
Não te rias, meu anjo, não te rias 
Nossa alma poõe, se Ôe affectos plena, 

Olhar a morte impaviõa e serena 
E succumbir a alheias agonias. 
O mais pungente ò'essa triste scena 
Era, acredita, ver que padecias. 

Tenòo-me morto tu õepois choraste , . 
Ouvi-te alli, sem me poõer mover 
Sentindo em ôôr o coração estalar! . ■ . 

Sonho maldito que o Senhor afiaste : 
Ter-te junclo de mim, ver-te soffrer 
E não ter voz para te consolar. 

Maria d'Eça 0'Neill. Nimbos, pag. 4. 



APÓS UMA JORNADA D'AMARGURA 

Eu sei mui bem. Senhor, que não mereço 
De que ao meu peito, nunca descançado, 
Baixeis, Consolador Immaculado 
A suavisar-me a dôr de que padeço. 



Poetisas Portuguesas 201 



Se ô'ira, muita vez, n'alma estremeço 
Contra o õestino, que é por Vós manõaòo, 
Basta pensar no meu Jesus amaôo 
Para volver á paz òe que careço. 

Se em Vós a minha mente ôoloriòa 
Sempre tiver amparo e achar guarida 
Nas batalhas õa viòa, hei òe vencer! — 

E quanôo Òesça emfim á sepultura 
Apóz uma jornaõa õe amargura 
Como eu, Senhor, acharei bom morrer, 

Maria ò'Eça 0'NeilL N^imbos, pag. 35. 



D. ÁGUEDA LEONOR ALVARRÃO PACHECO 

D. Agueòa Leonor Alvarrão Pacheco nasceu em Elvas. 

Irmã òe D. Maria ]osé Alvarrão Pacheco Simões, e òe 
D. Henriqueta Pacheco é filha òe D. ]ulia Victoria Alvarrão 
Pacheco, e òo general Paulo Eòuaròo Pacheco, ambos já 
faleciòos. 

Esta ilustre Poetisa, que professa um veròaòeiro culto 
pela literatura, é auctora òe belos versos em português e 
em francês, òe alguns contos, comeòias e òiversos artigos, 
trabalhos estes quasi toòos publicaòos nos jornaes òe Lis- 
boa : Diário de Noticias, Diário Illustrado, Echos da Ave- 
nida, etc. 

D. Agueòa Pacheco tem também colaboraòo nos Aima- 
nachs òas Senhoras e Luso Brasileiro e no jornal ^'l Folha 
òe que é òirectora e proprietária a conheciòa escriptora D. 
Mice Moòerno. 

Nesse jornal, foi publicaòo um artigo seu intitulaòo JFe- 
mnismo, que mereceu a honra òe ser Iranscripto em va- 
los perioòicos Òcs Açores. 



202 Poetisas Portuguesas 

Entre as poesias mais apreciadas besta Senhora, posso, 
mencionar : A Duquesa de Bragança, A morte de Cleópatra- 
e os sonetos Trovejando e Porque ? ; Myrtes, T>u trouble 
partout e a versão õo Triste monge, òe Gomes Leal, etc. 

Nos versos em francês usa D. Agueõa Pacheco o pseu- 
õonimo õe Eleonor de S. Y. : nos contos o õe Edelwiss. 



PORQUE?! 

Meu Deus ! porque não ôás á pobre criatura 
Uma parcela só ôo teu poôer imenso ? ! 
Se a toõos cabe em õote o sofrimento intenso, 
E a viõa inteira é ôor, tristezas e negrura ; 

Se os bons momentos são. ■ momentoe, naba mais, 
Se na terra não pousa a perfeita ventura ; 
E se o cansasso vem após tanta amargura, 
A ponto be par'cer que somos imortais ; 

Porque não bás Senhor, na tua alta bonbabe, 

A' pobre criatura a quem a bor invabe 

Um meio simples, bom, para fugir bo munbo ? 

Porque não beixas tu que a viba, ao menos, seja 

Um livro que se lê emquanto se beseja, 

E que se fecha, emfim, quanbo o sofrer é funbo ? 

Agueba Pacheco. 



TROVEJANDO 

Estraleja o trovão no cinzeo espaço, 
Resfriam-se bo ether as camabas, 
'Scurecem bas montanhas as quebrabas, 
E envolvem tobo o vale em negro abraço. 



Poetisas Portuguesas 203 

No rio — que se estenõe em longo braço — 
De grossa chuva as gotas apressadas 
Repetem, sobre as aguas assustadas, 
Liquiõos õiscos õe perfeito traço. 

Gemem os choupos e os pinheiros mansos 
Ao peso enorme õa cauôal tormenta ; 
Fogem as aves, tremem mesmo os gansos ; 

Somente a luz ôo sol, toõa beleza, 
Surginôo emfim por entre a cor cinzenta, 
Ri õo pavor ôa térrea natureza. 

Agueôa Pacheco. 1910. 



D. HENRIQUETA GUILHERMINA 
ALVARRÃO PACHECO 

D. Henriqueta Guilhermina Alvarrão Pacheco nasceu em 
?lvas. 

Era a irmã mais nova õas poetisas D. Maria ]osé Alvar- 

lo Pacheco Simões e D, Agueõa Pacheco. 

Esta Senhora que foi casaòa com seu primo Manuel 
Joaquim Desiôerio Pacheco, oficial Ôistincto e professor õo 
Colégio Militar, faleceu em 1905. 

Dotaõo òe uma intiligencia viva e clara, e ôe belas quali- 
õaôes, possuia granôes aptidões artísticas. 

D. Henriqueta Pacheco apreciava muito as Belas Artes 
e, em especial, a musica. 

Escreveu em prosa, uma comedia de sala, num acto, in- 
ti'ulada Uma partida de damas, comedia que se represen- 

u varias vezes, em soirées, sendo muito aplaudida. 

Nas suas produções poéticas, simples e pequenas, ha 

:uns versos de muito realce e colorido. 



204 Poetisas Portuguesas 

A TARDE 

Declina o õia ! no horisonte linõo 
Vermelhas nuvens perpassanõo vão, 
E o sol fulgente a occultar-se quasi, 
já òesmaiaõo nos alumbra então ! 

Vai pouco a pouco agonizando placiôa 
Douraòa chama òesse facho intenso ; 
E o veu òe trevas òe uma noute amena 
Cae òesôobraõo, silencioso, imenso ! i 

Como òa noute o tenebroso manto 
'Scurece o praòo, o campanário, a cruz ! 
Assim 'scurecem, em minh'alma os brilhos 
Quanbo os teus olhos não me òão a luz! . • 

Trás me sauôaôes, esta aragem tépida, 
Suspiros, cantos, òe um amor celeste ; 
Bálsamo puro no meu peito aròente • . 
Suave orvalho na campina agreste ! ! 

Henriqueta Pacheco. Almanach Illustrado, Literário e 
Charaôistico para 1886,(2." anno), Extremoz, 1885, pag. 228. 



D. MARIA ]OSE ALVARRÃO PACHECO 
SIMÕES 

D. Maria José Alvarrão Pacheco Simões nasceu em El- 
v%s, senòo a filha primogénita õe D. ]ulia Victoria Alvar- 
rão Pacheco, já faleciòa e õo general Paulo Eõuarõo Pa- 
checo, antigo comandante geral da Arma de Artilharia 
cargo de confiança e espinhoso. 

Esta Senhora conta na sua familia grande numero de li- 
teratos. Alem do seu marido, o coronel òe Infantaria sr. 



Poetisas Portuguesas 205 



Luiz Henrique Pacheco Simões, oficial muito ilustraòo e 
■abalhaõor e consiõeraõo escripíor militar, e ôe seu filho 
'lario César Pacheco Simões (mais conheciòo pelo nome 

erário ôe Mário Pacheco), professor efectivo õo liceu Al- 

.3 Martins, òe Vizeu, auctor õos livros Òe versos : Horas 
Claras, Himnos á vida e ao amor, Livro de Trovas, Dálias 
^ Canções do meu lar, e õe suas irmãs D. Agueôa e D. 

enriqueta Pacheco, ainòa se teem ôeòicaõo ás letras, 
seus cunhaõos, os apreciados escriptores Luiz Leitão e 
sua esposa, D. Maria Pacheco Leitão, auctora òe Ivonne e 
Pitais, Estimulas (serie ôe contos vertiôos ôo francez e 
ôestinaôos ás creanç.as Ôas escolas primarias), e Um Evan- 
geli^ador da Bondade e Beleza, folheto no qual reuniu Õi- 
versos artigos publicaôos em ôiferentes jornaes, e pelos 
quaes se poôe avaliar ôa missão altruísta e ôos iôeaes òe 
Luiz Leitão. 

Desòe muito nova que esta ilustre Poetisa verseja. Po- 
rem, só mais taròe consentiu que fossem publicaôas algu- 
mas òe suas poesias. Fe: em 188!, no Eborense, a sua es- 
treia literária. 

Tem colaboraôo nos jornaes, almanachs e revistas : Porta 
Férrea, òe Coimbra ; Folha de óMafra ; O Meridional, òe 
Montemor-o-Novo; Jornal das Senhoras, òe D. ]ulia San- 
ôoval ; Folha, Jornal da Mulher, Diário de Noticias, Alma- 
nach das Senhoras, Alma Feminina, Revista do Bem. ôirigi- 
òa por Luiz Leitão, e no Tiro e Sport, onòe no numero 359 
òo 13." ano, referente a 31 òe Julho òe 1907, teve esta Se- 
nhora a satisfação ôe ver publicaòa na secção Sala das 
Pérolas, a sua traòução ôo monologo òo fim òo primeiro 
acto òo òrama — Hernâni, Òe Victor Hugo, trecho que vem 
acompanhaôo òo retrato ôe D. Maria José Alvarrão Pa- 
checo e òe palavras muito elogiosas, e que mereceu as 
melhores referencias ôe abalisaôos poetas e escriptores, a 
quem, previamente, havia siòo mostraòa pelo professor e 
ilustre oficial òe Engenharia sr. Marrecas Ferreira. 

Foi também na Sala das Pérolas que apareceu a traòu- 



206 Poetisas Portuguesas 

ção em alexandrinos, bo monologo ôe Carlos V, feita por 
Pinheiro Chagas. 

Alem òa bela tradução òo Hernâni, que os leitores ôesta 
Antologia poderão apreciar, esta Poetisa tem feito outras, 
como õe Freôeric Passy, SuUy Proô'home ; õe Theophile 
Qautier, verteu um conto, O ninho de rouxinoes. 

Em 1913, publicou D. Maria José Alvarão Pacheco, um 
folheto em verso, sob o titulo òe Sombra e cMisterio ; esta 
Senhora pensa fazer uma selecção òe seus versos, para os 
reunir em volume, o que será mais um bom serviço que 
presta á Literatura Portuguesa que, desse modo, ficará en- 
riquecida com valiosas produções poéticas (até hoje disper- 
sas), entre as quaes avultam alguns inéditos. 

Do valor dos versos de D. Maria José Alvarrão Pacheco, 
avaliará quem ler as Novas Alvoradas. 

NOVAS ALVORADAS 

Porque abates, mulher, a tua nobre fronte 
Aos pés do teu senhor, ao peso que te esmaga, 
Se o teu sentir é santo e a tua voz affaga 
E se é tão lindo e vasto o teu vasto horisonte ? 

Porque te algemam dize, qual servidor ingrato 
Se tu és livre e és águia a revoar no espaço ? 
Com que direito a lei. ousando erguer o braço, 
Trucida o teu talento e o teu sonhar maltrata ? 

Porque os olhos fechaste ás gerações passadas, 
E és tu que tens na mão as gerações futuras, 
Porque não tens também em teu poder seguras 
A liberdade e a luz das novas alvoradas ? 

Porque te envolve ainda o baixo servilismo 
Que faz nascer o engano, a falsidade, a treva ? 
Quando é que o sol rompendo, ao teu caminho leva 
O clarão sem egual, que mate o vil egoismo ? 



Poetisas Portuguesas 207 



5e tuôo em teu sentir Õesperta uma cohorte 
)e mil Òeôicações ! Como é que ninguém sabe 
iue o teu valor immenso até nem mesmo cabe 
"ío logar que lhe ôesse a gratiõão mais forte ? ! 

ião curves a cabeça !• . . Estuõa lê, meôita ! 
transforma o campo inculto em jarõim perfumaòo ! 
frabalha, aprenõe, ensina ! até que vás ao laõo 
)esse ente que comtigo o mesmo chão habita, 

:m vez òe inõifferente ou revoltaòa, apura 
^ forma a novas leis que possam sustentar-te. 
desponta já o sol que õeve illuminar-te, 
íasga, mulher, os véus õa tua noute escura ! 

•ío munõo. o teu logar não é a vã chimera 

lue se òesfaz qual fumo ! . . e é bello o teu caminho 1 

Ensina-o bem a pomba, entrelaçanòo o ninho, 

z com arôente afan, no seu covil, a fera. 

3 teu logar, mulher, é junto a quem paòece ! 
l é junto á prole ingénua ! • . . E's tu tal como o porto 
)nòe o cançaõo nauta encontra almo conforto 
luanõo a tormenta vem e o ceu azul 'scurece, 

or mais que ao longe paire o teu pensar inquieto, 
or mais que ao longe vás em nova e crua liòa 
ia òe puxar-te ao lar ignota mão queriòa ! 
io lar te ha-òe levar o veròaõeiro affecto • 

ias não ao lar que existe ! . ao lar ainòa òistante 
\as não ao falso ninho, onõe ha grilhões ainòa ! 
lO lar onòe a mulher por uma aurora linòa 
>os novos iòeaes, encontre a luz brilhante ! 

Maria ]osé Alvarrão Pacheco. Echos da Avenida, n." 996, 
e 5.Xn-1909, XXanno. 



208 Poetisas Portuguesas 



FRAGMENTO DO «HERNÂNI» 

(de VICTOR HUOO) 

(acto primeiro — scENA IV — Hemant, só) 

Tu o òisseste, ó rei ! õo teu séquito sou ! 

Dia e noite te busco ; atraz Õe ti eu vou, 

Caôa. passo que ôás, logo o meu passo o segue 

Em mim, a minlia raça, a tua, em ti, persegue. 

De olhos fixos no rei, punhal sempre na mão, 

Vê tu que senòa aponta o meu fatal conòão ! 

E agora és meu rival ! . Apenas um instante. 

Entre amar e oòiar eu fiquei vacillante, 

Pois no meu peito aròente oh ! crê ! não ha logar 

Para o meu oõio insano e o meu amor, a par ! 

Ia esquecenòo já, quanto te oõeio, amanòo ; 

Porém tu vens lembrar o meu sentir nefanõo. 

E's tu quem me òespería ! és tu que vens òizêr : 

«Acorõa, sonhaõôr, seguir-me é teu õevêr.> 

E o meu amor inclina a trémula balança, 

E vem cair também õo laòo òa vingança ! . . . 

Do teu séquito sou ! Tu o disseste, ó rei ! 

Caminha pois e vê, que aíraz õe ti irei. 

Nunca os teus cortezãos servis ou palacianos. 

Nem serviõores teus õo seu mister ufanos. 

Irão junto õe ti, fieis ao seu senhor. 

Como eu irei, ó rei, com tão seguiõo arõôr ! 

Os que te cercam, crê, cubicam só granõezas ! 

Frívolas honras, luxo ! o fausto e as riquezas. 

E os granôes õe Castella os poõerios vãos. 

Que póõem õar á larga, as tuas regias mãos. 

Eu não ! Eu quero mais ! Não sou tão fraco e louco. 

Que vá prenõer-me a ti e õesejar tão pouco ! 

Se a tua mão õestróe na minha viõa a paz 

A minha ha õe vingar o teu arrojo auõaz ! 



I 



Poetisas Portuguesas 209 



Eu quero mais !. . . Se em óòio o peito me incenõeias, 

Quero o sangue que tens a circular nas veias ! 

Quero a tua alma, a viôa e tuõo que um punhal 

Revolve, arranca e extingue em coração venal !. . . 

Caminha tu na frente ; atraz irei : não cança 

O passo meu á voz õ'esta infernal vingança. 

Irei onõe tu vás ! Imperturbável, só, 

ft lucta intentarei num guerrear sem ôó : 

Tu não ôarás sequer, um passo em pleno õia, 

Sem que eu te espreite e mostre a fronte mais sombria 

Nem volverás òe noute, o teu altivo olhar 

Sem que o persiga o meu, em fogo, a rebrilhar 1 

Maria ]osé Alvarrão Pacheco. Tiro e Sport, n.° 359 Ôe 31 
òe Julho Õe 1907, ano XIII. 



D. ALBERTINA PARAIZO 

D. Albertina Paraizo nasceu na ciõaôe òo Porto. 

A sua mociõaõe foi passaõa em contacto com talentosos 
loetas e escriptores ; conviveu muito com António Nobre, 
luctor òo Só e õas Despedidas, Eõuaròo Coimbra, õos 

ispersos, e António Fogaça, ôos Versos da Mocidade. 

Do mesmo moôo que os Poetas Brazileiros Alvares ôe 
kzeveôo, faleceu contanôo 21 anos õe iòaõe; Junqueira 
reire, 22 ; Casimiro ô'Abreu, 23; Castro Alves, 24 ; Aure- 
ano Lessa, 31 e Fagunòes Varella, 34 ; — António Nobre, 
òuaròo Coimbra, Cesário Verôe, António Fogaça e José 

uro, auctor õo Fel e AlfreÔo Serrano, auctor ôa Manhã 
^ourada — morrem em plena primavera Õa viõa ! 

Entre as varias publicações Ôe que esta mimosa Poetisa 
m siõo õirectora, citarei : Jornal da Mulher, Almanach 
xs Senhoras Portuenses, cujo primeiro ano foi publicaõo 

14 
\ 



: 



210 Poetisas Portuguesas 



em 1885, e o Almanach das Senhoras Portuguesas e Brasi- 
leiras. No primeiro oestes Almanachs, escreveram, entre 
outras pessoas : 

D. Alice MoÔerno, D. Maria José òa Silva Canuto, 
D. Alberto Dramão, António Fogaça, Hamilton õ'Araujo, 
Eõuarõo Coimbra, António Nobre, Bulhão Pato, ConÒe õe 
Sabugosa, Eugénio Õe Castro, Francisco Palha, Gomes 
Leal, Guerra Junqueiro, ]. Leite òe Vasconcellos, Joaquim 
õe Araújo, Júlio César Machaõo, Manoel Duarte õ'Almeiõa, 
Visconõe õe Monsaraz, Oliveira Martins, Roõrigues õe 
Freitas, Teixeira Bastos, etc, etc. 

O Almanach das Senhoras Portuguesas contem artigos Õe 
D. Maria Amália Vaz õe Carvalho, Alberto Pimentel, An- 
thero õo Quental, Canõiõo õe Figueireõo, Brito Aranha 
Eça Õe Queiroz, Fernanões Costa, J. AnõraÕe Corvo, Mar- 
celino Mesquita, Pereira Calõas, Ramalho Ortigão, Santo? 
Valente, Theophilo Braga, Visconõe õe Ouguella, VisconÒí 
õe Sanches õe Frias, Coelho õe Carvalho, Christovam Aires 
Xavier õa Cunha, etc. 

D. Albertina Páraiso é auctora õe um belo livro òe ver 
SOS — Rosas e Musgos, que abre com um autografo Ô 
João õe Deus. 

Esta Senhora tem colaboraõo Õesõe muito nova em inii 
meros almanachs, revistas e jornaes ; nalguns sustentei 
õurante anos, secções õiarias, lenõentes a eõucar e instru 
sensatamente a mulher portuguesa, muito lhe õevenõo pc 
isso, a causa õa eõucação feminina. 

No jornal o Dia, esteve a seu cargo uma secção assíf 
interessante — <Joias e Flores». 

D. Albertina Paraizo vive actualmente muito em especil 
para o resurgimento õas InÕustrias Portuguesas, senõo[ 
organisaõora õe uma exposição permanente, na qual 
encontram representaõas as mais curiosas e típicas inõuj 
trias regionaes, õo paiz como tive ocasião õ'apreciar qual 
õo procurei esta ilustre Poetisa no seu escriptorio õa rj 
õo Alecrim, que toõa Lisboa conhece. ú 



Poetisas Portuguesas 211 

A MINHA MÃE 

Para algaem sou o lyrio entre 09 abrolhos. 
GONÇALVES CRESPO. 

A ti, ó Santa, côr õe jaspe e arminho. 

Aza e conforto ôo meu pobre ninho, 

Para quem tenho as perfeições ôos astros ; 

A ti, qu^ nunca em tuas ôoces preces, 
Minha primeira amiga, tu me esqueces 
E a quem eu sempre hei õe aõorar õe rastros ; 

A ti, que instillas o frescor Õas rosas 
A's minhas longas febres tormentosas. 
Na Santa Uncção õos beijos que me ôás, 

A ti, que estás mais alta que as Rainhas, 
N'um céu, toõo borõaõo Õe anõorinhas, 
CoroaÕo õe cecéns e õe lilaz ; 

A ti, em cujo rosto apenas leio 
Poemas õe martyrios que o teu seio 
Encerra Santamente, ha largo espaço ; 

A ti, estes versitos Õe creança : 

Rosas simples, que prenõo á tua trança, 

Musgos verões, que ponho em teu regaço. 

Albertina Paraizo. Musgos e Rosas, Lisboa, pag. 25 e 26, 



MARES 



Lá, no profunõo e tumultuoso mar, 
O nácar gera a pérola luzente. 
Que brilha, como o palliõo luar 
No seio õ'uma noite transparente. . . 



212 Poetisas Portuguesas 



Assim também, no mar ôas minhas máguas, 
A ôôr gerou o pranto abençoaõo, 
Que ôesliza atravez as ouras fragoas 
Como um celeste bálsamo sagraõo. . • 

Albertina Paraizo. Musgos e Rosas, Lisboa, pag. 39. 



MADONA 

Não sei se eram mais bellas, mais formosas^ 
As MaÒonas õe Sanzio celebradas ; 
Nem se os vultos ôas granões Amorosas, 
Coroaôas õe Mirthos e õe rosas, 
Tinham as tuas formas òelicaõas. 

Sei que na minha esthetica mais pura 
Tu tens a torturaôa linha iòeal, 
Duma suave e biblica figura, 
Illuminanòo as folhas õ'um missal ■ 

Albertina Paraizo. Musgos e Rosas, pag, 71. 



NAUFRÁGIO 

Como caõaver, frio e regelaôo. 
Sobre as aguas errantes, no alto mar, 
De fragua para fragua arremessado. 
Sem nunca a paz Òo tumulo encontrar,. 

Tal no meu peito um vulto inanimaõo 
— O coração ! — extincto rouxinol, 
Vae boianõo, boianõo amortalhaõo 
Nas penas que lhe servem õe lençol . 

Albertina Paraizo. Musgos e Rosas, pag. 129, 



Poetisas Portuguesas 213 



DOLOROSA 

Dizer quizera ao coração — revive ! — 

Para poôer amar; 
E as õoces crenças, que eu outr'ora tive, 

Tornal-as a encontrar ! 

Depois, aòormecer, trémulamente, 

A' luz Õo teu olhar, 
Ter a visão ôum munòo transparente 

E nunca òespertarí 

Albertina Paraizo. Musgos e Rosas, pag. 89. 



D. MARIA CÂNDIDA DE BRAGANÇA 
PARREIRA 

D. Maria Canôiõa ôe Bragança Parreira nasceu em Lis- 
boa. 

E' filha ôe D. Henriqueta õe Bragança Parreira, e ôe An- 
tónio Maria ôe Oliveira Parreira, antigo professor Ôe linguas 
€ historia ôo liceu Camões, e auctor ôe vários trabalhos li- 
terários apreciaôos, como os Luso Árabes. 

Apesar Ôesta Senhora se ôeôicar mais a escrever peque- 
nas peças teatraes, Ôo género revista e opereta, ôo que á 
poesia, conta já ôuas eôições o seu livro Fersos, prefaciaôo 
por Lopes ôe Menôonça. 

Em 1916, õe colaboração com D. Magôalena Trigueiros 
ôe Martel Patrício e João ôe Vasconcellos e Sá, escreveu o 
Sarau dos Românticos, que com tanto êxito e brilhantismo 
foi levaôo á scena numa recita ôe cariôaôe, realizaôa em 
4-6 no Teatro Politeama, recita em que tomaram parte Se- 
nhoras e Cavalheiros ôa mais ôistincta socieôaôe ôe Lisboa. 

i 



214 



Poetisas Portuguesas 



Dessa noite, guarôo, como por certo succeòe a toõa a se- 
lectissima assistência, que por completo enchia o Politeamar^ 
a mais grata e viva lembrança. 

E ainõa hoje (õecorriôos mais õe õois anos após essa 
òata), não sei que mais aòmirar, se o fino gosto que pre- 
siõiu á feitura ôas engraçaõas e òelicaõas peças que nesse 
serão 5'arte e encanto espiritual me foi õaôo ver repre- 
sentar, se o bom õesempenho que amaôores tão õistinctos 
ôeram aos seus papeis, se, finalmente, o aspecto feérico que 
apresentavam em conjuncto, os balcões, os camarotes, as 
frisas e a sala. 

E agora, fechando o parêntesis que abri, e ponõo ponto' 
a amenas õivagações, ôirei que D. Maria Canõiõa Par- 
reira — a inteligente aluna òo 3.° ano òo curso òa Facul- 
òaõe òe Direito òa Universiõaòe òe Lisboa — é a única 
senhora a quem o ano passaòo foi conferida uma õistinc- 
ção nesse estabelecimento, para a matricula no qual se 
habilitou em 21 meses, tempo que levou a fazer os 7 ano»|| 
que constituem o Curso õo Liceu. 

LEMBRAS-TE? 

A oliveira era velha ! 
Mas no seu tronco risonho 
E' que eu te contei um Òia 
Como nascera o meu sonho. 



Eu. . . era a viòa futura . . 
EUa. . a viòa que passou- . . 
Porém o sonho òesfêz-se. . . 
E a oliveira ficou. 

Maria Canòiòa Parreira. Versos, Lisboa, pag. 55. 



Poetisas Portuguesas 215 



SUPLICA 

«Não vás ! não quero eu ! ôizia-te zangaõa, 
«Tu não póôes partir õeixanôo-me assim triste ! 
«E' òemais ! E' cruel ! Então em que consiste 
«Esse tão granõe amor, se eu fico abanòonaõa ? 

«Se partes, nunca mais terás no meu olhar 
«O mesmo amor profunôo, a mesma ancieôaòe, 
«Acabarei também eu por me habituar, 
«Por não sentir Òe ti a mais leve sauôaôe !» 

Dizia- te isto altiva e cheia òe despeito, 
Nervosa, a Disfarçar a granõe commoção, 
E palliòa, a tremer, levava a mão ao peito 
Como a qu'rer comprimir lá õentro o coração ! 

Mas n'isto o teu olhar cruzou-se com o meu, 
Li n'elle tanta ôôr que temi o castigo ! 
E n'um impulso òoiòo a rir e a chorar . . eu 
Peôi-te ; — «Parte, amor ! mas leva-me contigo.> 

Maria Canôiòa Parreira. Versos, pag. 61. 



SAUDADE 

Ao despedir ine de Lagos 

Essa palavra studade 
Aquelle que a inyentou, 
A primeira veas que a dijse 
Curo certeza que chorou. 

I.. VIEIRA. 

Desòe que contei partir 
Tanta tristeza me invaòe 
Que eu sei emfim traôuzir 
Essa palavra saudade. 



216 Poetisas Portuguesas 



Sauòaôe ! — Prazer sombrio 
Só quem a experimentou 
Comprehenòe o que sentiu 
Aguelle que a inventou . . . 

Foi sensação Õe tristeza ? 
Quem sabe ? talvez sorrisse 
De magoa, òôr e surpreza 
A primeira ve^ que a disse. 

Mas se foi o coração 
O único que fallou . . 
Não sorriu, õe certo, não, 
Com certeza que chorou . . . 

Maria Canòiòa Parreira, Versos, pag. 101. 



D. MARIA MAGDALENA VALDEZ TRIGUEI- 
ROS DE MARTEL PATRÍCIO 

D. Maria Magòalena Valõez Trigueiros òe Martel Patricio 
nasceu em Lisboa. 

E' filha Ôe D. Maria Henriqueta õe Mascarenhas GoÒinho 
Valôez e õe João Campelo Trigueiros õe Martel. 

Esta Senhora, que é casaõa com o õr. Francisco António 
Patricio, publicou em 1915, Le Livre du Passe Mort^ obra 
que contem formosos versos que foram inspiraõos no seu 
granõe amor pelo PassáÕo e pelas coisas frívolas e femi- 
ninas que encantam a sua sensibiliõaõe, e que o seu espi- 
rito aõora. 

Le Livre du Passe Mort foi acolhiõo pelos nossos inte- 
lectuaes e por toõa a Imprensa Portugueza com mereciôas 
palavras õe louvor. 

Neste original livro faz a õistincta Poesia õe quem me 



I 



Poetisas Portuguesas 217 

estou ocupanôo. a reconstrução òo Passáòo, numa lingua- 
gem harmoniosa, apropriada e evocadora. 

Para bem se avaliar õa inôole òe Le Livre du Passe Mort, 
cujos capítulos são : 

A la beaufé mouraníe des choses du passe! (que com- 
prehenõe os sonetos, Vieilles soies, Vieux miroirs, Vieux bi- 
joux, Vieux Evantails, Vieux cristaux et porcelaines, etc.) ; 
Oraisons au Charme qui s'evolle des belles choses fragiles ; A 
la couleur triste et f^aie des heures qui secoulent ! ; Rêves et 
impressions fugitives! (que se compõe Õos sonetos Femse à 
Vheure ou les belles choses sont plus belles /, Seville à Vheure 
oii les jardins sont embautnés, et Lheure oii la paix tombe., 
divine, sur nos champs /, etc.) Evocations du vieux passe — 
que comprehenòe Dans les temps heroiques de la Grece 
dorée — (Impressions õe la Danse ôes Faunes et ões Ba- 
chantes ôe Tremisor), La Belle Epoque Romaine sous VEm- 
pire d'Hardrien (impressions õe la vallé õe Tibur), Dans 
les temps mysterieux du Moyeu Age \ Dans les splendeurs 
de la Renaissance Italienne ! (souvenirs õe la cite Ões mar- 
bres et ôes lys, etc. — reproduzo o que a este respeito õiz 
sua auctora, que modestamente o firma com o nome de 
Maria Magdalena : 

«A toutes les íemmes, dont les ames três femenines, peu- 
vent seules comprendre le charme et la beauté des choses 
frivoles et fragiles, que nous adorons, je dedie ces vers faits 
pour elles, comme des pauvres oraisous que j'adresse à tout 
ce qui est beau et doit mourir. • > 

D. Maria Magdalena trabalha num interessante livro em 
que o seu temperamento creador, original e verdadeira- 
mente artístico, por certo se revelará mais uma vez. Rendas^ 
se intitula essa obra, certamente um novo triunfo para a sua 
auctora. 

I Ao falar nesta distincta Poetisa, é justo lembrar ainda o 
jpapel que bem recentemente tomou, ajudada por distinctas 
ie dedicadas amigas, na encantadora festa do Mercado Re- 
<írional., realizada a favor dos Soldados Portugueses. 



218 Poetisas Portuguesas 



Esta Ôeliciosa, interessante e pictoresca òiversão, em que 
figuraram ilustres Senhoras e gentis Meninas e Rapazes õa 
nossa primeira socieòaôe, vestinõo os caracteristicos trajos 
ôe õiferentes regiões òo Paiz e õa Iliia õa MaÒeira, pertence 
ao numero õas festas cuja grata impressão perõura e que 
òo mesmo moõo que o Mercado Regional, realizaõo no 
Porto, a instituição ôas Madrinhas de Guerra (iòeia que 
partiu Òe D. Sophia Burnay ôe Mello Breyner), e a Festa 
da Flor levaòa a efeito, com granõe sucesso e brilhantismo, 
em Lisboa, Porto, Coimbra e outras ciõaôes e terras ôe 
Portugal — serão lembraòas com sauôaòe, não só por to- 
dos aqueles que a elas assistiram, como também com gra- 
tiôão pelas inúmeras famílias a quem tão simpáticas e bem- 
íazejas iniciativas proporcionam inúmeros benefícios. 3 

No Mercado Regional, realisaôo em Lisboa nas salas ôa 
SocieÕaõe Nacional õe Belas Artes, tomaram parte, alem 
ôe D. Maria Magôalena Trigueiros e D. Zulmira Franco Teí 
xeira (auctora ôe belas e alusivas quaôras que acompanha 
vam as flores que se venôiam) : 

D. Maria L. ôe Brito Rocha e Mello, D. Helena ôe Brite 
Rocha e Mello, D. Anna ôa Cunha e Menezes Pinto Carôosc 
(Lumiares), D. Maria Luiza Barroso ôa Camará, D. Fran- 
cisca Seabra ôe Lacerôa, D. Maria ôe Brito ôa Rocha < 
Mello, D. Emilía Cabral ôa Silva, D. Maria ôe Roure, D. So 
fia Peôreira, D. Maria Carlota ôe Paiva Raposo, D. Alber 
tina ôa Camará Roôrigues, D. Constança ôe Berquó (Loulé) 
D. Maria Viana ôe Lemos ôa Costa ôe Albuquerque Sale 
ma, D. Maria ôa Conceição Viana Machaôo Castello Branc< 
(Caria), D. Ema Ferreira ô'Almeiôa, D. Helena ôe Queric 
Macieira, maôemoiseles Levy, Tavares Pinto ô'Avellai 
WaÔôington, Zaguri, Amzalak, D. Maria ôe Sola Telles ô 
Castro Lopes, D. Izabel ôe Aguiar ôe Castro e Sola (Fran 
cos), D. Maria Clara Telles ôa Silva Ôe Castro e Sola, E 
Maria ôo Carmo ôe Menôonça Pessanha (Rezenôe), D. Ma 
ria Luiza Ôe Vasconcellos e Sousa Alves, D. Helena ôa Ca 
mara Viterbo (Ribeira), D. Alice Bettencourt, D. Angelin 



Poetisas Portuguesas 219 

Plantier, D. Olga Buzaglo, D. Maria Lima Pefers, D. Octa- 
via Sassetti, D. Maria òa Maòre õe Deus Sampaio Mello e 
Castro e D. Palmira Navarro Viana Bastos. 

L'HEUSE ROUGE 

DéSsechée au grano loin se Ôeroulait la plaine 
Telle une vaste mer aux enormes vaisseaux 
Et c'etait les hameaux, eblouissants õe chaux, 
Voiliers proõigieux õe cette mer lointaine. 

Le soleil flamboyait õans sa granõeur paienne, 
Acablés Õe chaleur peisaient les animaux, 
Et le soleil brulait et bergers et troupeaux, 
La terre s'embrasait Õe rougeur incertaine . . . 

La terre s'enõormait pesante õe someil, 
Défaillant aux baisers farouches õu soleil, 
La cigale chantait õans Tepaisseur Õu foin. 

L'heure rouge flambait en chansons õe lumière, 

E cette heure semblait être Theure õernière, 

Que les cloches sonnaient õans les clochers au loin ! 

Maria Magõalena. Le Livre du Passe Mort. 



ORAISON AUX DENTELLES 

}áÕore la souplesse fine ões õentelles . . 
En les touchant parfois Ões Õoigts impatients 
Le õoux frémissement ões tissus anciens 
Me fait trouver une âme aux choses irreélles ! 

Jáõore la souplesse fine ões õentelles . . 
Des femmes Õ'autreíois aux profils patriciens, 
Ont broõé patiement, õe leurs õoigts magiciens, 
Ces rêves transparents, aux grâces éternelles ! 



220 Poetisas Portuguesas 



Vous õurerez toujous òentelles òu passe, 
Car sur vos vieux Õessins, un parfum, éffacé, 
Vous òonne Ia fraicheur comme une eau qui jallit. 

Et Ia calme Beauté qui se meurt õans votre âme, 
Nous reparait en grâce, et charme, sur la femme, 
Dentelles õe Venise, Irlanôe ou Chantilly ! 

Maria MagÔalena, Le Livre du Passe Mort. 



D. MARIA DO CARMO PEIXOTO 

D. Maria òo Carmo Peixoto é filha òe D. Maria Aòelaiôe 
N. òe Abreu Peixoto e òe ]osé õa Cunha Abreu Peixoto.^ 

Os versos òesta Senhora nunca foram reuniõos em vo- 
lume, o que é para lastimar, pois formariam um apreciável 
cônjucto, em que predominaria a beleza, originaliòaòe e 
graça. 

As poesias õesta Senhora teem siõo publicaòas em va 
rios jornaes, como a Nação, Jornal do Comercio, etc. 

DEIXÁE QUE EU SONHE... 

Se a Crença que me anima e acalenta 
Se o Amor e o Bem, tuòo que é bello 

E' mentira na Viõa. . . 
Se é tuõo um sonho, o que me faz viver . . 
Oh ! õeixae-me sonhar a viõa inteira 

Quero viver illuòiôa ! 

Quero viver no Sonho e na Chimera 

Se me chamarem louca, o que me importa ? ! 

Se sou feliz assim ? ! 
Eu quero acreditar que o Amor existe . . ' 

Que a virtuòe, não é uma mentira . . 

Que a viõa não tem fim ! 



Poetisas Portuguesas 221 



Acreôito nas almas côr õ'arminho 
E que mesmo nas almas õesôltosas 

Negras como o Horror.. . 
Ha um cantinho branco, aonôe occultos, 
Fallanôo mui baixinlio - • existe o Bem 

A Crença e o Amor ! • . 

Não me rasgueis o veu õa illusão 
E õeixae-me sonhar. . . Se é mentira 

Se a viõa não é isto. • . 
Não me acoròeis- . Cuiõaõo ! a viõa é breve ! 
Ah ! õeixae-me sonhar . . Que eu só Desperte 
Um õia aos pés õe Christo ! 

Maria òo Carmo Peixoto. 



A UNS OLHOS . 

Teus linõos olhos raõiosos 
Não sei que fatal conòão 
Possuem, que o coração 
Nunca mais senti bater 
Depois õe os ver ! 

Ha uns olhos que ôão viôa 
Ha outros que morte õão 
Teem esse fatal conòão 
Os teus olhos, meu amor 

Mas Senhor ! 
Como é bom assim morrer 

Depois òe os ver ! 

Maria òo Carmo Peixoto. 



222 Poetisas Portuguesas 



D. EUGENIA REGO PEREIRA 

D. Eugenia Rego Pereira nasceu na Ilha òa Maòeira. 

Tem colaboraôo em õiversos jornaes òessa Ilha e no 
meaòamente no Diário da õMadeira, òe que é õistincto õl 
rector José Cruz Baptista Santos, auctor òas Rosas e Jas 
mins. 

Ao ilustre poeta, bem como ao meu amigo ]orge õa Silva 
Freitas, aqui òeixo expresso o meu sincero agrabecimento 
por algumas indicações que me forneceram acerca õas 
Poetisas Maòeirenses. 

AO CAIR DA TARDE 

Vae aos poucos o sol esmorecenõo 
Entre as nuvens Òoiraòas, setinosas ; 
E as aves o espaço percorrendo 
Vão no ar como pétalas õe rosas. 

Choram as fontes, e as flor's tremenôo 
Na haste se baloiçam õeleitosas, 
Longe, o pastor o gaõo recolhenòo 
Entoa triste umas canções sauòosas. 

Uma vaga tristeza nos invaõe. 

Em noss'alma se espalha uma sauòaòe, 

Echo õistante ôe passaòo hymno. 

E o sol em fogo, treme agonisante, 
Depois. . a noite apaga-o n'um instante, 
Como lagrima ao riso cristalino. 

Eugenia Rego Pereira. Funchal. 



Poetisas Portuguesas 223 



ECHOS QUE PASSAM 

Noite Ôe estio arõente. — Pelas alõeia, 
Nas eiras cantam linõas raparigas 
Loiras, õa côr bo oiro Òas espigas, 
O amor que as almas moças incenõeia. 

A lua, hóstia Òe luz, no ceu vagueia, 
Ao som plangente e terno Õas cantigas, 
Sentinôo reviver canções antigas 
O pensamento vôa, devaneia. 

E õeixa-nos sonhar. — E a sonhar vamos 
Passaõo fora, á infância que lembramos. 
Mas, sonhos òe luar, tuõo acabou ! 

Ao longe, o echo morre docemente, 
E òá-nos a illusão que é o som dolente 
Dos cantos que o passaõo nos levou, 

Eugenia Rego Pereira. Madeira. 



D. LUIZA MARIA PEREIRA 

D. Luiza Maria Pereira é natural da Ilha da Madeira. 

Os seus versos vêem publicados na obra «Flores da Ma- 
eiran «poesias de diversos auctores Madeirenses colligi- 
as pelo Dr. José Leite Monteiro e Alfredo César d'01i- 
'eira>. 

A 2.^ serie das^ Flores da Madeira entre outros nomes 
e poetas, menciona os de : 

Januário Justiniano de Nobega, João Fortunato d'01iveira^ 
oão da Nobega Soares, João C. Coutinho Gorjão, José 
mtonio Monteiro Teixeira, José Mareia da Silveira, etc. 



224 Poetisas Portuguesas 



TRIBUTO DE SAUDADE 

Ergue-te, pomba, õo gelaõo leito ; 

Vem escutar a minha voz sauôosa ; 

Vem ver-me o pranto que hoje aqui, chorosa, 

Por ti rebenta õe meu triste peito. 

Dos puros lábios o ingénuo riso 
Venho buscar, para apagar-me a õor 
Que me õeixára Òa mubez o horror 
Em troca òo terreno paraiso. 

Em quantos peitos a viuvez deixaste ! 
Em quantos olhos borbulhando o pranto 
Que em vão reclama ò'essa voz o encanto, 
Que ôéste a Deus e n'alma nos gravaste ! 

Eras ôo ceu, angélica assucena ! 
Teus òias a virtuôe numerou ; 
Dos anjos a symQathica ternura 
Na bella fronte o berço te gravou. 

Ai berço, berço õe flores 
Que a materna mão creou ; 
Ai berço aonõe a virtuôe 
Seu perfume ensinuou ! 

Bebeu teu seio esse aroma 
Que no sepulchro fechaste, 
E ás almas que acarinhaste 
Esse néctar ainda assoma ! 

Eras õo ceu, sympathica assucena ! 
Envia ao seio õo amaõo esposo 
Esse perfume õ'alma que, choroso, 
Ella procura para a viva pena. 



Poetisas Portuguesas 225 



Solta-lhe n'alma, que a sauôaõe rala, 
O hálito que a viõa lhe afagava ! 
Essa òoçura que o alimentava 
Mate-lhe o fel que nos seus ôias cala. 

Luiza Maria Pereira. Flores da Madeira, 1871. 



D. MARIA DA COSTA PEREIRA 

D. Maria õa Costa Pereira beni como outras Senhoras a 
quem faço referencia nesta Antologia, nasceu na riõente e 
bela Ilha ôa Maôeira, 

Nas <^ Flores da Madeira», obra que já varias vezes citei, 
ha colaboração ôesta Poetisa. 

O 1." volume— 1." serie — òa mencionaõa publicação 
[jpareceu em 1871 e a 2.' serie em 1872. 

Entre os Poetas mencionados nesse trabalho, leem-se os 
liomes &e : 

António Policarpo ôe Passos Sousa, Alfreòo César ò'01i- 
eira, Alipio Augusto Ferreira, Diogo Derenger }unior, 
|',òuaròo E. ôe Carvalho, Francisco Vieira, etc. 

A MINHA IRMÃ 

I 

Da natureza fecunõa 
Na primavera gentil, 
Quanòo òo seio õo Eterno 
Chovem thesouros, a mil, 

E o grémio òa terra exhala 
Perfumes gratos nas flores, 
Tuõo é esperança e ventura 
E tuòo respira amores, 

15 



226 Poetisas Portuguesas 

Da tua existência o òia 
Primeiro a luz conheceu ; 
As impressões ò'esta quaõra 
Tu'alma toÊas bebeu. 

11 

Hymnos !• . . hymnos teus annos me peòem ! 
No meu seio a amizaõe os contêm ; 
Mas a lyra, instrumento òe máguas, 
Para o goso já forças não tem, 

Hymnos!.. 4 hymnos talvez maguassem 
De teu peito a feriõa ternura ; 
Do pesar ouve os sons que conheces, 
Co'a amargura se justa a amargura. 

Para erguer os punhaes òe teu seio, 
O meu seio não ôeixam curvar 
Os que o meu cruelmente laceram ; 
Só me resta comligo chorar ! 

Tuas òores são minhas e tuas ; 
Meus pezares, sombrios, são teus ; 
Do martyrio a c'rôa e a palma 
Para nós guaròa o seio õe Deus. 

Maria õa Costa Pereira. Piores da Madeira, 1862. 



D. BEATRIZ PINHEIRO 

D. Beatriz Pinheiro nasceu em Vizeu. 

Foi no liceu ôessa ciõaôe, onõe fez com muito brilhe 
curso complementar òe sciencias e letras, no qual obt 
ôistinções em quasi toõas as õisciplinas. 

Os primeiros trabalhos literários õesta ilustre Poe 



Poetisas Portuguesas 227 

ram publicados quanòo frequentava os últimos anos 
liceu ; apareceram na revista acaôemica A Mocidade, 
lõaôa nessa ciõaòe por seu conôiscipulo Carlos ôe Le- 
is, poeta e professor com quem anos ôepois se uniu por 
;os matrimoniaes. 

Nessa ciôaôe, crecu D. Beatriz Pinheiro, ajuõaôa por 
u esposo, a revista ôe arte e critica, Ave A^ul que ourou 
is anos. Na secção Sala de Visitas ôesta interessante 
/ista, figuram versos õe : Fausto Gueões Teixeira, Euge- 
) Òe Castro, Manoel ôa Silva Gaio, Carlos õe Mesquita, 
irrea ôe Oliveira, Affonso Lopes Vieira, Camillo Pessanha, 
Thomaz õe Noronha, etc. 

Foi, principalmente, a partir õe 1900, que esta Senhora 
lis activamente se preocupou com o problema õa eman- 
>ação õa mulher pela instrução e pelo trabalho, como 
k/elou em muitos artigos e crónicas que em Portugal e 
) estrangeiro õespertaram bastante interesse, tenòo al- 
ns õeles õaôo origem a larga polemica como a que sus- 
itou o faleciõo paõre e escriptor Senna Freitas, na Tri- 
na. 

Os artigos a que aluõo, foram publicaõos na Ave A^ul, 
òe D. Beatriz Pinheiro colaborou, escrevenõo muitos 
ntos, que tiveram a honra ôe ser, quasi toõos, traõuzi- 
s e ôivulgaôos, em revistas õe Itália, por A. Mari. 
m verso, alem õa Oração, e õos sonetos Psiché, Cri- 
ida e as folhas de um Álbum (uma õas suas primeiras 
nposições poéticas), escreveu os poemas Q4nheUa e Os 
j cavaleiros que Thomaz Camizzaro e Phileas Lebesgue 
teram, respectivamente, para verso italiano e para prosa 
laòa franceza. 

)s trabalhos literários õesta Poetisa foram carinhosa- 
tite apreciaôos na Imprensa Portuguesa por Roôrigo 
oso, TrinõaÕe Coelho, Teixeira Bastos, Luiz Trigueiros, 
H)lfo Portela, José Agostinho, }ulio õe Lem.os, José õe 
|;eõo. Augusto õe Castro e por outros escriptores cujos 
hes me não lembro neste momento. 



228 Poetisas Portuguesas 

A eles se referiram também as revistas estrangeiras, ( 
labria, Iride de Reggio, Esperta, õe Caserta, VHumai 
Nouvelle, Verbeine, Mercure de France, etc. 

Igualmente tiveram palavras òe encómio para esta 5 
nhora : 

A. Paôulla, Prospero Peragallo, L. Zuccaro. V. Çmile 
chelet, Thomaz Camizzarro e Any René ò'Yvemont, que 
Mercure de France escreveu : 

— «Beatriz Pinheiro ['Aòa Negri ôu Portugal. . . » 

J'ai retenue au hasarô une õelicieuse Oraison (Orai 
emquanto meu filho õorme) õigne õe João ôe Deus, la t 
laõe òes Trois Cavaliers (Os três cavaleiros) qu'on ôi 
õe folklore, Psiché, Anhelia, õ'un souple si õelicieusem 
subjectif et pantheistique>. 

Como prosaõora, õe D. Beatriz Pinheiro, õisse Any R' 
õ'Yvemont, na Verbeine : J'ai lu et relu bien ões fois /J 
almas, (Deux ames) Nouvelle õe Beatriz Pinheiro, oúj 
sentiments sont sufisement ciselés. Duas almas est um 
tit chef õ'oeuvre õigne õe nos meilleurs ecrivains>. 

Por ocasião õo caso Calmon, coaõjuvaõa por um gr 
õe senhoras que a escolheram para presiôente õa Ui 
de Senhoras Liberaes de Viijfeu, funõou D. Beatriz Pinhe 
como protesto contra a eõucação congreganista, a Es< 
Liberal João õe Deus, para raparigas pobres. 

D. Beatriz Pinheiro foi, õurante três anos, professor? 
Liceu Maria Pia. Actualmente, é professora õe Litera 
Portuguesa no Curso especial õe Eõucação Femininé 
sócia õe mérito õa Associação õas Escolas Moveis Joã 
Deus, por proposta õe Magalhães Lima ; é sócia corresi 
õente õo Instituto õe Coimbra, por proposta õo Dr. I 
narõino MachaÕo. 



Poetisas Portuguesas 229 



CRISÁLIDA 

Des ailes ! des ailes ! des ailea ! 
TH. GAUTIER. 

Nas horas õe silencio, olhos fechaòos 
Ao beijo hypnotico õo luar bemõito, 
Que azas leves são essas que eu agito 
Por longínquos caminhos ignoraòos ? 

Que azas fluiòas são essas que, se fito 
Do alto õelas os munôos afastados, 
Meus olhos logo sinto õeslurabraôos 
Na luz õessas pupillas õo Infinito ? ! 

Azas leves, mais leves òo que a aragem. . . 
E fluiòas, vaporosas como a imagem 
Dum clarão sobre as aguas fugiòias. . . 

Azas que me arrebatam, céus em fora, 
Para onôe o sonho vive e onôe a Luz mora, 
Ao êxtase õas òivinas alegrias ! 

eatriz Pinheiro. 



HINO AO SOL 
(do poema Anhelia) 

Oh Sol que com teus raios, mal assomas. 
Azulas toõo o ceu e a terra aloiras : 
Que o chão mal tocas com as fulvas comas 
E a poeira ôo chão p'ra logo òoiras : 

Oh Sol, que és tuõo quanto ha na Terra : 
Que és flor e és fruto, que és perfume e és còr : 
Sol, cujo seio a viõa toõa encerras, 
3ue a viòa não é mais òo que calor : 



230 Poetisas Portuguesas 

Oh Sol que estes meus olhos enxugavas, 
Quanòo elles, razos ò'agua, mal te viam . . 
A ver se com teu hálito secavas 
A fonte ôonõe as lagrimas nasciam : 

Oh Sol que no meu lábio agora cantas, 
Meu sangue aqueces, nos meus nervos vibras 
Sol que p'ra o Ceu õa Terra me levantas 
E que entre o Ceu e a Terra me equilibras : 

Claro Sol ! Vivo Sol ! Oh Sol Õivino ! 
Pela luz cujo rasto agora sigo, 
Em que anôava perõiõa sem Destino, 
Oh ! Sol ! eu te bemòigo ! 

Beatriz Pinheiro. 



A' MEMORIA DO POETA DAS PENINSULARES 
DR. SIMÕES DIAS 

Poeta Ôo Amor, que o puro Amor cantaste 
E tão ceòo fugiste ao nosso amor, 
D'o!hos fitos no vivo resplenòor 
Do sonho que na terra não achaste : 

Se /i, onõe o teu sonho realisaste, 
Tu que foste na terra um sonhaòor. 
Algum ecco perôiôo, algum rumor 
Ainòa chega õo munõo que Deixaste : 

Que o perfume òas rosas òesfolhaòas, 
Que a essência òas lagrimas choraõas 
Na cova, onõe o teu corpo repousou, 

Num claro raio ôe luz p'ra ti voanòo 

Te façam o ether brando inõa mais branõo 

Lá, onõe o teu espirito voou. 

Beatriz Pinheiro. Ave A^ul, Revista õe Arte e CriticaJ 
rie I, fascículo n." 4, Vizeu, 15-4-1899, pag. 146. » 



Poetisas Portuguesas 231 

D. ANNA AUGUSTA PLÁCIDO 

(viscondessa de CORRÊA BOTELHO) 

D. Anna Augusta Placiõo nasceu na ciõaôe ôo Porto, em 
setembro Òe 1833. 

Faleceu contanôo 62 anos Òe iõaõe, em São Miguel ôe 
Seiôe, aos 19 õe setembro ôe 1895. 

Era filha ôo comerciante portuense José Placiòo Braga 
— uma Ôas victimas ôo celebre naufrágio ôo vapor T^orto, 
suceôiôo na tarôe ôe 29-3-1852— e ôe D. Anna Augusta 
Vieira, natural também ôo Porto. 

Dos ôoze filhos oeste consorcio, em 1862, apenas resta- 
vam quatro, no numero Ôos quaes se contava D. Anna 
Placiôo, que a este facto aluôe no aômiravel prologo ôo seu 
livro Luiji coada por ferros, que foi escripto como é sabiôo, 
na caôeia ôa Relação ôo Porto. 

D. Anna Placiôo consorciou-se, em primeiras núpcias, 
com o rico comerciante portuense Manoel Pinheiro Alves, 
Ôe quem enviuvou em 15 ôe ]ulho ôe 1863, tenôo haviôo 
ôesse matrimonio um filho Manoel Placiôo que faleceu na 
Povoa ôe Varzim em 17 ôe setembro ôe 1877, contanõo 
apenas 19 anos ôe iôaôe ; a sua morte foi muita sentiôa 
por Camillo, que nas Scenas da Hora final escreveu a pro- 
pósito oeste acontecimento algumas ôas suas mais belas 
paginas ôe prosa. 

No ôia 9 ôe março Ôe 1888, Camillo casou no Porto, na 
sua casa ôa rua ôe Santa Catharina n.° 458, com D. Anna 
Placiôo, ôe quem teve os seguintes filhos : ]orge Camillo 
Castello Branco —o primogénito que mais tarôe enôoiôe- 
ceu e a quem por ôecreto ôe 23-5-1889 foi conceôiôa uma 
pensão vitalícia anual Ôe um conto õe reis ; e Nuno Cas- 
tello Branco, agraciaôo com o titulo ôe Visconôe ôe São 
Miguel ôe Seiôe, faleciôo em 23-1-1896. 

D. Anna Placiôo, Senhora muito culta, versaôa em lite- 
ratura esoíreòora, escreveu: Linj coada por ferros ; no jor- 



232 Poetisas Portuguesas 



nal O Leme, òe seu filho Nuno, publicaòo em Seiòe, co- 
meçou, sob o pseuòonimo Ôe Lopo de Sousa, um romance 
— Núcleo de Agonias, trabalho este, em que ha, como na 
Z,uf coada por ferros, veròaôeiros traços revelaòores õe 
òôre passagens que são claras notas autobiográficas. 

Traduziu : A Marcelle, òe AmaÔée Acharõ, com o titulo, 
Como as mulheres se perdem^ Porto, 1874, 

No mesmo ano, e òo citaòo auctor, A vergonha que mata ; 
em 1875, Aprender na desgraça alheia, trabalhos em que 
usou o pseuòonimo já citaõo ; A vida futura, òe Lescoeur, 
1877 (versão revista e prefaciaòa por Camillo), e O Papa e 
a liberdade, òe R. Constant, etc, 

D, Anna Placiòo também usou na Gaveta litteraria òo 
Porto, òo pseuòonimo òe Gastão Vidal de Negreiros. 

Colaborou em inúmeros jornaes. 

Foi por causa òe D. Anna Placiòo que Camillo òeu en- 
traòa na caòeia òo Porto em 1-10-1860, òonòe sahiuabsol- 
viòo em Outubro òe 1861, 

No cárcere, escreveu o mais fecunòo romancista portu- 
guês alguns òos seus melhores livros, senão os mais per- 
feitos e belos : 

Amor de perdição, Romance de um homem rico, Annos de 
prosa, alguns òos Do^e casamentos felizes, etc. 

Para bem avaliar òa enorme influencia que D. Anna Pla- 
ciòo exerceu sobre Camillo, que pela primeira vez que a 
viu — já noiva — num baile òa Assemblêa Portuense lhe cha- 
mou a sua mulher fatal, é muito útil e interessante a lei- 
tura òas seguintes obras òe Camillo : Memorias do cárcere, 
Annos de prosa. No bom Jesus do Monte, Eusébio Macário, 
Os brilhantes do brasileiro, Scenas itxnocentes da comedia 
humana e Ao anoitecer da vida, livros em que D, Anna Pla- 
ciòo é trataòa, por Rachel, Adriana, Henriqueta, Ludovina, 
Leonor, etc. 

A lista citaòa ficaria incompheta, se não mencionasse oS 
trabalhos òo eruòito investigaòor sr, Alberto Pimentel, cu- 
jos titulos são : éMemorias do tempo de Camillo, Romance 



Poetisas Portuguesas 233 



do Romancista, e sobretudo o seu conscencioso estuòo Os . 
Amores de Camillo. Quem ler as obras citaòas ficará com 
uma iòeia completa e nitiòa Õos vjranòes Òramas amorosos 
ccorriôos na viõa òo maior romancista português. 

A' poesia Maldita, que reproòuzo nesta Antologia, res- 
ponõeu Camillo com uma outra intitulaôa, Maldita porque ? 
que começa e termina oeste moõo : 

Maldita I Que importa que o mundo te brade, 
Qae a infâmia na fronte te escreva : «maldita !• 
O Chriíito, no Itntjo da dor infinita, 
Também foi meldito da raça precita, 
E Ohristo era um Oeus. 



Bemdita, bemdita, 6 martyr tu lejas, 
Que um dia sonhaste ventura no amor ! 
Cabisttt da altura dos teua devaneios 
Cahiste e clioraste ; e a chorar, pasmam cheios 
Tena dias de dôr ! 

Camillo Castello. Branco. Ao anoittcer da vida. 

Provanõo o seu afecto por D. Anna PlaciÕo, vou repro- 
j)uzir a seguinte quaòra escripta pelo auctor ôe Um Livro 

Duas Épocas da Vida, copiaôa õo n." 521, õe 4-2-1906 
jKII anno), pag. 2 òa Mala da Europa. 

A RACHEL 

fULTIMOS versos) 

Eu deixei de viver, quando os meus olhos 
Deixaram de le v@r, ó minha amada ! 
Ceguei, morri I De mim que reata agora ? 
O estortor da alma atormentada. 

IE' òo livro Camillo inédito, õo Visconõe òe Villa Moura 
Iseguinte trecho õe um autografo òe Camillo : 

«Os incuráveis soffrimentos que se vão complicanõo 

os os òias levam-me ao suiciôio, único remeõio que 

s posso òar. Roòeaõo õe infeleciõaões õe espécie mo- 

senõo a primeira a insânia ôe meu filho Jorge, e a se- 



234 Poetisa/i Portuguesas 



gunõa os õestinos ôe meu filho Nuno, naòa tenho a que 
me ampare nas consolações Ôa família. A mãe oeste õois 
õesgraçaõos não promete longa viõa ; e, se eu puòesse 
arrastar a minha existência até ver Anna Placiôo morta, 
infallivelmente me suiciòaria.> 

<Não Deixarei cahir sobre mim essa enorme desventura^ 
— a maior, a incomprehensivel á minha granõe compre-! 
hensão òa òesgraça.» 

«Esta Deliberação òe me suiciòar vem õe longe, com um 
presentimento. Previ òesòe os trinta annos este fim. Re- 
ceio que chegaôo o supremo momento não tenha a firmesa 
õe espirito para traçar estas linhas». 

Camillo tomou a resolução a que se refere esta carta em 
1-6-1890. 

D. Anna Placiôo faleceu 5 anos òepois. 

Acerca òa morte õe Camillo, viòe um artigo õo auctor 
ôesta Antologia, intitulado Camillo e os seus amigos, a sahirj 
num interessante livro colaboraòo por escriptores portu- 
gueses e brazileiros, obra que se òeve á iniciativa õo sr | 
Ventura Abrantes. 

MALDITA ! ^ 

Malõita ! malõita ! eis a voz que eu escuto 
Nas sombras õa noite, se geme o tufão ; ^ 

Ao longe lá ouço bramir a tormenta, f 

Não menos meõonha no meu coração. 

Malõita ! malõita ! me braõam os raios. 
RaianÕo-me a fronte sinistro fulgor. 
E eu palliõa e triste qual anjo repulso 
Debalõe levanto as mãos ao Senhor ! 

Malõita ! malõita ! os ferros me Õizem 
Que inertes assistem á minha afflicção ; 
E a estreita, que passa ligeira se esconõe 
Deixanõo nas trevas bramir o trovão. 



Poetisas Portuguesas 235 



Malôita ! malòita ! os echos repetem 
D'um munôo feroz que exulta á victoria ; 
Malõita tu sejas mulher infamada 
Por culpa que é n'outras suprema gloria. 

Anna Placiôo. Os Amores de Camillo, por Alberto Pimen- 
tel. Lisboa, 1899, pag. 313. 



A CAMILLO CASTELLO BRANCO 

{l5 DE AGOSTO DE iSSg) 

Passou, meu Deus, foi um sonho 
De que é ôoce o despertar, 
Das negras feias, visoens, 
]á nem me quero lembrar. 
Tornei a achar o remanso 
Do meu tão ôoce sonhar . . 

Volto quasi á paz serena 

Dos meus òias infantis ; 

O meu anjo me segreõa 

Mistérios. • . que não se ôiz 

Vejo o futuro coroaòo 

Pela esperança a que me affiz. 

E' muito para a minh'alma ; 
Importa òa viòa o ceu ; 
Sobre os falsos ôons òo munòo 
Lançarei cerrado veu. 
Das ambições a mais nobre 
E' chamar-te um ôia meu. 

Anna Augusta. Livre PeHsame;jfo, Coimbra, maio õe 1895, 
n." 2, pag. 46. 



236 Poetisas Portuguesas 



MARQUEZA DE POMARES 

{d. MARIA MANUELA DE BKITO E CASTRO DE FIGUEIREDO 
E MELO DA costa) 

A Marqueza òe Pomares, senhora muito õistincta, é filha 
ôe D. Maria Ignez òa Luz òe Carvalho Daun e Lorena e ôe 
António ôe Brito e Castro ôe Figueireôo e Melo ôa Costa, 
õoutor em Cânones pela Universiôaôe ôe Coimbra, fiôalgo 
cavalleiro ôa Casa Real, comenôaòor ôa orôem ôe Christo, 
€tc. 

Casou em 30 ôe junho ôe 1864 com D. Luiz Maria ôe Car- 
valho Daun e Lorena, Marquez ôe Pomares, Moço Fiôalgo 
ôa Casa Real, Par ôo Reino vitalício, etc. 

Depois ôa morte ôe seu esposo, a Senhora Marqueza ôe 
Pomares vive muito afastaôa ôa socieôaôe, ôeôicanôo-se 
especialmente a sua numerosa família, e aos seus pobres e 
protegiôos. 

Esta Senhora que é extremamente caritativa, já em 1876 
foi iniciaôora ôe uma importante obra ôe cariôaôe, a que 
se refere num curioso artigo publicaôo na Pagina Femini- 
na, ôo T>iario Nacional, ôe 24-5-1917, a ilustre Marqueza 
ôe Rio Maior, que ultimamente tem escripto no citaôo jor- 
nal, explenôiôos artigos evocaôores Ôe Lisboa antiga : 

«Quanôo se õerar:i as granôes innunôações ôo Tejo, em 
1876 e 1877, tiveram logar muitas festas Ôe cariôaôe ôa ini- 
ciativa ôe S. M. a Rainha Sr.^» D. Maria Pia.» 

«Uma ô'ellas foi organizaôa pela sr." Marqueza ôe Poma- 
res, no theatro ôe D. Maria II, nas noites Ôe 25 e 26 ôe ja- 
neiro ôe 1877, e revestiu-se ôe um raro explenôor.> 

«Representou-se o Frei Lui:^ de Sousa, que creio nunca 
mais tornou a ser tão bem representaôo por amaôores.> 

A Senhora Marqueza Ôe Pomares é auctora ôe um livro 
em prosa. Os pobres e ricos (Coimbra, 1906), cujo proôucto 
reverte a favor ôa Creche e ôo Asilo Ôa Infância ôesvaliôa 



Poetisas Portuguesas 237 



ôe Coimbra, único volume ôe suas obras que entrou no 
mercaõo, e ôe ôois livros òe versos. Intitula-se um ôelès, 
salvo erro, Sob a Cru^. 

E' para lamentar que o granõe retrahimento Òesta bon- 
òosa Senhora não permita a òivulgação õas suas obras poé- 
ticas, õo merecimento bas quaes se avaliará pelo soneto 
Saudade, que copiei õo livro A Tachyi^raphia ou Stenogra- 
phia (sem mestre), por Manuel Joaquim õa Costa, Lisboa» 
1909, pag. 87. 

SAUDADE 

Toõos guarôam comsigo uma sauõaõe ; 
E' raro quem na viôa uma só tenha. 
Ha sauõaõe que õá pena tamanha 
Que, uma só, faz na viõa a soleõaõe. 

Nem frios õa velhice, nem vaiõaõe. 
Transformam coração em oura penha, 
Em quanto õa õemencia não lhe venha 
Esquecer tempo, affectos e verõaõe. 

Sauõaõe não é só memoria triste 

De ausentes, õa ventura além perõiõa ; 

E' veneno subtil, e que resiste 

Ao tempo, que nos leva amor e viõa. 

Em quanto o homem pensa em quanto existe 

E' fibra Õentro õ'alma já partiõa ! 

Marqueza õe Pomares. Sob a Cru^. 



238 Poetisas Portuguesas 



D. FRANCISCA DE PAULA POSSOLO 

D. Francisca ôe Paula Possolo õa Costa nasceu em Lis- 
boa a 4 Ôe outubro õe 1783 e faleceu em 19 ôe Julho õe 
1838. 

Esta ilustre Poetisa era filha òe D. Maria ôo Carmo Cor- 
reia õe Magalhães e òe Nicolau Possolo. 

E' auctora Ôe : Henriqueta de Orleans ou o Heroísmo, no- 
vela aparecida em 1819; ôeum folheto em que reuniu al- 
guns ôos seus sonetos liberaes, recitaõos no teatro õe S. 
Carlos em 1826, quanôo õa promulgação õa Carta Consti- 
tucional ; Francilia, pastora do Tejo, volume õe poesias que 
contem sonetos, oões anacrionticas e horacianas, canções, 
elegias, e epistolas. 

Deixou ineõitas : uma novela e a traôução õa Pluralidade 
dos mundos, õe Fontenelle e õuas comeõias, Ricardo ou a 
força do destino e Claves. Traõuziu Connna õe maõame Õe 
Stael e a Carta do Conde de Las Cases a Lociano Bonaparte. 

Amiga intima õa Marqueza õe Alorna, a quem o auctor 
õa Harpa do Crente e õas Lendas e Narrativas, chamava a 
Mulher Extraordinária, D. Francisca Possolo era muito 
consiõeraõa por Castilho que foi um õos numerosos fre- 
quentaõores õos seus salões, onõe se reunia a elite õo seu 
iempo. 

JURAMENTO DE AMOR 
(madrigal) 

Não te engano Marilia (repetia 
o loiro Anfrizo á õuviõosa amante) 
amar-te-hei sempre. E oeste amor constante 
o meigo juramento lhe escrevia. 
Mas o pranto suave, que a ternura 

aos olhos lhe chamava 

Õa mimosa escriptura 



Poetisas Portuguesas 239 

as começadas letras apagava ; 
e p'ra maior Ôesgraça; oh ! sorte oura ! 
tentanõo renovar o que escrevera 
pobre Anfrizo ! já tuõo lhe esquecera. 

Francisca õe Paula Possolo õa Costa. Poesias, Novo Al- 
manach das Senhoras para 1878, pag. 154, 



EPISTOLA 

(FRANCISCA possolo) 

Francilia de Alcipe (Marque^jfa d^Alorna) 

«Zoilos, treinei I Posteridade és minha.» 
BOCAGE, 

Se á musa õe Francilia é òaòa a gloria 
D'erguer na voz õa lyra o nome egrégio, 
O nome illustre õa extremaòa Alcipe ; 
Se á cantora immortal, irmã òe Phebo, 
Póõe ser grato o som Õe humilôe canto ; 
Alcipe, honra ôe Lysia, acolhe meiga 
A pura offrenòa õa singela musa, 

Versos, que o coração remette aos lábios, 
Filhos õa natureza, eia, animae-vos ; 
Da gratiõão nas azas côr õe neve 
Aõejai, versos meus, õ'Alcipe aos lares ; 
De Alcipe, cuja lyra magestosa, 
O nom.e õe Francilia aos céus manõanõo. 
Impõe silencio aos Zoilos ; e os colloca, 
A par õo nome seu, na Eterniôaõe. 

Zoilos, receios, timiõez inerte, 
Prejuízos fataes, fyrannos õo estro ; 
Da mente que até hoje escravisaste, 



240 Poetisas Portuguesas 

Apartai-vos, fu^; cantou-me Alcipe; ^ 

Alcipe honrou meu nome, honrou meus versos 
D'AIcipe ôivinal a lyra eterna 
Meu nome, os versos meus salvou ôo Lethes. 

Francisca ôe Paula Possolo. Almanach das Senhorai 
1882, pag. 122 e 123. 



D. MARIA ADELAIDE FERNANDES PRATA 

D. Maria Aòelaiõe Fernanões Prata nasceu no Porto er 
1825, e faleceu em Lisboa a 18 ou 19 ôe março õe 1881. 

Os seus escriptos, em prosa e verso, anòam espalhado 
por almanachs, jornaes e revistas õa época. 

Entre as varias publicações em que colaborou, citarei 
Esperança, jornal ôe recreio literário, hoje muito raro e er 
que escreveram alem õe Camiilo, D. Anna Placiôo, D. Mari 
Peregrina ôe Sousa, Ramalho Ortigão, Theophilo Draga 
Sousa Viterbo, Alberto Pimentel, Guilherme Braga, João ôi 
Deus, etc. 

Os ôois volumes oeste jornal, que tinham, respectivamen 
te, 381 e 142 paginas, apareceram á venõa no 2.» leilão ôoí 
livros que pertenceram ao faleciôo bibliograío Dr. RoÔrigc 
Veloso, o paciente auctor ôe inúmeras investigações lite 
rarias que ôeixou registaôas na Aurora do Cavado, jorna 
seu que contou trinta e tal anos ôe existência. 

D, Maria Aôelaiôe Fernanôes Prata é auctora Ôe um livre 
õe poesias, O filho de Deus. Verteu Ôe Ossiam o poema em 
6 cantos, Fingal. 

O FILHO DE DEUS 

Mesmo ôo Salvaôor, n'essa hora extrema. 
Os Summos sacerôotes motejavam, 
Dizenôo-lhe — «se és Deus, ôa cruz Ôesce, 
«Obra agora um proôigio e em ti creremos !» 



Poetisas Portuguesas 241 



Então, amargo fel, cruéis solõaõos, 
Aos incenõiôos lábios lhe chegavam. 
Mas elle sem queixar-se, ao Ceo rogava. 
Pelos que até á morte o atormentaram. 
«Perôoae-lhes, õizia, ó Pae celeste 
«Que miseros, não sabem o que fazem ! • 
«Frágeis entes Ôa terra ! que são elles ? ! 
«Ténue porção ò'argilla que não poòe, 
«Sem uma luz celeste apresentar-se, 
«Ante a face Ôivina õo Altíssimo. . » 
E junto á cruz vê já com turbos olhos, 
Uma mulher que chora amargurada ! 
Era a Virgem saudosa e sem conforto, 
A Mãe que vê morrer o filho caro ! 
E o ôiscipulo amaõo que em seu peito, 
Outr'ora reclinara a fronte pura, 
^:!le fixa também ; á Mãe õizenòo : — 
- «Angélica mulher! eis o teu Filho ! . . . 
E eis alli tua mãe, Ôisse ao mancebo. 
Após, affiicto, um ai solta õe morte, 
Clamanõo : por que ó Pae me abanôonaste ? . . . 

Maria Aõelaiõe Fernanões Prata. O Filho de Deus, pag. 
;i e 142. 



D. ANTÓNIA GERTRUDES PUSICH 

D. Antónia Gertrudes Pusich nasceu na Ilha õe S. Nico- 

1, òe Cabo-Veròe, em 1805. 

pra filha òe D. Anna Maria Izabel Nunes e ôe António 

[sich, ilustre governaôor õessa província. 

:sta õisiincta Poetisa, Escriptora e Jornalista, faleceu na 
õe São Dento, em Lisboa, em 1883, contanõo 78 anos 
iõaõe. Na casa em que habitou, e que õefronta com o 
rcaôo õe São Bento, foi colocaõa uma lapiõé comme- 
rativa, com os seouintes õizeres : 

16 



242 Poetisas Portuguesas 

N'Esía Casa 

Falleceu A Illustre Escriptora 

E Poetisa 

D. Antónia Pusich 

Que muito honrou a Pátria \ 

Com o seu talento I 

i 

Alem òesta lapiõe, ha em Lisboa, apenas, mais 7, perpe- 
tuanõo a memoria ôe : Alexanòre Herculano ; Visconòe òe 
Almeiòa Garrett ; Visconòe òe Castilho ; Bocage ; Innocen- 
cio Francisco José õa Silva ; Luiz õe Camões, e Camillo 
Castello Branco. 

Não obstante esta Senhora ser filha òe um almirante, 
neta òe tenentes generaes e òe ter siòo casaõa com um mi- 
litar òistincto, vaivéns õa sorte fizeram-na passar òa abas* 
tança para uma situação òificil que pouco menos era que| 
miséria. 

A seu cargo, ficou a eòucação òe suas filhas. Foi com c 
proòucto òa penna, que numa lucta encarniçaôa, constantí 
e corajosa, D. Antónia Gertruòes Pusich fez face á situaçãc 
angustiosa òe sua viòa — lucta tanto mais òesigual e ex 
tenuante, quanto é certo que em Portugal o trabalho inte 
lectual é, como se sabe, pessimamente compeyisado. * 

Em inúmeros jornaes, publicava oòes, elegias, poemaíj 
mil artigos em que, principalmente, aòvogava a causa ôo 
oprimiòos e òos fracos. 

Em varias Assemblêas publicas, onòe por vezes se òis 
cutiam interesses vitaes para o Paiz, mais òuma vez se ou 
viu a sua voz. r 

Funòou os jornaes Assembleia Litteraria, 'Bemficencia 
q4 Crufada. 

Esta inteligente Caboveròeana é auctora òe : Os do 
mysterios, OHnda, ou Abadia de Cumnor Place, (poema e 
5 cantos, Lisboa 1847) ; Elegia á morte das infelizes victimc 
assassinadas por Francisco de Mattos Lobo, na noite de 2 
7-1841 ; Júlia, òrama ; .4 conquista de Tunis, iòem ; Espar^ 



Poetisas Portuguesas 243 

o monte, comeõia ; Ashaverus \ Regedor de parochia ; Cons- 
inça ou o amor tnaternal, Õrama em 3 actos, o qual era a 
listoria õo seu viver õomestico. 

Constança e Regedor de parochia foram representados 
m 1849, nos teatros ôo Gymnasio e òa Rua õos Conòes. 
- Publicou em 1872, uma curiosa biografia acerca 5e seu 
iae, oficial ò'Armaõa, õistincto escriptor e antigo governa- 
lor õe Cabo-Verôe, cargo õe que foi ôsposto em 1820 
juanôo õo pronunciamento realisaòo na ilha Ôe S. Thiago. 
\ junta governativa enviou António Pusich para a ilha õo 
ilaio e õ'ali veiu para Portugal, onõe as Cortes o não que- 
iam õeixar õesembarcar, visto ter siõo fiel ao Rei que teve 
>e ficar por seu fiaõor. Abrangiõo peio òecreto õe 16-9-1833 
oi õemitiõo. E' auctor õa Descripção hydrografica das lUias 
\e ('.abo- Vf.rdc, e õas Memorias physico politicas. 

MADEIRA 

^^AUDAÇÃO I YRICA) 

Salve ! linõa Maõeira, ilha õitosa ! 

E's Õo Oceano a flor ! 
E's õas ilhas princeza a mais formosa, 

Mimo õo Creaõor ! 

Tens mil plantas, mil flo^s preciosas, 

Teu solo a alcatifar ; 
Onõe teus pés, submissas, respeitosas, 

Vem as onõas beijar. 

Verõe é teu rico, magestoso manto ! 

Tens õiaõemas õe luz !. . 
O seio teu, õa natureza encanto. 
Mil encantos proõuz ! 

Não é õe Itália o sol tão claro e bello, 

Mais puro que o teu sol : 
Manhãs õe Portugal (que tanto anhelo) 
Dão-te o linõo arrebol ! 



244 Poetisas Portuguesas 



Que noutes tão amenas tens, Maôeira ! 

Tens aguas õe cristal ; 
Tens no frescor Ôa brisa mais fagueira 
Perfume òivinal ! • 

Em throno alto e seguro te sustentas ; 

Tens o céu por õocel. . . 
Para pintar os campos que alimentas 

Quem tivera pincel 1 

Oh ! não !. . . pincel não poõe o mais sublime 

Pintar o brilho teu ! 
A poesia te cante, ella se exprime 

Co'a linguagem õo ceu ! 

Mas não te cante vate òolorosa 

Avezaõa a carpir ; 
Cantem-te os filhos teus, ilha ôitosa ; 

Dá-lhes leõo porvir ! 

Que eu possa apenas com rasteiros traços. 

Com òebil, triste voz, 
Sauòar teus lares, òemanõar espaços 

Cumpre ao génio veloz. 

Como ás nuvens sobranceiros 
Se erguem teus montes, assim 
Teus génios subão, ligeiros. 
Com azas õe cherubins 1 

Em som òivino entoando 
Suaves hymnos ò'amor. 
Vão teu nome eternizando 
A'quem e alem Òo equaôor! 

Não achem povos no munòo 
Que te não saibam prezar ; 
Que no teu solo fecunõo 
Não quizessem repousar ! 



Poetisas Portuguesas 245 



E mais tarõe á lusa historia 
Pagina Õe oiro offerecer, 
Onõe no esplenòor õa gloria 
Possão teu nome escrever ! 

Antónia Gertrudes Pusich. Almanach de Lembranças Lii- 
t^o-lSra^ileiro para 1856, pag. 206 e 207. 



I D. CLOTILDE RAFAELA DE BATTAGLIA 

RAMOS 

D. Clotilôe Rafaela õe Battaglia Ramos nasceu em Lis- 
boa, a 24 òe Outubro ôe 1882, e faleceu no Estoril, a 17 
ôe ]aneiro õe 1904, contanõo apenas 22 anos òe iõaõe. 

Filha mais nova òo insigne lirico João Òe Deus (o maior 
poeta òo amor, segunòo afirma Marco António Canini em 

II Libro deirAmore), era irmã òe ]oão òe Deus Ramos e 
Òo Visconòe òe S. Dartholomeu òe Messines, auctor òa 
Breve noticia sobre a Ordem do Santo SepulchrOy da Re- 
publica de S. Marinho (exgotaòos), e òos Pensamentos de 
To Ho de Deus. 

Aos Òez anos òe iòaòe, compoz uma poesia. A' Manhã 
iourada, inspiraòa na òe igual titulo òe Alfreõo Serrano, 
ersos que òeòicou a seu professor Freitas e Costa, a quem 
ne refiro a paginas 158 oeste trabalho. 

Pelas quaòras que insiro, cheias òe sentimento, natura- 
òaòe e belesa, fácil é calcular a situação òe Òestaque 
ue, sem Òuviòa, viria a ocupar nas letras portuguesas D. 
lotilòe Ram.os, se a morte tão cruelmente a não houvesse 
rostraòo em plena juventuòe ! 



246 Pnedsrifí Port: 



QUADRAS 

Na íorça õa minha magua 
Não sei bem o que é a Ôor ; 
Os olhos, quanõo chorosos, 
Não é que vêem melhor. 

Ninguém fale em suas maguas 
A quem mais maguas não tem. 
Só tem maguas ô'outras maguas 
Quem maguas tiver também. 

Por uns olhos que fugiram, 
O lume õos meus peròi : 
Porque nem elles me viram 
Nem eu também mais os vi ! 

Chamam-te òoiòa em nf.o teres 
O pensar que os outros têm ! 
Deixa lá falar quem fala, 
Faze tu por pensar bem. 

Quanõo os teu olhos õiziam 
Coisas que os meus encantavam, 
Sei que os teus olhos sentiam, 
Sei que os teus olhos choravam. 

Vão-se as penas que se teem 
Nos suspiros que se òão 
Mas se assim vão, assim vêem, 
Voltam, assim como vão ! 

Infeliz 5'esse que pensa, 
Não crê em naõa e em ninguém. 
Creanças que tenões crença, 
Ensinae-me a crer também ! 



Poetisas Portuguesas 247 



Leve-me breve o Senhor, 
Naôa no munòo me tem ; 
Já que peròi teu amor. . . 
Que perca a viòa também. 

Tolòam o céu nuvens negras 
Que se õesfazem em agua- . . 
Desfazem-se nos meus olhos 
As nuvens õa minha magua 1 

ClotilÒe Ramos. <Piíala da Europa, n." 523 òe 25 Òe 
18-2-1906, XII ano, pag. 2. 



D. MARIA CAROLINA RAMOS 

D. Maria Carolina Ramos fez a sua estreia literária em 
1916, publicanòo no Âlmanach lllustrado, Ôa Parceria Pe- 
reira, as quatro inspiraòas quaôras que reproòuzo. 

A sua apresentação foi feita em calorosas frases, por Al- 
bino Forjaz õe Sampaio, ha pouco eleito para a Acaõemia 
ôe Sciencias õe Lisboa, o conheciõo e estimaõo auctor õa 
Gente da rua, Palavras cynicas, Lisboa trágica e õe muitos 
outros trabalhos que tanta aceitação teem tiõo. 

D. Maria Carolina Ramos é aluna òa Escola Meôica òe 
Lisboa. 

QUADRAS 

Sonhava alto e sonhanôo 
Ouviu-me õizer alguém 
— «Ai tu não me Desprezavas 
Se fosses pobre também.» 

Mas õepois, julgo, accorõei 
Nunca mais aòormeci, 
E toòa a noite pensei 
Pensei, mas somente em ti. 



248 Poetisas Portuugesas 

Naòa ha que tanto canse 
Nem ha naòa que mais custe, 
Que procurar uma alma 
Que á nossa alma se ajuste. 

Quem a encontra é feliz, 
Tuòo tem realisa&o. 
— Mas quanta gente ahi passa 
Sem nunca a ter encontrado . . 

Maria Carolina Ramos. Almanach Illustrado, para 1916. 



D. ZULMIRA RAMOS 

D. Zulmira Ramos representou como actriz, em Lisboa, 
nos teatros õa Trinôaòe e ò'Aveniòa e no Porto no teatro 
Carlos Alberto. 

Segunòo me informam, resiõe actualmente no Drazil. 

Colaborou, escrevenòo versos, no Almanach dos Palcos e 
Salas. 

MAIO 

Vem rompendo a manhã ; o sol õoiraòo 
clarêa as cumiaõas Ôos outeiros, 
Gorgeia o pintasilgo em tom magoaôo 
nos ramos enlaçados dos vimeiros. 

Nasce o dia. Do pincaro escalvado 
descem aguas aos trépidos ribeiros. 
Emana um cheiro agreste, embalsamado, 
da mata rumorosa de salgueiros. 



No centro da cidade onde se agita 
o despotismo vil que ao ódio incita, 
é rara a animação dos bons romeiros ; 



I 



Poetisas Portuguesas 249 

mas, na campina, em festivaes cortejos, 
caminham, entre oitos e gracejos, 
enverganôo os seus fatos õomingueiros. 

Zulmira Ramos. Almanach dos Palcos e Salas, Lisboa, 
1913, pag, 42. 



D. EMÍLIA ACCIAIOLV REGO SÉNIOR 

D. Emilia Acciaioly Rego Sénior nasceu na Ilha ôa Ma- 
ôeira. 

E' auctora õe um pequeno livro òe versos cujo titulo 
ignoro. 

Foi uma Ôas colaboraòoras ôa interessante publicação 
«Flores da Madeira», obra que consta ôe õois volumes, e 
que foi publicaõa por Alfreõo César ò'01iveira e José Leite 
Monteiro. 

Entre os Diversos nomes que figuram nesse repositório 
poético, leem-se os õe : Luiz õa Costa Pereira, Luiz A. Ri- 
beiro ôe Menôonça, Luiz António }arôim, Luiz õ'Ornelas 
Pinto Coelho, Marceliano Ribeiro ôe Menôonça. Maurício 
Carlos Castello Branco e Manoel Luiz Viana ôe Freitas. 

O ARCO íris 

GÉNESIS IX, l3. 
I 

Formoso arco celeste 

Qu'nos céus te vais curvanôo, 
E o alto firmamento 

De mil cores matizanôo ! 
Aquelle que com Seu sopro 

Tão acima te elevou, 
E com variaôas tinctas 

Sabiamente te pintou, 



250 Poetisas Portuguesas 



II 

Aquelle que te sustenta 

Com tanto brilho e belleza, 
Foi coberto em sua viòa 

Com o manto òa pobreza, 
Aquelle que te curvou 

Do moõo o mais magestoso, 
Foi conôemnaõo a morrer 

Como um facinoroso. 

III 

Com o seu sangue innocente 

O seu rosto foi manchaòo — 
Esse precioso sangue 

Que por nós foi õerramaôo. 
Toõo o calis ò'afflição 

Sobre elle se exgotou ; 
E para nos libertar 

Em tormentos expirou. 

Emilia Acciaioly Rego Sénior, Flores da Madeira. 



D. MARIA LEONOR REIS | 

D. Maria Leonor Reis nasceu em Lisboa, a 14 òe marçQ 
ôe 1900. 

Esta Poetisa, talvez a mais nova õas que figuram nesta 
Antologia, é filha õe D. Elisa Albertina òa Silva Lobo Reis 
e òo conheciõo e ilustre pintor Carlos Reis, e neta Òo es- 
criptor António Augusto Ôa Silva Lobo, antigo reòactor ôa 
Gaveta de Noticias, òo Rio òe ]aneiro e reòactor em chefe 
Òo Diário do Senado brazileiro. 

Datam òos oito anos as suas primeiras tentativas poéti- 
cas. «Aos Òoze fazia as suas primeiras òescripções òe pas 



Poetisas Portuguesas 251 

seios que òava com seus irmãos, õescripções estas, que se 
caracterisavam pelo humorismo com que òescrevia situa- 
ções cómicas, riòiculas ou alegres, õesses passeios>. 

Aos quinze anos compoz o seu primeiro soneto. 

D. Maria Leonor Reis que se òeòica com verõaôeiro 
amor ao cultivo õa poesia, tenòo siõo animaôa a publicar 
alguns õos seus sonetos, por D, Branca Colaço e pelo sr. 
conôe ôe Sabugosa, fez a sua estreia literária em 1917, co- 
laboranôo na Pagina Feminina, Õo Diário Nacional. 

Tenciona "reunir as suas proòuções poéticas num pequeno 
volume, que conta publicar em breve. 

O meio extremamente intelectual e artístico em que vive, 
por certo contribuirá muito para que as suas produções ve- 
nham em breve a ser contadas entre "as melhores feitas 
por Poetisas Portuguesas. 

ASSIM TE FOSTE!... 

Porque te foste oh! Musa inspiradora 
E me deixaste em troca o desalento? 
Porque de mim fugiste no momento 
Em que eu quizera recordar a hora 

D'aquelle dia, em que uma doce aurora 
Me segredou fazendo juramento : 
Eu vir a ter mais tarde algum talento 
Se versejasse pela vida fora ? ! . 

Porque fugiste então e me deixaste 
Sem amparo se ssmpre me guiaste ? ! 
Sem tão nobre columna a que m'encoste ? ! 

Agora . do meu sonho feito em nada 
Só me resta a expressão desalentada : 
«Assim como vieste. . . assim te foste» ! . . 

Maria Leonor Reis. Pagina Feminina, do Diário Nacional, 
de 19-3-1917. 



252 Poetisas Portuguesas 



ASSIM TE PODES IR... 

Quizeste ôivertir-te á minha custa 
Quizeste que eu ficasse arreliaòa : 
Por isso tu fugiste arrebatada 
Por tua cruelòaõe oh ! Musa injusta ! 

De ti já não me importo ! Estou robusta 
D'aquelia pieguice já passaõa. . . 
Pôòes viver ôe mim muito afastaòa 
Que a tua ausência já me não assusta ! 

Fica-te em paz no sitio onòe estiveres 
Que eu viverei melhor se tu viveres 
Longe ôe mim sem nunca mais te ouvir ! . . . 

A este òesamparo muito afeita 
Tu òeixas-me õizer-te satisfeita: 
«Como vieste. . . assim te póòes ir !> . . . 

Maria Leonor Reis. Pagina Feminina, òo Diário Nacional, 
Ôe 19-3-1917. 



D. ANNA AMÁLIA MOREIRA DE SA 

Francisco Gomes õe Amorim òiz a pag. 366 e 367 òa se- 
gunda eòição õo primeiro volume òos Contos Matutinos 
(Lisboa 1866), o seguinte: 

«Em Õezembro òe 1849 appareceu no Periódico dos Po- 
bres do T^orto uma poesia, assignaòa por uma senhora, á 
rosa encarnada. Em seguida vieram no mesmo jornal òois 
poetas, cantando a rosa branca, e proclamando-a superior 
á outra. A dama da rosa encarnada voltou ao campo, de- 
clarando aos seus contrários que. depunha a lyra por não 
poder sustentar a luta. Os dois cantaram a victoria, mas a 



Poetisas Portuguesas 253 

mim (que tinha então 22 annos) ferveu-me o sangue, e en- 
tendi que me não salvaria se não saisse a terreno em õe- 
fesa õos opprimiõos ! 

«ManÔei, pois, para o Periódico dos Pobres a composição 
a que se refere esta nota, e as mais que se lhe seguem até 
pag. 206. Ignorando se os nomes òos poetas portuenses 
eram verôaõeiros, ou se os encobria o pseuõonimo, as- 
signei-me Grão Magriço. 

«Os cantores òa rosa branca não gostaram Òe que eu me 
mettesse nas suas contenòas, e responõeram-me com aze- 
õume ; eu repliquei também asperamente e a questão che- 
gou ao ponto õe eu tirar passaporte para ir ao Porto salòar 
as contas com elles. Devo ao meu falleciòo amigo e mestre 
Garrett o haver-me livraòo õesta riòicula questão com o tre- 
menòo sermão que me pregou ao saber a minha resolução. 

«Felizmente ainõa não havia caminhos òe ferro, n^m se 
òava um passo neste paiz sem o auxilio Ò'um passaporte ; 
aliás quem sabe se veríamos renovaôas em Portugal as 
guerras Õe York e õe Lencastre, que por iguaes motivos 
assolaram a Inglaterra ! 

«Faço estas confissões como verôaõeiros actos õe peni- 
tencia, e õeclaro solenemente que nunca procurei saber 
se a Õama õa rosa encarnada era um mytho, ou se real- 
mente existiu a ex."»^ sr.^ D. Anna õe Sá. 

«Eu não fui o único a tomar a sua õefesa. Depois Õe 
mim, alguns poetas õe Lisboa publicaram nos jornaes Õo 
Porto poesias contra a rosa branca ; e, seguinõo o meu 
exemplo, os partiõarios õa sr.^ D. Anna õe Sá escolhiam 
os nomes, com que assignavam os seus versos, entre os 
õoze õe Inqlaterra>. 

D. Anna õe Sá existiu õe facto. Em 18'61, publicou na 
Porto, um volume õe versos intitulaõo Murmúrios do Vi- 
{elta. 

D. Anna õe Sá é a mesma pessoa que D. Anna Amália 
Moreira õe Sá. 



254 Poetisas Portuguesas 



SAUDADE 



Saud ide ! goútú «margo d'>nfHli<es 
Ueliciovo pungir d'acerbo espinho ! 



Sauòaõe ! sentir acerbo 
De penetrante sofírer ! 
E' poeta o que no peito 
Uma vez te viu nascer: 
E' poeta, oh ! sim, poeta. 
Quem te soube comp'ren()er ! 

Sauõaõe ! nome caòente, 
De suave inspiração .' 
Exprime òôr e ternura, 
O viver òa soliôão, 
Harmonia que òo peito 
Geme era lúgubre canção ! 

Quem ha que ôiga — sauòaõe 
Sem também òizer — amor ? 
— Es§e nome sempre preso 
A' lyra ôo trovaõor ! 
O melhor òos sentimentos. 
Que nos õéra o Creaòor ! 

Sauòaòe òiz o meu peito, 
Diz — sauõaòe, a mais não ser ! 
Eu amo a flor oeste nome, 
Por também lhe pertencer ; 
Amo tuòo, que saubaòe, 
Sauòaòe póòe òizer, 

Anna Amália Moreira De Sá. Murmúrios do Vtjella, Porto, 
1861, pag. 105 e 106. 



Poetisas -Portuguesas 255 



D. ESMERALDA DE SANTIAGO 

D. EsmeralÒa õe Santiago nasceu na ciòaòe ôo Porto, 
nõe resiõe. 

\ E* filha õo ôistincto meõico oftalmologista Dr. Manoel 
opes Santiago. 

Tenòo siõo sempre muito aplicaòa ao estudo, seus pães 
'pensaram em que cursasse meòicina, não tenòo porém che- 
-gaòo a frequentar a antiga Acaõemia òo Porto, por não 
sentir vocação para a carreira que iiie propunham. 

D. EsmeralÒa òe Santiago que é bastante nova, verseja 
ôe os 15 anos, 

dm 1914, fez a sua estreia literária na lllustração Portu- 
guesa, semanário em que tem colaboraòo. 

A maior parte òa sua obra poética está ineòita. 

Inste se intitula o livro òe versos que tem para publicar, 
prefaciaòo por ]ulio Dantas. 

OUTR'ORA E HO]E 

I 

QuanÒo eu era creança, uma inocente 
Contanòo Õ'anos uma Òuzia apenas. 
Nas taròes estivaes, calmas, serenas, 
Oihanòo o céu embeveciòamente, 

Ficava-me a cismar !. . . E o rir õolente 
Das estrelas, fulginòo ás centenas 
Em. granões gotas, meòias e pequenas 
Apoz cerrar a noite suavemente. 

Vinha acoròar minh'alma enterneciòa 1 . . . 
Agitava-me então extranha viõa, 
Ajoelhava crente, e uma oração 



256 Poetisas Portuguesas 

Voava ôos meus lábios para os céus, 
Onòe eu via a imagem ôo bom Deus, 
N'uma aureola ò'Amor e Õe Perõão ! 

II 

Pobre òe mim ! . . . já hoje assim não é ! . . . 

E se á noite contemplo o firmamento 

E* só tristeza e òôr e soffrimento 

Que invaòe a minha alma que em Deus crê ! . . . 

E' certo que conservo a mesma fé 
Que outr'ora me elevava o pensamento 
Junto õo Creaòor, nem um momento 
Ela me abanõonou, e julgo até 

Que ela augmentou, com minha õesventura ; 
Mas este imenso Amor, òoce tortura 
Que me consome e abraza sem cessar, 

Fez-me esquecer Õe toôo a oração !. . . 

E meu esfacelaòo coração 

— Só lagrimas, Senhor, sabe rezar ! 

Esmeralda õe Santiago, lllustraçáo Portuguesa, n." 448^ 
21 õe Setembro õe 1914, pag. 382. 



D. ROSALINDA CELESTE DE FIGUEIREDO 
SANTOS 

D. Rosalinõa Celeste õe Figueireõo Santos nasceu em 
Lisboa. 

E' filha õe D. Mariana Angélica õe AnõraÕe, poetisa ilus- 
tre a quem me refiro a pag. 25 a 27 oeste trabalho e õo Dr. 
António Canõiõo õe Figueireõo. 



Poetisas Portuguesas 257 



Esta Senhora foi uma boa e òeòicaõa auxiliar ôe seu pae, 
em muitos trabalhos literários. 

Alem õe varias obras clássicas que, para a livraria Tava- 
res Caròoso, D. RosalinÔa Santos traõuziu, fez ainõa tra- 
òuções òe folhetins no Diário de Noticias, õurante quatro 
anos, e na Vanguarda. 

Tenõo contrahiõo núpcias com o capitão õe Infantaria 
sr. Henrique Figueireòo Santos, esta ilustre Poetisa a quem 
ôevo a gentileza ôe me ter fornecido os ineòitos que re- 
produzo, abanõonou as letras, õeõicanòo-se exclusivamente 
a cuiõar ôos seus. 

Como poetisa, nunca òesejou colaborar em jornal algum ; 
no entanto, a leitura òas suas poesias agra&a bastante. 

Os versos, õesta Poetisa, como os õe D. Maria õa Gloria 
Teixeira õe Vasconcellos, são íntimos, e inspiraõos peio 
amor õe seus lares, que cantam numa linguagem simples 
e bela. 

POMBAS 
(inédito) 

Como vos quero, mansas pombinhas i 
Não ha, na terra, mais linõas aves ! 
As vossas penas tornam as minhas 
Como o ar puro, leves, suaves. 

Nas horas õ'ocio, sois meu enlevo, 
. Penas õe neve, penas õoiraõas ! 
Umas seõosas, outras relevo. 
Também ha, negras e bronzeaõas ! 

Mil atractivos tem meu pombal. 
Ninhos, borrachos, amor e arrulhos ! 
Não ha ôiscorõias ; caõa casal 
Lembra o meu ninho, lar seranjarulhos . . 

17 



258 Poetisas Portuguesas 



E quantas vezes, as sentinelas, 
(Eles, os pombos), não vou ronòar! 
Guarõam, atentos, os ninhos Òelas, 
Empoleiraòos, sem arrulhar ! 

Pombinhas brancas! pombas morenas! 
Meu passatempo ! cuiôaôos meus ! 
Quero ir convosco, nas vossas penas, 
Quanòo voarôes, um òia aos céus ! 



RosalinÒa Celeste õe Figueiredo Santos. 
AO MEU RUI 

(lNED'XO) 

]á três annos tens 
Aurora em botão 
E tuõo illuminas 
Com esse clarão ! 

Teus olhos, meu Rui, 
Tão bellos, risonhos, 
Só õizem esp'ranças, 
Ternuras e sonhos ! 

As flôr's á porfia, 
]á anòam, vê lá ! 
Tiranòo-te espinhos, 
Que o munôo tem cá ! 

E querem, vaiòosas. 
Encher- te o caminho, 
E as asas tornarem-te 
Bem leves, anjinho ! 



Poetisas Portuguesas 259 

Mimosa criança! 
E' tua bellêza 
Teu riso, que encanta 
E afasta a tristeza ! 

Ventura, anelos, 
P'ra ti só ôesejo ; 
Criança, és um sonho ! 
Criança, és um beijo ! 

Rosalinõa Celeste òe Figueireòo Santos. 



D. MARIA OLGA DE MORAES SARMENTO 
DA SILVEIRA 

D. Maria Olga òe Moraes Sarmento ôa Silveira nasceu 
em Setúbal. 

E' filha õe D. }ulia Canõiòa õe Moraes Sarmento e òe 
Francisco Máximo òe Moraes, oficial superior òo Exercito, 
já faleciôo. 

Pelo laòo materno, é neta òo general CanòiÒo Higino òe 
Moraes Sarmento que òescenòia òas famílias mais ilustres 
õe Traz-os-Montes. Nela paterna òo faleciôo major Justi- 
niano Máximo òe Moraes, que por feitos militares foi lou- 
vaòo, acha-se exposta na Socieòaòe òe Geographia òe 
Lisboa á espaòa ò'honra que D. Maria II lhe ofereceu. 

D. Maria Olga òe Moraes Sarmento òa Silveira foi casaòa 
com o meòico naval òe 1.^ classe Manuel João òa Silveira^ 
morto no combate òo Cuamato, contanòo apenas 34 anos 
òe iòaòe. 

O nome Òesta òistincta escriptora é bastante conheciòo 
e apreciaòo, não só em Portugal, como em Maòriõ, Paris 
(sua resiòencia habitual). Rio òe Janeiro, S. Paulo e na Ar- 
gentina, onòe tem siòo muito bem acolhiòas as conferen- 
cias que fez nesses paizes. 



260 Poetisas Portuguesas 



Em 1913, foi eleita sócia ôo Instituto õe Coimbra. Em 6 
ôe maio õe 1908, A Acaôemia õe Sciencias õe Portugal que 
conta entre os seus sócios os nomes ilustres õe Teófilo 
Braga, Santos Lucas, Alfreòo 5a Cunha, Augusto òe Mi- 
ranDa, António Cabreira, Ramos õa Costa, Belo òe Moraes, 
Silva Amaôo, Dr, Júlio Henriques, João Caròoso Júnior, 
Costa Sacaõura, Abel Botelho, Alberto Bramão, Anselmo 
Õe Anõraõe, Costa Mota, Ernesto õe Vasconcelos, Queiroz 
Veloso, Bruno, Cunha e Costa, Júlio Neupart, Freitas Bran- 
co, Magalhães Lima, Marquez õo Funchal, Rocha Martins, 
Teixeira Lopes, Veloso Salgaõo, Ventura Terra, Alfreôo Õe 
Mesquita, Moreira ôe Sá, Viana õa Mota, Severo Portela, 
Bento Carqueja, Augusto õe Lacerõa, Carneiro õe Moura,^ 
paõre Himalaia, Conõe õe Sabugosa, Visconõe õe Sanches 
õe Frias, Maõame Curie, D. Domitila õe Carvalho, Analotc 
France, Camile Saint Saens. Henri Turpin, L. Phileas Lebes- 
gue, Pierre Prevost, Prospero Peragallo, Ribeiro Y. Rovira,^ 
etc, etc, elegeu sócio a D. Olga õe Moraes Sarmento õa' 
Silveira. Investigaõora profunõa e meticulosa D. Olga õe 
Moraes Sarmento, é uma õas figuras õe mais realce na li- 
teratura feminina portuguesa na qual se õestacam os no- 
mes õe D. Maria Amália Vaz õe Carvalho, D. Carolina Mi- 
chaelis Õe Vasconcellos, D. Emilia õe Sousa Costa, D. Marj 
ria 0'Neill, D. Virgínia õe Castro e Almeiõa, D. Anna õJ 
Castro Osório^ D. Angelina Viõal, D. Alice Pestana (Caie!)/ 
D. Clauõia õe Campos, D. Maria Paula õ'Azeveõo, D, Ma- 
ria Beneõicta Mousinho õe Albuquerque e Pinho, D. Con- 
ceição Eça õe Mello, D. Mafalõa Mousinho õe Albuquerque, 
D. Maria Feio, etc. Prosaõora e poetisa brilhante, õirigiu 
ôurante muitos anos a revista Sociedade Futura. 

Em 1906, publicou: o Problema Feminista; em 1907, A 
Marquesa de Alorna, obra a que me refiro a pag. 22 õestaí 
Antologia ; em 1909, A Infanta D. Mana e a Corte Poriu 
guesa (Conferencia realisaõa no Instituto õe Coimbra e$\ 
4-5-1909) ; no mesmo ano, Arte, Literatura e Viagens e 
nalmente em 1912, La Pairie Bresilienne. 



Poetisas Portuguesas 261 



Para estas obras tiveram os jornaes portugueses e es- 
trangeiros (merece especial referencia um artigo òe Maxime 
Fromont, no Mercure de France), as mais rasgadas e enthu- 
siasíicas apreciações. 
São õo Dia òe 25IV-1912, as seguintes palavras: 
«A õistinctissima senhora D. Olga òe Moraes Sarmento, 
que em Paris foi alvo òas mais calorosas homenagens por 
occasião òa sua conferencia, tem siõo muito festejaòa pela 
alta socieòaôe òe Maòriõ e pela elite intellectual òa capital 
òo visinho reino, senòolhe feita uma recepção gentillis- 
sima>. 

«Uma outra excepcionalissima òistincção, que muito fol- 
gamos òe registar aqui, teve a sr.' D. Olga Òe Moraes Sar- 
mento : a Infanta D. Isabel, não poòenòo assistir, por in- 
commoòo òe sauòe, á conferencia, conviòou-a a passar a 
taròe òe sexta feira no seu palácio, a fim òe lhe lêr e á 
íamilia real esse tão bello trabalho litterario». 

O trabalho a que se refere este artigo é La Patrie Bre- 
silienne. 

NEVER MORE... 

O sol ôescae no poente e as nuvens côr òe rosa 
Formam-se em turbilhões cercanòo-!he o áureo leito. 
Que torrentes òe luz 1 que surprehenòente effeito ! 
No emtanto triste òesce a noite silenciosa. 

Assim eu vi cahir, entre illusões ôesfeito, 
O amor que illuminou minha'alma òescuiòosa. 
Foi um occaso ! e apoz a treva angustiosa 
Invaòiu torvamente o vácuo òo meu peito. 

[Toòavia o sol volta abrinòo a porta ao òia, 
Mas o amor. . . oh ! o amor. . . a òivinal poesia, 
[Que nos perfuma o ser, não voltará jamais! 



262 Poetisas Portuguesas 

Não voltará jamais ! e uma atroz sauõaõe 
Repete ao coração esta fatal verôaôe 
Como ironia cruel aos sonhos iòeaes. 

Maria Olga Òe Moraes Sarmento õa Silveira. Almanach 
das Senhoras, òe 1913, pag. 247. 



D. ELVA ÇDUARDA DA CUNHA SERRÃO 

D. Eiva Eõuarôa ôa Cunha Serrão nasceu na Figueira òa 
Foz. 

E' filha òo falecido escrivão-notario ]u!io Augusto Gaspar 
õa Cunha Serrão e õe D. Mabilia Augusta õo Reis Serrão. 

TenÕo viviòo muitos anos no Alemtejo, fez a sua estreia 
literária no jornal A Vo^ d^Estremoj. 

As suas poesias teem siôo publicadas nos Almanachs das 
Senhoras e õe Lembranças e, sobretudo, no jornal, Sucessos^ 
ô'Aveiro. 

A obra desta Senhora, como de tantas outras de quem 
falo, nunca foi reunida em volume. 

SONETO 

— Deixae chegar a mim os pequeninos ! 
Disse Jesus sorrindo santamente 
E dos seus doces olhos peregrinos 
Rolou na face a lagrima tremente . . 

E a afagar- lhe os cabelos finos 
E o rosto branco de expressão ridente, 
Fitava os olhos d'elles, azulinos, 
Emquanto lhes falava mansamente ■ 

Na sua meiga voz, suave e calma, 

Tentava, em vão, encher-lhes bem a alma 

De tudo o que é bondade, o que é meiguice. . . 



Poetisas Portuguesas 263 

Mas foi õebalôe. A pequenina grei 
Quanõo mais tarõe um banõo sem ter Lei 
Não recoròou o que ]esus lhe õisse. 

Eiva Serrão. Almanach de Lembranças, ôe 1910, pag. 142. 



SONETO 

Na Ôelicaôa haste — òebruçaõa 
Nas suas folhas tenras, setinosas, 
Vi uma linõa rosa nacaraõa 
Entre-abrinÕo as pétalas viçosas. • . 

E o vento a sacuòil-a — balouçaòa 
Na hastesita, em curvas caprichosas, 
Ficava a rosa um pouco reclinaõa, 
Penôiôas suas pétalas mimosas ■ ■ 

E n'essa posição tão peregrina 

A inclinar a coma pequenina 

Com õesusaôa graça e compostura • . 

Fazia-me lembrar — ao vêl-a airosa — 
Uma õama gentil, pretenciosa, 
Fazenõo gravemente uma mesura . 

Eiva Serrão. Almanach das Senhoras, õe 1910, pag. 356. 



D. MARIA PEREGRINA DE SOUSA 

D. Maria Peregrina 5e Sousa nasceu no Porto em 13 Õe 
fevereiro òe 1809. 

Colaborou : no Archivo Popular, Revista Universal Lis- 
bonense, Bra^ Tisana, Pirata, Aurora, Lidador, íris, Òo 
Rio õe ]aneiro, Grinalda, etc. 



264 Poetisas Portuguesas 



Na Revista Universal Lisbonense usou D. Maria Peregrina 
õe Sousa o pseuòonimo ôe Obscura portuense. 
Castilho foi aòmirabor Õesta Senhora. 

PARÁBOLA DA MINHA VIDA 

Em jarõim me vi formoso, 
Tão alegre, tão mimoso, 
Que outro nunca vi assim : 
Longas ruas espaçosas, 
Flores mil, toõas viçosas. 
Julguei vêr n'este jarõim. 

Era então òe maôrugaòa : 
Nebrina òe côr rosaòa 
No começo õ'este òia 
Mil encantos presentava ; 
Os õesares occultava. 
As bellezas òiffunõia. 

Vem o õia : esclareceu 
Pouco a pouco terra e ceo. 
Ruas que vira vistosas, 
Vi tristonhas, apertadas ; 
Murchas, sêccas, õesfoihaòas 
Vi as flores mais formosas. 

Só meòravam lá martYrios, 
Chagas vivas, roxos lirios ; 
Os suspiros, ais singelos, 
Tristes lagrimas penõiõas ; 
As sauòaòes õenegriôas, 
Malmequeres amarellos. 

Quasi estava já no fim 
Do symbolico jaròim, 
Eis me falta arrimo e luz ! 



Poetisas Portuguesas 265 



Em terra cahi prostraòa 
De sauòaôes roõeaòa 
Abracei funérea cruz. 



Maria Peregrina ôe Sousa. A Grinalda, II ano, Porto, 
1857, pag. 17 e 18. 



I 



D. GUIOMAR TORREZÃO 

D. Guiomar Torrezão nasceu em Lisboa a 26 õe novem- 
bro õe 1844 e faleceu em 22 ôe outubro õe 1898. 

Nos primeiros anos Òe sua existência luctou com muitas 
òificulòaões esta Senhora que foi uma granõe trabalhadora. 

Aos oito anos õe iòaõe, ficou órfã õe pae, restanõo-lhe 
apenas sua mãe que extremecia, õois irmãos pequenos e a 
avó que pouco tempo õepois faleceu. 

Dotaõa õe granõe força õe vontaõe, intiligente e muito 
estuõiosa, poucos anos õepois era professora õe instrução 
primaria e õe francês. 

Tinha pouco mais õe õezasseis anos õe iõaõe, quanõo 
escreveu a sua primeira obra literária, Uma alma de mulher- 

E' auctora õos trabalhos : Rosas Pálidas, No Theatro e 
na sala, Meteoros, Paris, Família Albergaria, Flavia, Bata- 
lhas da vida, A comedia do amor, Idilio á inglesa, etc. 

Para o teatro õo Gymnasio escreveu Educação Moderna, 
comeõia e Naufrágio do Brigue Colombe, peça õestinaõa a 
um teatro õo Brazil. 

D. Guiomar Torrezão também traõuziu muitas peças tea- 
íraes, como : Condessa Sara, Dois garotos. Menina dos te- 
lelefones, etc, etc. 

Folhetinista õistincta, colaborou no Repórter, Diário 11- 
lustrado, Gaveta Setubalense, etc. 

Em 1871, funõou o Almanach das Senhoras que õirigiu 
õurante muitos anos, tenõo-lhe por sua morte, suceõiõo no 
aluõiõo cargo, sua irmã D. Felismina Torrezão. 



266 Poetisas Portuugesas 



RelacionaÒa com os escriptores mais em eviòencia òo 
seu tempo, o nome õesta ilustre Poetisa e Escriptora é so- 
bejamente conheciòo nas letras portuguesas. 

A MINHA MÃE 
(no dia dos seus anos) 

ó minha mãi quem puõera 
cingir-te a fronte òe flores ! 
e ajoelhar aos teus pés, 
sanctuario òos meus amores ! 

Ai ! quem puòera n'um raio 
ôo sol manòar-te minha alma. 
A sauõaõe é um martyrio, 
mas um martyrio sem palma ! 

E tu és na minha viòa 
a ôoce luz òe uma fé, 
que nunca póòe extinguir-se, 
que brilha sempre õe pé ! 

Ó minha mãi quem puôera 
voar. . . voar para ti ! 
e ôizer-te em meigo enlevo 
surri meu anjo ! . . . surri I 

Guiomar Torrezâo. Almanach das Senhoras, para 1872, 2." 
ano, Lisboa, 1871, pag. 127. 



D. ROSA VARELLA 

D. Rosa Varella nasceu na freguezia õe Ganfei, concelho 
õe Valença õo Minho. 

E' filha Õe D. Maria Rosa õe Sousa Varella e õe Domin- 
gos Gonçalves. Professora oficial em Loivo õe Cerveira , 



Poetisas Portuguesas 267 



concluiu o curso para o magistério primário oficial, na Es- 
cola Normal òe Braga, em 4 ôe Julho òe 1904. 

Fez a sua estreia literária em 1913, ano em que publicou 
o seu primeiro livro (prosa e verso), Ondas do Minho, im- 
presso em Vianna òo Castello. 

Em 1917, eôitou um volume õe poesias, //ar/ja ia Tumba. 

Tem colaborado nos jornaes : Correio Litterario, òe Lis- 
boa, Comercio do Lima, õe Ponfe Òe Lima, Vbf de Cerveira 
e nos Echos de Cerveira. 

D. Rosa Varella que consagra os poucos momentos que 
tem òe seu, á literatura, trabalha num romance intitulaòo 
Flor das Campas e Jem no prelo um novo volume òe versos 
— Revoadas — òo qual faz parte o soneto Lei Universal 
que abaixo transcrevo. 

LEI UNIVERSAL 

(iNEDlTO) 

Desfralòa-se uma vella aventureira, 
Sulcanòo altiva as aguas agitaòas. 
Por sobre ela a águia em revoaòas, 
Vejo o espaço transponòo altaneira. 

A' mente trazes coisas já passaòas, 
Águia austera viril e sobranceira, 
Que òeixas ao passar como uma esteira, 
Cortanòo a névoa òas manhãs nevaòas. 

Sobes com altivês alem õa serra, 
E's senhora suprema ò'ampliòão, 
Foges ás sombras tumulares òa terra. 

Mas não foges á morte esse òragão, 
Que a viòa a toòo o ser, cruel encerra , 
E ao naòa faz volver a creação ! 

Rosa Varella. Do livro Revoadas. 



268 Poetisas Portuguesas 



PROVAÇÕES DA VIDA 

(o QUE NOS ESPERA) 

Da creança o negro õestino, 
Que oura malòaõe encerra, 
Mais vale o eterno somno, 
No frio leito ôa terra. 

E' ave que livre esvoaça, 
E cantanõo poisa na flor : 
No silveõo busca agasalho 
Onòe a espera o caçaòor. 

Rosa Varella. Ondas do Minho, Vianna, 1913, pag. 15. 



DESVENTURAS 

Desventuras cá neste munòo o que importa ? 
Neste munòo ha venturas, prazeres, paixões, 
E efémeras risos Da sorte que volta. 
Delicias, òesgraças... òa sorte os bal&ões- 

Se chora a miséria que importa então ! ? 
Afasta o õitoso a vista com teõio, 
E é inútil implorar a compaixão, 
Crime é peõir para a òesgraça remeõio. 

O remeõio está nessa fria moraòa, 

Aonôe tuòo finòa no esquecimento, 

E se resume a viôa nesse pó ôo naòa, 

E nossos pobres ò ramas nos vais- vens òo tempo. 

Rosa Varella. Harpa da Tumba, Vianna, 1917, pag. 87. 



Poetisas Portuguesas 269 



D. MARIA DA GLORIA PEREIRA TEIXEIRA 
DE VASCONCELLOS 

D. Maria ôa Gloria Pereira Teixeira õe Vasconcellos nas- 
ceu na quinta ôe Pascoaes, em Amarante. 

E' filha ôe D. Carlota Gueôes Teixeira ôe Vasconcellos e 
õe João Pereira Teixeira ôe Vasconcellos. 

Irmã ôo poeta Teixeira ôe Pascoaes, tenl esta ôistir.cta 
Poetisa que é casaõa com o sr. José Monteiro Carvalhal, co- 
laboraôo na Revista de Coimbra, na Chronica, na Alma /^e- 
w/muae, ultimamente, na Águia, bela revista mensal, ôe li- 
teratura, arte, e sciencia, filosofia e critica social, na qual 
tem escripto ; Aarão ôe Lacerôa, Afonso Duarte, António 
Carneiro, António Sérgio, Augusto Casimiro, Aurélio ôa 
Costa Ferreira, Eurico ôe Seabra, Gomes Leal, João Lúcio» 
Leite ôe Vasconcellos, Leonarôo Coimbra, Mário Deivão, 
Phileas Lebesgue, Teixeira Lopes, Teixeira ôe Pascoaes^ 
Teófilo Braga, Visconôe ôe Vila- Moura, etc, etc. 

Esta Senhora usou o pseuôonimo ôe Maria Estella^ como 
se vê ôo bonito soneto que incluo nesta coleção. 

D. Maria ôa Gloria Teixeira Ôe Vasconcellos tem em pre. 
paração um interessante volume ôe versos que tem por ti- 
tulo : O Livro de minha filha, obra em que ha belas poe- 
sias, repassaôas ôe ternura. Viôe pag. 257 ôesta Antologia. 

PRIMEIROS CUIDADOS 

Com a tua linôa cabeça 
Tombaôa sobre o meu peito 
Chegaôinha ao coração 
Que batia com mais geito. 

Com teus braços enrolaôos 
Ao meu pescoço, Maria ; 
Teus granôes olhos febris 
Fechaôinhos á alegria. 



270 Poetisas Portuguesas 



Murchinha como uma flor 
De baixo ô*um sol arôente. 
Como é triste para uns braços 
Suster um filho òoente ! 

Ai, são como o sol õ'inverno 
As alegrias ôa Mãe ! 
Tão òepressa tem òe rir 
Como ha-õe chorar também. 

Sêr Mãe é tornar a ser 
Mais uma vez pequenina. 
Quantas vezes eu não sei, 
Se sou a Mãe, se a Menina ! 

Ser Mãe é olhar a infância 
Que em creança se não viu. . . 
Como nos volta nos filhos 
Aquillo que nos fugiu ! 

Maria Teixeira õe Vasconcellos. A Águia, Revista mensal 
Ôe Litteratura, Arte, Sciencia, Filosofia e Critica Social, n.« 
38, Porto, Fevereiro ôe 1915, pag. 62. 



SONETO 

No azul immenso o meu olhar cançaòo, 
Como elle gosta lá ôe repousar ! 
De ver o munòo está tão õesgraçaõo 
Que se desfaz em lagrimas no ar. 

Para alem ôo infinito constellaôo. 
Ha uma estrella que me quer levar, 
Astro õe estranha luz illuminaõo. 
Que vem sobre o meu peito repousar! 



Poetisas Portuguesas 271 

Nas azas õ'essa estrella vou voanõo 
Mas sempre minha Mystica sauòaôe 
De roxas nuvens tuôo vae tolõanôo. 

Desfaz-te, ante meus olhos, roxo veu ! 
Quetuôo encobres, õize-me a verôaòe, 
Se para além õo Ceu, ainôa ha mais Céu ? 

Maria Estelia. A Chronica, nS 61, 3.» anno. Lisboa, março 
òe 1902. 



D. MARIA AMÉLIA VAZ 

Esta Senhora é, como a Visconõessa òas Nogueiras (D. 
MathilÒe Izabel Ôe SanfAnna e Vasconcellos Moniz ôe 
Bettencourt), D, Maria Helena Jervis ôe Athouguia e Al- 
meiôa, D. ]oanna Castelbranco, D. Arsenia Bettencourt Mi- 
ranôa, D. Leolinõa Jaròim Vieira, D. Emilia Acciaioli Rego 
Sénior, D. Luiza Maria Pereira, D. Maria õa Costa Pereira, 
e D. Eugenia Rego Pereira, — natural õa Ilha òa Maòeira, 

D. Maria Amélia Vaz tem colaboraòo assiòuamente em 
almanachs, Õiferentes jornaes e, especialmente, no Diário 
da Madeira. 

MORTINHA 

Veste Õe neve a creancinha, 
Que vae mortinha a enterrar. 

Com um sorriso ! 
A flor õ'um èia que jaz penbiòa. 
Emmurcheciôa, irá brilhar 

No Paraiso. 

E a acompanhal-a ao cemitério 
Um coro ethereo ! Um banõo linòo, 
Aquelle banòo ! 



i 



272 Poetisas Portuguesas 

Linòas creanças inòa innocentes 
Pensam contentes, que vae òorminòo. 
Seguem cantando. 

No campanário repica o sino, 
Parece um hymno o seu tocar 

Alegremente. 
Rozas ôesfolham p'lo cortejo 
E tem ensejo òe a beijar 

O sol poente. 

Lá n'um casal, ó òôr pungente. 
Amargamente a mãe chorava 

O ouro açoite 
Da negra morte. Mas uma estrella 
Pouõe alguém vêl-a a mais brilhava 

No ceu á noite. 

Pois é geral, ahi na alòeia, 
A' bocca cheia, tJiz a gente : 

Essas estrellas 
Que se estão venòo no azul prezas 
Serão accesas eternamente 

Pelos anginhos • 

Amélia Vaz. Santa Cru^, 1912. 



D. MARIA RITA CORRÊA DE SÁ BENEVl 
DES VELASCO DA CAMARÁ 

D. Maria Rita Corrêa òe Sá BeneviÕes Velasco òa 
mara nasceu em 2 òe Outubro Òe 1821 e faleceu em 30 *< 
Janeiro Òe 1868. 

Irmã ôo sétimo Visconòe òe Asseca, Salvaòor Corrêa òf 
Sá, e|a filha òe D. Rita òe Castello Branco, terceira filhi 



Poetisas Portuguesas 273 

ôos primeiros marquezes ôe Bellas e Õo Visconde ôe As- 
seca, António Maria Corrêa õe Sá Beneviôes Velasco õa 
Camará. 

Esta ilustre Senhora foi casaòa com D. José Maria õa 
PieòaÕe Ôe Lencastre, segundo filho õo quarto Marquez 
ôe Abrantes e ôa Marqueza D. Helena Ôo Santíssimo Sa- 
cramento Ôe Vasconcellos e Sousa, filha ôos Marquezes ôe 
Castello Melhor. 

A SOLEDADE 

Voe soll I 

Que voz õolorosa, que tristes gemiôos 
Os echos retumbam ô'antiga Sião ? ! 
Rachel lamenta Ôos filhos perôiôos ? 
Não ha consolal-a, por que elles não são ? 

São ais e sauôaôes, que solta Maria, 
Chamanôo entre angustias seu caro Jesus. 
Debalôe o procura com tanta agonia ! 
Do filho que resta ! . no monte uma cruz ! 

A cruz, que sua alma consola e tortura ! 
Agora na terra seu único amor . . 
Oh vós, que provastes ôa viôa a amargura, 
Dizei se ha tormento que eguale essa ôôr ! 

O archanjo, se agora baixasse. Senhora, 
SauÔanõo teu nome ôa parte ôe Deus, 
Esse ave festivo calara Ô'outr'ora, 
Seus ais compassivos unira co'os teus. 

Nem «Deus é comtigo» teria juntaôo, 
Que Deus já parece ôe ti se ausentou. 
Deixou mesmo o filho, foi surôo a seu braôo ; 
Do seu ôesalento Jesus se queixou. 

Mas ah ! se outr'ora te ôisse Bemdicta, 
Não menos agora t'o Ôeve ôizer ; 
Que a benção celeste por Deus foi preôicta 
A quem sobre a terra chorar e soffrer. 

18 



274 Poetisas Portuguesas 

BemÕize, pois, Virgem, as maguas que soffres. 
Que eterna ventura no céu te òarão ! 
Com ellas, abrinõo òas graças os cofres, 
Alcança conforto p'ra os filhos òe AÔão. 

Maria Rita Corrêa ôe Sá. Parnaso Mariano, (2.* eòição), 
Coimbra 1890, pag. 181. 



D. MARIA VELEDA 

D. Maria VeleÔa nasceu em Faro, a 26 òe fevereiro ôe 
1871. Foram seus pães ]oão Diogo Frederico Crispia, 
oriundo òe uma familia ingleza, òe comerciantes, que se 
estabeleceram no Algarve, e D. Carlota Perpetua òa Cruz 
Crispin. 

Tenôo ficaòo órfã òe pae aos onze anos, começou a tra- 
balhar aos quinze anos, para ajuòar a viver sua mãe e um 
irmão mais novo, Òeòicanõo-se òesòe essa iôaòe ao pro- 
fessoraòo. 

Aos òezanove anos fez a sua estreia literária num lorna 
provinciano — O Districto de Faro. 

Colaborou, ôepois, em vários jornaes òe Lisboa e òa proi 
vincia, como o Diário lllustrado, O Globo, o Repórter, 
Vanguarda, O Século, O Heraldo, O Lidador, etc, etc, e 
em òiíerentes revistas como A Tradição, A Sociedade Fu 
iura, A Mulher e a Creança, etc. 

As suas proòuções, quer em prosa, quer em verso, fo 
ram, a principio, exclusivamente literárias ; mais taròe, po* 
rém, revestiram um caracter acentuaòamente feminista e òi 
propaganõa em favor òa eõucação infantil. 

A sua activiòaòe literária aòquiriu nova feição òesòe 19 
em que começou a colaborar em òiversos jornaes politic 
Òe caracter republicano, passanòo òesòe logo a ser solici» 
taòa para colaborar com os homens mais em òestaque 
nesse partiòo. 



Poetisas Portuguesas 275 



Na propaganda òo mesmo iõeal, D, Maria Veleòa discur- 
sou em comidos e fez conferencias. 

Dos seus numerosos artigos politicos, o que adquiriu 
maior notoriedade foi um que publicou na Vanguarda, de 
que era director Magalhães Lima, e que se intulava : A pro- 
pósito, e que obteve grande êxito e teve três edições suces- 
sivas. 

As suas conferencias mais notáveis foram reunidas em 
volume, intitulado A Conquista, prefaciado por António 
José d'Almeida. Publicou diversas plaquetes — A Emanci- 
pação feminina, etc. Manteve, em Serpa, uma publicação 
mensal, Côr-derosa, contos moraes para creanças. 

Como poetisa, a sua obra anda dispersa por inúmeros 
jornaes, revistas e almanachs. 

D. Maria Veleda foi durante muitos anos colaboradora 
assidua do Almanach das Senhoras. 

Actualmente, tendo abandonado por completo a propa- 
ganda politica e feminista, e estando afastada da literatura, 
dedica-se, exclusivamente, á sua missão de amiga das 
crianças, vivendo só para elas, como Delegada da Tutoria 
Central da Infância e Directora professora da Obra Mater- 
nal, da qual foi fundadora, e onde são recolhidas creanças 
do sexo feminino que estejam ao desamparo ou em perigo 
moral, sendo este segundo cargo exercido gratuitamente. 

PÉTALAS 

Déste-me um dia, sorrindo 
Tua alma para a guardar. . . 
— E era um hymno a tua voz. 
Era um ceu o teu olhar. 

Guardei-a junto da minha, 
Em tão estreita união, 
Que por fim já não sabia 
Se eram duas ou não. 



276 Poetisas Portuguesas 

Mas quizeste rehavel-a, 
Tiveste õe a espeõaçar. . . 
— Tinhas-m'a òaõo sorrinòo, 
E levaste-m'a a chorar. 

Maria Veleõa. Almanach das Senhoras, para 1901, pag. 83. 



MATER DOLOROSA 

Lançae-me á vala. Amigos ! Que me importa 
Apoõrecer com párias lá no funòo ! . . 
— Ha-ôe ser como um farõo sujo, immunôo, 
O caôaver òa vossa infeliz Morta. 

Atirae-me e esquecei-vos ()'esse õia, 
Que eu não quero Õeixar-vos um Ôesgosto . . 
Esquecei o meu riso, a voz, o rosto . . . 
Essa máscara alegre que illuòia, 

E quanòo não houver, emfim ninguém 
Que o meu nome recorde ou me lamente, 
Vós vereis arrastar-se, lentamente, 

Caminho ò'essa vala, uma velhinha, 
Carregaõa õe flores — coitaòinha. . . — 
E chorando por mim — a pobre Mãe ! 

Maria Velleôa. Almanach das Senhoras, para 1903,pag. 123. 



D. VIRGIiNIA VITORINO 
Desta inspirada Poetisa, auctora ôo soneto Incerteza, 



sei, apenas, o que a seu respeito õiz com justiça, O Século ^1 
{edição da Noite)^ Ôe 4-6-1917 : 
<Faz hoje a sua estreia literária, no nosso jornal, uma 



Poetisas Portuguesas 277 

nova poetisa, a sr.» D. Virgínia Vitorino, que, em plena 
mociòaõe — tem apenas 20 anos — se Kveia na posse ôe 
toòos os segreòos òa mais õificil õe toòas a formas poé- 
ticas : o soneto. Desôe hoje é-nos licito contar, entre as 
nossas ilustres cultoras òo verso, mais um talento, que é 
uma autentica e raôiosa esperança». 

INCERTEZA 

Mentes-me muito sim. ]á m'o tens oito 
E eu tinha-o já também aòvinhaòo. 
Mas que me importa a mim esse pecaõo 
Se té desculpo até, se te acreòito ? 

Qual será ôé nós õois o mais culpaõo ? 
Tu que mesmo a mentir és tão bonito, 
Muôanòo em graça o teu maior õelito, 
Ou eu, porque te tenho acreòitaòo ? 

Tu vaes ôizenòo aquilo que não sentes ; 
Eu anõo presa a ti, n'esta ancieòaõe 
De saber o motivo porque mentes. 

Enganamo-nos ambos sem pensar : 
Tu a mentir, òizenôo-me a verõaôe, 
Eu crendo em ti, mâí8 sempre a õuviòar. 

Virgínia Vitorino, Século, (edição ôa noite) òe 4-6-1917. 



D. LEOLINDA JARDIM VIEIRA 

D. Leolinõa Jardim Vieira é natural 5a Ilha òa Madeira. 

Poetisa e cantora de notáveis recursos, casou com o Dr. 
"João José Vieira, jornalista e antigo director do extíncto 
Diário Popular, do Funchal. 

Esta Senhora foi uma das colaboradoras do livro Flores 
da cMadeira. 



278 Poetisas Portuguesas 

NUM ÁLBUM 

Nos jarõins mais formosos tão línõas vegetam 

Alegres florinhas, 
e vezes mãos ferinas a morte ôecretam 

ás innocentinhas !. • - 

Succeõe que nos montes nasce a flor inculta 

e morre ignoraôa 
na escarpa òe um outeiro, lá quasi sepulta, 

mas não maltrataòa. 

Tal como a flor Ôas serras, singela lembrança 

Venho aqui õepôr, — 
fraco penhor õe affecto, um signal õ'esperança, 

ô'eternal amor. 

Leolinõa JarÔim Vieira. Flores da Madeira. 



D. ANGELINA VIDAL 

D. Angelina Viõal é filha Òo notável maestro Joaquim 
Casimiro e viuva õo meòico naval, Dr. Luiz Augusto ôe 
Campos Viõal, faleciòo na Guiné em 21-7-1894. 

Começou, bem ceòo, a sua carreira literária que tem siòo 
sempre agitaòa, como a sua viòa. 

Escriptora, Professora inscripta no Lyceu e no Conser- 
vatório, Sócia efectiva ôa Associação ôa Imprensa Portu- 
guesa, Sócia benemérita Òa Associação õos Trabalhadores 
ôa Imprensa, Membro õe Honra õa Liga Internacional Po- 
lonesa õos Amigos õa Polónia, etc, a obra õe D. Angelina 
Viõal como escriptora, professora, jornalista, poetisa e ora- 
Õora é invulgar e revelaõora Ôe profunôa eruõição. 

Porém, Õe naõa lhe tem serviõo, praticamente, o seu 
granõe talento e as inúmeras ôistinções que, em concursos 
literários internacionaes, os seus trabalhos teem obtiôo. 



Poetisas Portuguesas 279 



Quantas vezes, na sua solitária resiôencia õa rua õe S. 
Gens, acompanhaõa pelos seus fies companheiros — os 
seus cães e por um ou outro õeõicaôo amigo —D. Angelina 
Viòal ao ver-se ôesamparaõa e òoente, terá feito amargas 
reflexões acerca ôos homens, ela que tanto trabalhou em 
favor ôe uma humaniòaòe perfeita ! 

Não poucas vezes, por certo se terá lembraôo òa frase 
õo granõe Affonso õe Albuquerque. 

D. Angelina Viôal foi proprietária e reòactora dos jor- 
naes : Syndicato, Justiça do Povo e A Emancipação. 

Colaborou no domingo JHustrado, Bocage, Partido do 
Povo, O Tecido, A Lii^, O Trabalho, Partido Operário, Lu\ 
do Operário, Constructor, Liberdade, ^Vulcão, Marselhesa, 
Tribuna, Officina, Vo{ do Trabalho, Vanguarda, Alma Fe- 
nina, A Chronica, Gabinete dos Reporters, Livre Pensamento 
(Maõriõ), Diário Metallurgico, Revolução, Caixeiro, Com- 
mercio de Lisboa, Vo{ do Operário, etc, etc. 

D. Angelina Viôal é auctora õos poemas : Liberdade, 
Morte de Satan, O Marque^ de Pombal á lu^ da philosophia, 
O Ultrage, Semana da Paixão, consagrado á rainha D. 
Amélia (braõo eloquente a favor òos marinheiros conõe- 
mnaõos), A noite de espirito, ôeòicaôo a ]oão Òe Deus, e 
premiaòo num concurso internacional ; ícaro, igualmente 
premiado num concurso realisaôo no Rio Qranòe õo Sul ; 
Nas florestas da vida {{a propósito Õa catástrofe ôe Cour- 
rières), Lisboa, 1906 ; Jesus no templo e Espiraes de dor. 

Por almanachs e jornaes anõam ôispersos um sem nu- 
mero õe suas poesias, que ôariam um valioso volume. 

Em prosa, alem õe inúmeros artigos em que tem versaõo 
quasi toõos os ramos ôos conhecimentos humanos, é au- 
ctora õos aômiraveis Contos de Crystal e Contos negros, 
que só por si bastariam para noutro paiz em que a litera- 
tura fosse amaôa, consagrarem quem os architectou. 

Para o teatro, escreveu esta notável Senhora : Caminho 
errado, comeõia em 3 actos, em verso ; Castigar os que 



280 Poetisas Portuguesas 

erram, iõetn, iòem, em prosa; Nobresa d'alma, Licção Mo- 
ral e Conselheiro cocado. 

Ao terminar estes singelos ôaõos biográficos, tenho es- 
perança que ainòa surgirão melhores òias para D. Angelina 
Viòal que, por certo, não será esqueciòa principalmente 
pela Associação òa Imprensa e por aqueles a quem o seu 
granòe coração e elevaòo espirito sempre beneficiou. 

CONFRONTO 

<Pae, porque me abanòonas?» exclamava 

O ôoce Nazareno agonisante, 

E seus olhos sem luz na luz filava 

Do paternal império Deslumbrante. 

Mas õo céo impassível não baixava 
O rocio ôa pieõaõe ; e Òo semblante 
Da victima serena, ôeslisava 
A supplica õe um pranto soffocante. 

Deus, o cúmplice horrível ò'este crime, 
Deixava-o espeòaçar, qual branòo vime 
Que o tufão colossal prosta e retalha. 

Mas eis, n'este momento, junto á cruz. 
Alguém chorava a òôr ôo bom Jesus ; 
Era um paria infamaòo, era a canalha i 

Angelina Viòal. Almanach Republicano, para 1880 (6 ' 
anno) pag. 99. 



CANÇÃO DO ENGEITADO 

Sem ter ninguém eu anôo assim 
Sempre a mau trato, ao sol ao frio 
Enfermo ou são, ninguém sentiu 
Um só carinho ou ôôr por mim. 



Poetisas Portuguesas 281 

Amos, ganhões, ovelhas, cães, 
N' esses cazaes e choças varias, 
Almas christans ou alimárias 
Toõos são filhos- . teem mães ! 

Trigaes òo campo, aguas õa fonte 
Cepas, ginjaes, pinheiros, tilias 
Ouvi Õizer que têm famílias. • • 
Eu nunca a tive, eu anõo a monte. . 

Levanôo as cabras n'esses trilhos 
Passo por baixo Ôos pomares, 
E penso então, toòo em pezares : 
A flor é mãe, os fructos filhos. 

Beijos õe mãe, como serão ? 
Era Òe peòra a mãe que tive ? 
Ai ! se eu soubesse onõe ella vive 
Guarõava-a aqui, no coração. 

Quanõo recolho á noite os bois 
Peço, a chorar, a caõa estrella ; 
Dize, onôe está ? Só quero vêl-a, 
Chamar-lhe mãe morrer õepois ! 

Angelina Viòal. Lisboa, Novo Almanach de Lembranças 
Lu^o-'Brapleiro, para o anno õe 1908, pag. 54. 



A PENA DE MORTE 

Sou õemocrata e mãe ; procuro um norte 

De Liberõaõe e Gloria ! 
Aceito essa revolta ardente e forte 

Que faz tremer a Historia, 
Porem conòemno o imman õesvario 

Que mata a sangue frio ! 

Angelina Viõal. Vi^eu Ilustrado, pag. 201. 



282 Poetisas Portuguesas 

VISCONDESSA DE VILLA MAIOR 

(d. SOPHIA de ROURE AUFFDIENER PIMENTEL) 

A sr.* Visconõessa ôe Villa Maior nasceu em Lisboa, a 
17 òe março ôe 1821. 

Era filha õe D. Emilia Auffòiener e òe João õe Roure. 

Esta ilustre Dama foi casaõa com o Visconde òe Villa 
Maior, Júlio Máximo ôe Oliveira Pimentel, reitor òa Uni- 
versiôaôe ôe Coimbra e auctor ôo Douro lllustrado. 

Esta Poetisa foi mãe Ôa sr.» Marqueza ôe Bellas e Ôe 
Emilio Pimentel que fez as estampas com que seu pae or- 
nou o livro citaôo. 

A Senhora Visconõessa ôe Villa Maior escreveu um livro 
muito interessante e que foi aprovaôo pelo Conselho ôe 
Instrucção Publica — Poesias lyricas selectas de Lui^ de 
Camões (1876). A esta obra se refere Seabra ôe Albuquer- 
que na Bibliographia da Imprensa da Universidade, ano 
Ôe 1876. 

De D. Sophia ôe Roure Auffòiener Pimentel fala O Par- 
naso Mariano, coli9Íôo por Abilio Augusto òa Fonseca Pinto, 
Conimbricense muito ilustre. 

A SENHORA DA AGONIA 

Vós, Senhora ôa Agonia, 
Dos homens consolaôora, 
Tenôe ôó ôa peccaôora, 
Oh Virgem Sancta Maria ! •* 

De luz carecem as flores ; 
Sem luz extingue-se a viòa ; 
O iris Òe paz promettiõa 
Sem luz não tivera cores. 

Sem a graça, luz formosa 
Das almas, tuòo era pranto 
No munôo. A luz e o encanto 
D'esta terra tembrosa. 



Poetisas Portuguesas 283 

Ella em negra escuriôaòe, 
Ella, a canòiõa Joanninha 
De mal ò'amor se definha, 
De longa acerba sauõaõe. 

Dae, Senhora ôa Agonia, 
Dae á triste luz e esp'rança ; 
Dae-lhe ôias Õe bonança 
Oh Virgem Santa Maria ! 

Sophia Pimentel. Parnaso Mariano, 2.» eòição, Coimbra,. 
1890, pag. 100. 



D. AMÉLIA DE GUIMARÃES VILLAR 

D. Amélia õe Guimarães Villar é filha ôe D. Margariòa 
Guimarães Villar e õe José ]oaquim Marques Villar. 

Nasceu na freguezia õe Victoria õa ciõaõe õo Porto, em 
6-10-1890. 

Em 1908, principiou a escrever algumas quaõras, no se- 
manário õe Aveiro, Os Successos. 

Para satisfazer a vários peõiõos, tem colaboraõo nos 
jornaes : A Vo^ do Leça, A Scenielha, A manhã, A madru- 
gada, A semana lllustrada e Pontas de Fogo. 

Em 1909, publicou esta Õistincta Poetisa, o seu primeiro 
livro Õe versos — Tímidas Aspirações, que está exgotaõo, 
bem como o seu monologo, Um mau engano, eõitaõo em 
1910. 

Em 1916, apareceu o seu livro õe poesias Lagrimas, pre- 
faciaõo pelo ilustre poeta Campos Monteiro. 

Este ultimo trabalho também teve o mais elogioso aco- 
lhimento feito pelos principaes jornaes õo norte, entre os 
quaes mencionarei : O Primeiro de Janeiro, Cotnercio do 
Porto, Jornal de Noticias, etc. 

O soneto Miragem, que figura nesta Antologia, é copiaõo 
1 õo livro Lagrimas. 



284 Poetisas Portuguesas 

Em 1916, obteve o soneto a que me refiro, num concurso 
poético realisaõo pelo Correio Literário^ õe Lisboa, o pri- 
meiro premio, entre 175 concorrentes. 

VERSOS 

No teu peito ao meu amor 

oeste guariõa. 
Amo-te mais que ao munõo. 

E's minha viòa. 

Repara : — O amor que sinto 

No meu peito, 
E' o mais louco, o mais puro, 

O mais perfeito. 

Amélia õe Guimarães Villar. Tímidas Aspirações. 



MIRAGEM! 

Vejo-te em toòa a parte, a toôo o instante l 
Teus lábios a sorrir, nesse sorrir 
Que sabe comover e confundir 
Meu coração num goso Delirante. 

Vejo-te em sonhos, vivo, tam flagrante. 
Como uma rosa Õ'ouro a reflorir ! - . . 
Vejo-te em sonhos ! . Como é bom Òormir. . . 
Miragem tam sublime e tam amante ! 

E vejo-te no mar n'esse quebranto 
Da sua magestaôe e galharòia, 
E nos lamentos ôos pesares seus ! 

E vejo-te no ceu, cheia Òe encanto ! 
Tam bela como os olhos Òe Maria !. . . 
Tam pura como as lagrimas òe Deus ! 

Amélia òe Guimarães Villar. Lagrimas, Porto, 1919, pag. 
52. 



Poetisas Portuguesas 285 



ADITAMENTO 



I 



D. FLORENCIA DE MORAES 

D. Florencia õe Moraes nasceu em Vila Real. 

E' filha õe D. Anna Pereira Òe Moraes e õe José Correia 
õe Moraes. 

Esposa õo Dr. Abel ]osé Fernanões, juiz ôo Ultramar, 
D. Florencia õe Moraes tem estaõo, acompanhanõo seu 
mariõo, em S.'» Antão õe Cabo-Verõe, em Pangin e em 
Moçambique, onõe resiõe ha 8 anos. 

E' auctora õe : "Vo^es da Índia (poema) e Fé e Vagar, pe- 
quenos livros õe sonetos em alexanõrinos ; tem prompto, a 
entrar no prelo, um novo livro õe versos. Em 1911, publi- 
cou em Vila Real um pequeno opúsculo, em verso, Para 
as crianças. 

Tem colaboraõo na Aurora da Liberdade, Povo do Norte^ 
Districto de Dila Real, Novidades, Evolução, e nalguns jor- 
naes õe Cabo-Verõe e Inõia. 

Devo estes apontamentos á granõe amabiliõaõe õum pa- 
trício õesta Senhora, o conheciõo e apreciaõo jornalista e 
escriptor, Dr. Sousa Costa, auctor ôa Pecadora, Fructo pro- 
hibido, Coração de mulher, Sempre virgem, etc. 

SONETO 

— O' meu paiz sauõoso, onõe ha poentes 
õe sangue e õe viuvez em caõa outomno 
em ti quero õormir o ultimo somno 
õe amor e morte sob a cruz õos crentes. 



286 Poetisas Portuguesas 



E tu, coração meu, tem bem presente 
as horas ôe sauôaõe e õe abanòono, 
como um Õoente, occiòental outomno, 
passaòas sob os inõicos poentes. 

A noite e a viõa, esse mysterio enorme 
que junto ao seio ôe ignoto òorme, 
como o Iõeal que ôentro em nós habita, 

vae ôum a outro polo, como os ventos, 
na rosa colossal ôos pensameutos, 
ôispersos pela abob^ôa infinita. 

Florencia ôe Moraes. Vojes da índia. 



^ 



! 
: 



índice 



Pag. 

Prefacio V a XV 

Achioli {Maria Anna) — Chapinhanôo 1 

Lar feliz 2 

Agoas ( Virgínia da C. Silva) — Sauôaòe 4 

Imaculada 5 

Dormir, esperar 6 

No Calvário espinhoso õesta viôa 6 

Aillaud (Maria Cecília) — A' memoria õe meu caro 

filho Manoel Matias Vieira 8 

De colina em colina vagueanòo 8 

Albuquerque [Anna de) — Sae-nos òo coração um 

pranto arõente 10 

Albuquerque {Mafalda Mousinho de) — Sombra .... 11 

Sem remeõio 12 

Por que te amo 13 

/^quo animo! 14 

Prece. 15 

Um encanto 16 

Albuquerque {Mecia Mousinho ie)— Depois òo baile* 18 



* Esto lignal indica qao as poesias a que se refere tSo inéditas. 



'^'^88 Poetisas Portuugesas 



Occultas magoas 19 

A' memoria ôe Freôerico Pinheiro Chagas.. 20 

Alorna {Marquesa de) — Soneto 23 

Soneto 23 

Soneto. . . 24 

Andrade (Mariana Angélica de) — A minha estrella. 26 

Mysterios ôo toucaõor 27 

Andrade (Marianna Belmira de) — A minha terra. . . 28 

Araújo {Condessa de Almeida) — VUIancete 31 

Villancete 31 

Arriaga {Maria Christina de) — Um segreòo 33 

Arthur (Maria Ribeiro) — A minha Pátria . 35 

Athouguxa e Almeida {Maria Helena Jervis de) — De 

rêve en rêve ^ 38 

A lagrima 38 

Reminiscência 39 

A^iul — No anno ôe 1917 * 41 

O outomno 42 

Tu e só tu 43 

Sol • 43 

Balsemão ( Viscondessa de) — Misericorõia 45 

Sapho 46 

Uma paixão 46 

Barbosa {Hortencia Paulina de Lima) — A pastora . 4» 

Bastos (Maria Jacintha Teixeira) — O futuro * . . • • 49 

Meu coração * 50 



Batalha (Elisa Toscano) — Meu tormento 52 

Anjinho infortunado 52 

De volta ao Curral • 53 

Blasco (Mercedes) — Bohemia 56 

Casta 57 



C«,u.o iMaria José, _ Mag5ale„a 
^■'"■""' <^"""^''^'')- As palmas.. 

"^^"^K-S-'-''°-^ 



Poetisas Portuguesas^ 289 

Belém (Ejilier ^,„a„c da Cu,,/,.^ , - 

J= rosas ôa raSha ^' " '"'^ »^ Deus'. 58 

Ç^ Creche 59 

Para os orphãos..' .' ' 59 

•"^''"Atír^.'^:"--«^^)-A„.Ma„;'::." 

Lourdes "■ ^g 

Ante uma caveira.'.".'.*.';; ' " ' 66 

67 

68 
70 
72 

FÍor;qu7morr^7'^°''^"^ 75 

Orphãs ■ j? 

Minha sina ....'; 77 

Pobre morta 77 

Velhinho....: lo 

Esquecimento. . ...'.* 81 

Viôas Jj 

Soffre-se tanto peia viôa 'fora! ." 82 

Carvalho (Maria Amália Var de) a . ^ • 

. , „ ^ ^' ~" A anõorinha . . 

-^<eWra„co (Jo„,a ,e) _ Tristea . 

astello Branco {Calharim Mmí„,„ j c- 

"^"°ms^?í':?!'.::.«- -•-.';■ .■;■;;';.■.• 



83 
87 

89 

91 



93 
94 

95 
96 



97 
19 



290 Poetisas Poriagueêas 



Casiello Branco (Maria Figueiredo Feio Rebello) — 

Fé* 100 

A canção õo mar • 100 

Castilho {Emitia Augusta de) — Visão 102 

Castro {Cacilda Pinto Coelho de) — Nas ruinas õo 

convento õe Almoster.. 105 

O garoto õos olhos azues 106 

Suposição 107 

Célia Roma — Nuvens 110 

Chaves (Laura da Fonseca) — Raciocínio õe criança 112 

Soneto 113 

O amor e o tempo 114 

Atempo . 114 

A morte õa Micas • • 123 

Colaço (Branca de Gonla) — Nihil ! 116 

Preluõio 117 

Meu amor 118 

Historia silenciosa 118 

Peõinôo esmola 119 

Colaço (Lia de Magalhães) — Os teus olhos * 120 

Sem titulo * 121 

Cunha (Maria da Conceição Pereira da) — Quaòras 123 

Des vers faits a mon cceur ! 124 . 

Cunha (Maria da) — Proemio 127 

Cromo 127 

O Infante òe Sagres 128 

Meio òia 129 

Virtuòes íeologais 129 

Clauõia 130 

Dolores (Soror) — A' senhora Marietla Gresti 13l| 

Eduarda (Emilia) — N'um álbum 133" 

Escareio (Júlia Eugenia Silva de Pereira Lúcio) — 

O nosso amor . . . . : 1 - 



Poetisas Porfuguesas 291 



A um crucifixo 136 

Peccaòora 136 

Ferreira {Isabel) — Mãe 137 

O pobrezito 138 

P^erretra (Lui^a) — 19 Ôe Agosto 138 

3 õe março 139 

A creança e a Velhinha 139 

Gamito [Maria IjabelJ — Palavra santa 140 

Inverno 141 

Velho 141 

' ^:esta — Sauaaòe * 143 

Dia D'annos 144 

Estrella Do norte * 145 

Gusmão (Júlia de) — Além 147 

N'um jazigo 148 

Ivalda — Semente pequenina 150 

Quero sonhar 1 50 

Janny {Amélia) — Aos annos Ôe minha mãe 154 

Camará arôente 155 

Soneto 156 

JAma {Gertrudes Ferreira) — Sauôação 159 

Lucena {Albertina de) — Já tarde . . . . , 162 

Lupi {Tiertha) — Distrahiòa 163 

Ao espelho cruel 164 

Macedo {Clorinda Máxima de) — Um quaôro 165 

Machado {Alda Guerreiro) — Sauòaôe 167 

D. Henrique * 168 

Nuno Alvares * 1 69 

Duarte Ôe Almeiôa * 169 

Egas Moniz * 170 

'aia {Emilia Adelaide Moni^ da) — Autografo ôe 

Gonçalves Dias * 173 



r, 



292 Poetisas Portuguesas 



Dôr suprema 174 

O amor òe Deus 174 

Meu Deus, meu Deus, porque me abando- 
naste? 175 

oMagalhães {Cândida Ayres de) — Riso para os ou- 
tros 177 

MociÕaÕe 177 

Lagrimas 178 

Sauõaôe 179 

^Maldonado {Marianna Antónia Pimentel) — A' Grã 

Bretanha 180 

Mello {Zulmira de) — Somnambula 1 82 

Phantasia.. 183 

A' beira-mar 183 

Mendonça {Maria José Furtado de) — O rei õe Thule 184 

Miranda {Arsenia Bettencourt) — Anhelos 187 

Moderno Alice — Miniatura 189 

Lagrimas 189 

Creanças 189 

Nogueiras {Viscondessa das) — Uma noite ôe luar.. • 191 

Ondina — Pombas feridas 193 

(JNeill {Maria) — Flirt * 199 

O que só termina com a morte 199 

Um sonho 200 

Após uma jornada ô'amargura 200 

Pacheco (Águeda Leonor Alvarrão) — Porquê ? . . . . 202 

Trovejando 202 

'Pacheco {Guilhermina Alvarrão) — A tarde 204 

Pacheco Simões (Maria José Alvarrão) — Novas al- 
voradas 206 

Fragmentos do Hernâni. 208 

Paraií^o {Albertina) — A minha mãe • . • 211 



Poetisas Portuguesa;^ ^'ií%,293 



Mares 211 

MaÕona 212 

Naufrágio • 212 

Dolorosa 213 

'Parreira (Maria Cândida de Bragança) — Lembras- 
te? . 214 

Suplica .... 215 

SauôaÒe 215 

Patrício [Maria Magdalena Valde^ Trigueiros de Mar- 
te!) — Lheure rouge 219 

Oraison aux õentelles. 219 

Peixoto (Maria do Canuo) — Deixae que eu sonhe. 220 

A uns olhos 221 

Pereira (Eugenia Rego) — Ao cair õa tarõe . j • . . • 222 

Echos que passam 223 

Pereira {Lui^a Maria) — Tributo ôe sauôaõe 224 

Pereira [Maria da Costa) — A minha irmã 225 

Pinheiro [Beatri^) — Crisálida. 229 

Hino ao sol 229 

A',memoria ôo poeta õas «Peninsulares» Dr. 

Simões Dias 230 

Plácido {Anna Augusta) — Malõita ! 234 

A Camillo Casíello Branco 235 

Pomares [Marquei(a de) — SauÒaòe 237 

Possolo [Francisca de Paula) — Juramento õe amor 238 

Epistola 239 

Prata [Maria Adelaide Fernandes) — O filho ôe Deus 240 

Pusich [Antónia Gertrudes) — MaÔeira 243 

Ratnos [Clotilde '%afaela de 'Bataria) — Quaõras- . 246 

Ramos [Maria Carolina) — Quaõras 247 



294 Poetisas Portuguesas 

Ramos (Zulmira) — Maio 248 

Rego Sénior (Emilia Acciaioly) — O arco iris 249 

Reis [Maria Leonor) ■— Assim te foste ! 251 

Assim te poões ir 252 

Sá {Anna Amália Moreira de) — Sauõaõe 254 

Santiago (Esmeralda de) — Outr'ora 255 

Hoje 256 

Santos {Rosalinda Celeste de Figueiredo)— Vomhzs* 257 

Ao meu Rui * 258 

Silveira [Maria Olga Moraes Sarmento da) — Never 

More 261 

Serrão [Eiva da Cunha) — Soneto 262 

Soneto.. . 263 

Souja [Maria Perigrina de) — Parábola òa minha 

viôa 264 

Torre^ão [Guiomar) — A minha mãe 266 

Varela [Rosa) — Lei universal * 267 

Provações õa viõa 268 

Desventura 268 

Vasconcellos i Maria da Gloria Teixeira de) — Pri- 
meiros cuiòaòos 269 

Soneto 270 

FíTf [Maria Amélia) — Mortinha . . • . 271 

oxioriniT OjIioíoiT -rrO oiiorínil otc'/,' 
aitnEÍfit ?.n\\6 ;?itnf.'lní í>rX-/- 



Poetisas Portuguesas 



295 



Vidal (Q^ngelina) — Confronto 280 

Canção Ôo engeitaòo. • . . . > 280 

A pena õe morte 281 

Villa Maior (Viscondessa de) — A Senhora õa Ago- 
nia 282 

Villar (Amélia de Guimarães) — Versos 284 

Miragem , . 284 



ADITAMENTO 
Moraes (Florencia de) — Soneto . . . 



285 



ERRATAS PRINCIPAES 



Pag. 


onde sele 


deve ler-se 


7 


Metestasio 


Metastasio 


15 


Doixae-me 


Deixae-me 


52 


Só teus 


Só tem 


56 


ez 


fez 


74 


D. Domilla 


D. Domitilla 


160 


Õos filhos Peõro 


õos filhos Ôe Peõro 


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moyeu 


moyen 


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rheuse 


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PQ Cardoso, Nuno Catharino 
9033 Poetisas portuguesas 
C3 



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